Tradutores estrangeiros de Inferno de Dan Brown estiveram fechados para evitar fugas de informação

A tradução portuguesa chegou esta quarta-feira às livrarias, dois meses depois do lançamento mundial

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Itália é o cenário do novo livro de Dan Brown. Desta vez a cidade escolhida foi Florença Reuters

A nova história de Dan Brown, Inferno, já está no mercado desde Maio, mas só agora chegou a tradução portuguesa. Traduções como a italiana, a brasileira ou a francesa foram postas à venda em simultâneo com o original, mas houve um preço a pagar: os tradutores trabalharam encerrados numa cave durante dois meses.

Numa entrevista à BBC News, em Maio, Dan Brown chamou-lhe “uma operação militar”, e revelou que os tradutores estiveram em dois bunkers, um no Reino Unido, outro em Milão, protegidos por seguranças armados. Em Milão, 11 tradutores trabalharam sete dias por semana, até às oito da noite, num piso subterrâneo do edifício da Mondadori, editora italiana.

Todos os dias à entrada os tradutores entregavam os seus telemóveis e qualquer outro aparelho que lhes permitisse a comunicação com o exterior. Sempre que faziam uma pausa fora do bunker tinham de a registar e não podiam discutir o livro e a sua trama entre si. Podiam almoçar na cantina comum a todos os funcionários do edifício, mas se quisessem conversar com alguém tinham de dar justificações falsas para o facto de estarem ali. “Estamos numa época de pirataria e em que os editores querem vender livros”, disse Dan Brown em Maio, à BBC News para justificar o secretismo e segurança em torno do seu mais recente livro.

Eduardo Boavida, editor da Bertrand e de Dan Brown em Portugal, considera normais este tipo de cuidados quando os livros geram tanta curiosidade. "Uma fuga de informação afecta a expectativa dos mercados e com a informação global, estaria rapidamente por toda a parte", diz. "O editor tem sempre confiança nos tradutores e gráficas com quem trabalha, mas estas traduções tinham muita gente envolvida e ultrapassavam as confianças locais."

A tradução portuguesa não foi feita sob as condições especiais das traduções lançadas em Maio. Isto porque o livro, que está à venda desde quarta-feira, começou a ser traduzido depois do lançamento do original. "O critério de selecção dos países presentes na primeira tradução deve ter sido o dos mercados de maior expressão", diz Boavida, lembrando que havia uma grande limitação de espaço nesta operação, sendo impossível a participação de um maior número de tradutores.

A tradução portuguesa demorou 1 mês e envolveu três tradutores e um responsável pela uniformização do texto,  cuidado especial a ter quando autores como Dan Brown usam terminologia muito específica. Os tradutores foram obrigados a um trabalho acrescido de pesquisa sobre os temas tratados no livro. "Foi um trabalho mais difícil seguramente para os que estiveram fechados [no bunker] porque lhes retirou a possibilidade deste trabalho autónomo", diz Eduardo Boavida.

Carole Del Porte, tradutora francesa do livro, disse à revista italiana Sorrisi e Canzoni em Abril, depois de terminada esta operação, que aqueles dias lhe permitiram mergulhar completamente no trabalho de Dan Brown. “Foi uma experiência única e fantástica. Não tinha nada com que me preocupar e pude concentrar-me no meu objectivo: conseguir a melhor tradução possível para os leitores”, disse.

O objectivo era ter traduções prontas a serem comercializadas em simultâneo com a versão original de Inferno, sem que isso significasse fugas de informação. Foi conseguido. "Mantivemos o segredo até ao último momento", disse Dan Brown em Maio ao canal inglês.

Em Portugal, sem uma tradução para português de Inferno durante quase dois meses, foram vendidos cerca de 2 mil exemplares do original. Para o editor, a rapidez com que a informação circula cria a vontade no leitor ter acesso à obra imediatamente. Boavida admite que o número de exemplares vendidos em inglês não é de ignorar mas destaca a pressão dos leitores para haver acesso imediato ao livro -  a Bertrand tentou que Portugal participasse no lançamento mundial precisamente para corresponder ao desejo dos leitores de ler o livro ao mesmo tempo que o resto do mundo e não apenas por causa dos lucros financeiros, diz.

No novo livro, a personagem principal é mais uma vez Robert Langdon, professor de simbologia em Harvard, que percorre Florença guiando-se por passagens do Inferno, de Dante, e decifrando as fachadas dos edifícios florentinos e as obras de arte do Renascimento.

Em Portugal o livro conta com uma tiragem superior a 100 mil exemplares. Não falando em números, a Bertrand diz que as vendas feitas no site desde 14 de Maio revelam “números animadores”. Em Portugal, Dan Brown vendeu 2 milhões de livros. O Código Da Vinci é o livro mais vendido do autor, com 700 mil cópias.