Erdogan dá por terminada a revolta, polícia prende “provocadores”

Primeiro-ministro turco atribuiu manifestações das últimas semanas a “traidores” e elogia o comportamento “democrático” da polícia. Dezenas de militantes de grupos de extrema-esquerda detidos em Istambul e Ancara.

Erdogan voltou a acusar os manifestantes de serem "traidores" e "saqueadores"
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Erdogan voltou a acusar os manifestantes de serem “traidores” e “saqueadores” Reuters

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, assegurou nesta terça-feira ter derrotado, com o apoio dos seus partidários, a “conspiração” urdida contra o Governo por “traidores e os cúmplices no estrangeiro”. Declarações surgidas na mesma altura em que dezenas de pessoas, sobretudo ligadas à extrema-esquerda, eram detidas numa operação policial relacionada com as manifestações das últimas semanas.

As detenções foram confirmadas pelo ministro do Interior, adiantando que, “para já, apenas os provocadores estão a ser levados para interrogatório”. Muammer Guler disse à televisão CNN-Turquia que 62 pessoas foram detidas em Istambul e outras 23 em Ancara, acrescentando que a operação estava a ser preparada há um ano pela Procuradoria contra a “organização terrorista MLKP [partido leninista-comunista], que participou igualmente nas manifestações no Parque Gezi”, ponto de partida da contestação a Erdogan.

A delegação de Istambul da Ordem de Advogados adiantou, por seu lado, à AFP que 90 militantes do Partido Socialista dos Oprimidos (ESP), uma pequena formação activa na organização das manifestações, foram detidos nas suas residências durante a manhã. A imprensa turca adianta também que o jornal Atilim e a agência de notícias Etkin, próximas da formação revolucionária, foram revistados. Há ainda informações de pessoas a ser detidas noutras 18 províncias do país.

A operação foi lançada depois de um fim-de-semana violento em Ancara e Istambul, com a detenção de mais de 600 pessoas, e depois de a greve geral convocada pelos dois grandes sindicatos turcos não ter conseguido provocar a mobilização esperada.

“A nossa democracia enfrentou um novo teste e saiu vitoriosa”, afirmou Erdogan na habitual reunião semanal dos deputados do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, pós-islamista), uma intervenção de mais de uma hora em que voltou a fustigar os “saqueadores” e “anarquistas” que ocuparam as ruas e acusou “a imprensa internacional” de ser autora de uma “campanha de desinformação” sobre a situação na Turquia.

“O povo e o Governo do AKP frustraram esta conspiração criada por traidores e pelos seus cúmplices no estrangeiro”, assegurou o primeiro-ministro, que aproveitou para sair de novo em defesa das forças de segurança, criticadas dentro e fora do país pela dureza da resposta às manifestações, que começaram com a contestação à construção de um centro comercial num dos raros parques do centro de Istambul e que acabaria por se transformar num movimento mais amplo de contestação ao Governo de Erdogan. “A nossa polícia adoptou uma atitude democrática contra a violência sistemática e passou com sucesso este teste de democracia.”

Apesar das declarações de Erdogan, e mesmo perante a ameaça do Governo de recorrer ao Exército para travar novas manifestações, em Istambul há ainda muitos sinais de protestos. O mais visível foi protagonizado na segunda-feira pelo artista Erdem Gunduz, que, durante várias horas, ficou, de pé e em silêncio, frente ao retrato de Kemal Ataturk, fundador da moderna Turquia, na Praça Taksim. Centenas de pessoas juntaram-se ao mudo protesto, antes de serem dispersadas pela polícia, mas nesta terça-feira dezenas de outros turcos seguiram-lhe o exemplo, permanecendo de pé, e em silêncio, na emblemática praça que se tornou símbolo da revolta.