Governo turco ameaça fazer avançar o Exército para controlar manifestantes

Cinco sindicatos marcaram para esta segunda-feira uma greve geral que o ministro do Interior classificou de "ilegal".

Manifestante enfrenta um canhão de água em Ancara
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Manifestante enfrenta um canhão de água em Ancara ADEM ALTAN/AFP

O vice-primeiro-ministro turco, Bulent Arinç, declarou esta segunda-feira de greve geral o seu apoio incondicional à actuação da polícia, que dispersou violentamente os manifestantes em Istambul e Ancara no fim-de-semana, e ameaçou com a possibilidade de fazer intervir o Exército. "O que temos de fazer é travar um protesto que é ilegal. Se não for suficiente a polícia, o Exército assumirá a situação", disse numa entrevista na televisão.

Esta segunda-feira decorre uma greve geral que o ministro do Interior da Turquia classificou como “ilegal”. O apelo à paralisação foi lançado por cinco sindicatos e duas centrais sindicais, em apoio da contestação ao Governo que dura já há 20 dias. Muammer Güler pediu aos funcionários públicos que não participem na greve. Se o fizerem, “sofrerão as consequências”, avisou.

“Há uma vontade de levar pessoas para a rua em acções ilegais, como manifestações e greves”, disse o ministro do Interior, numa conferência de imprensa em Ancara. “É impossível de compreender esta insistência”, afirmou Güler, citado pela AFP. O governante, nessa conferência de imprensa, garantiu também que não tinha chamado o Exército a intervir para controlar os protestos, diz a agência francesa.

Os ministros repetem o teor do que o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, já tinha afirmado na véspera, quando disse que estava a cumprir o seu “dever” ao “limpar” a Praça Taksim de Istambul dos manifestantes. “Eu avisei que se tinha tornado insuportável. Foi o meu dever de primeiro-ministro”, afirmou Erdogan.

Na greve geral participam duas grandes centrais sindicais (Confederação dos Sindicatos Progressistas, DISK, e Confederação dos Sindicatos do Sector Público, KESK), bem como sindicatos dos médicos, dos dentistas e dos engenheiros e arquitectos, segundo a edição em inglês do jornal turco Hürriyet. No total, representarão cerca de 700 mil associados, diz a AFP, e, além de pararem de trabalhar hoje, prevêem vir para a rua manifestar-se esta tarde – depois de os protestos terem sido reprimidos com especial ferocidade no domingo.

A polícia turca deteve perto de 600 pessoas em Istambul e Ancara nas manifestações antigovernamentais no domingo, afirmou a Ordem dos Advogados Turca – que fez um apelo ao secretário-geral do Conselho da Europa para verificar o excessivo uso da força contra os manifestantes. “Cerca de 460 manifestantes foram detidos pela polícia em Istambul”, disse fonte da Ordem à AFP, e em Ancara “entre 100 e 130 pessoas foram detidas”. A maioria serão libertadas, depois de interrogadas, mas há abundantes relatos de violência policial contra os manifestantes que são detidos.

Merkel critica
Perante este cenário de forte repressão das manifestações, a chanceler alemã, Angela Merkel, veio criticar de viva voz a violência policial usada para reprimir os protestos, afirmando que foi usada "mão demasiado pesada", depois de o seu ministro dos Negócios Estrangeiros ter já vindo a terreiro. "Há imagens assustadoras, em que se pode ver bem que a polícia reagiu de forma demasiado dura", afirmou Merkel, apelando ao respeito pela liberdade de expressão.

"O que se passa na Turquia não se corresponde, para mim, à nossa concepção de liberdade de manifestação e de expressão das opiniões", afirmou ainda a chanceler alemã, numa crítica clara ao Governo de Ancara, que está em negociações com a União Europeia com vista à adesão futura ao bloco europeu.

Soube-se entretanto que em Istambul foi agredido e preso um fotógrafo italiano, Daniele Stefanini, de 28 anos, nos confrontos no bairro de Bayrampasha. A ministra dos Negócios Estrangeiros italiana, Emma Bonino, está a acompanhar a situação.