Ângelo Correia critica “politização da tensão” entre Portas e Passos

Episódio das comunicações alternativas do primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros "nunca devia ter ocorrido", disse ex-governante que questionou mesmo a "consistência política" dos dois líderes partidários

Paulo Portas e Passos Coelho
Foto
Paulo Portas e Passos Coelho Daniel Rocha

O ex-dirigente do PS e antigo patrão do primeiro-ministro, Ângelo Correia, criticou esta quinta-feira a forma como o Governo geriu o anúncio das novas medidas de austeridade.

Numa entrevista à Antena Um, o gestor considerou inaceitável a “politização da tensão” entre os dois partidos da coligação, expressa nas comunicações de Passos Coelho e Paulo Portas.

“Foi algo de inédito e que nunca devia ter ocorrido. É original porque eu nunca aceitaria uma coisa destas”, disse o social-democrata. E explicou porquê: “Eu sou presidente de um banco e vou apresentar as contas do trimestre e daí a dois dias o meu número dois ou número três vai explicar o que eu disse. E as pessoas ficam a perguntar mas afinal não foi suficiente a explicação do presidente do banco?”

O problema, segundo o antigo ministro da Administração Interna, foi a revelação da tensão entre os dois partidos. “O que era lógico acontecer era: o governo tinha decidido um conjunto de coisas e havia uma questão que não estava resolvida em conselho de ministros, que a taxa especial aos pensionistas. O que é que era lógico e normal com gente com alguma consistência política? Dizer, vamos falar de tudo o que estamos de acordo, aquilo que não estamos de acordo vamos guardar para melhor oportunidade até combinarmos entre nós. Não se fala de tensões, nunca se fala de tensões em público entre nós. E eu não estou a discordar da existência da tensão! Porque cada partido tem a legitimidade de expressar a sua opinião. Estou a discordar da politização da tensão”, disse.

O empresário contestou ainda que o Governo esteja realmente interessado num consenso com o PS. “É um conceito discursivo que eu não sei se corresponde a um desejo anímico”, afirmou antes de lembrar os dois anos anteriores ao apelo no sentido do acordo com o principal partido da oposição: “Deviam cativar o PS desde o primeiro dia. Mas não o fizeram, pelo contrário. Agora é tarde.”