Lei contra homossexuais na Rússia gera apelo a boicote aos Jogos de Inverno

Popular actor e comediante britânico compara Rússia de Putin à Alemanha de Hitler.

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O Presidente russo, Vladimir Putin, com o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron ALEXEY NIKOLSKY/ria novosti/afp

O actor britânico Stephen Fry pediu ao Comité Olímpico Internacional (COI) que retire a organização dos Jogos de Inverno à Rússia, em protesto contra a aprovação de leis que condenam a "propaganda da sexualidade não-tradicional". Numa carta aberta ao COI e ao primeiro-ministro do Reino Unido, Stephen Fry compara a Rússia de Putin à Alemanha de Hitler.

"Escrevo com a sincera esperança de que todos os que amam o desporto e o espírito olímpico reflictam sobre a mancha que caiu sobre os cinco anéis nos Jogos de Berlim de 1936, que se realizaram sob a égide de um tirano que tinha aprovado uma lei, dois anos antes, que levou à perseguição de uma minoria cujo único crime foi o acaso do seu nascimento", começa a carta escrita por Stephen Fry, publicada no Tumblr.

Depois da perseguição e extermínio de judeus na Alemanha nazi, nas décadas de 1930 e 1940, o actor considera que a Rússia de Vladimir Putin ameaça tornar-se num caso semelhante, desta vez em relação aos homossexuais. "Putin está assustadoramente a repetir este crime demente com russos LGBT [sigla para lésbica, gay, bissexual e trangénero]. Espancamentos, assassinatos e humilhações são ignorados pela polícia. Qualquer defesa ou discussão sensata sobre homossexualidade é contrária à lei", denuncia o actor e comediante.

Por isso, "o COI tem a obrigação de assumir uma posição firme em nome da partilha humanitária, que é suposto representar, contra a lei fascista e bárbara que Putin fez aprovar através da Duma [a câmara baixa do Parlamento russo]", defende.

O apelo do popular actor britânico dirige-se ao Comité Olímpico Internacional, na pessoa do seu presidente, o belga Jacques Rogge: "Peço-vos que resistam às pressões do pragmatismo, ao dinheiro, à cobardia dos diplomatas, e que marquem uma posição de forma resoluta e orgulhosa pela humanidade em todo o mundo, tal como o vosso movimento se comprometeu a fazer. Agitem a vossa bandeira olímpica com orgulho, ao mesmo tempo que nós, homens e mulheres gay, agitamos a nossa bandeira do arco-íris com orgulho. Sejam suficientemente corajosos para estarem à altura dos juramentos e dos protocolos do vosso movimento."

Na mesma carta, Stephen Fry deixa de lado as diferenças partidárias em relação ao primeiro-ministro britânico, David Cameron, e sublinha o que os une: "Como líder de um partido ao qual me tenho oposto quase toda a minha vida, você revelou um compromisso determinado, apaixonado e claramente honesto com os direitos LGBT e ajudou a passar o casamento gay por ambas as câmaras do nosso Parlamento, face à veemente oposição de muitas pessoas no seu próprio partido. Irei admirá-lo para sempre por isso, independentemente de outras diferenças que existam entre nós. Em última análise, acredito que você sabe distinguir o que é certo e o que é errado. Por favor, aja de acordo com esse instinto neste caso."

Em conclusão, Stephen Fry defende que "é essencial que os Jogos Olímpicos de Inverno na Rússia sejam proibidos. Realizem-nos em outro sítio qualquer, no Utah [Estados Unidos], em Lillehammer [Noruega], onde quiserem. É preciso evitar a qualquer custo que Putin seja visto a receber a aprovação do mundo civilizado".

A próxima edição dos Jogos Olímpicos de Inverno está marcada para Fevereiro de 2014, na cidade russa de Sochi.

Em 1980, o então Presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, decertou um boicote aos Jogos Olímpicos de Moscovo, em protesto contra a invasão do Afeganistão pelas tropas soviéticas. Quatro anos depois, o Governo de Konstantin Chernenko decidiu boicotar os Jogos Olímpicos de Los Angeles, alegando receios pela segurança dos seus atletas.