Também há curtas-metragens na Margem Sul

As Curtas Sadinas voltam a mostrar em Setúbal obras de animação e ficção, documentários regionais e curtas-metragens criadas nas escolas.

Animação, ficção, documentário regional e curta-metragem escolar são as quatro categorias que esta edição irá premiar. As duas primeiras ganharão dois mil euros, o documentário 1500 e o trabalho escolar mil. O público decidirá a menção honrosa.

Neste ano, as parcerias alargaram-se e será possível assistir às animações vencedoras do Festival Monstra 2013, assim como ver a exposição Desassossego, na Casa da Cultura, que mostra as maquetes, desenhos e adereços da curta com o mesmo nome, de Lorenzo Degl’ Innocenti. Uma exposição da produtora Sardinha em Lata que ficará em Setúbal até 2 de Junho e que já esteve na Cinemateca e no Museu da Marioneta, em Lisboa, e na Casa da Animação, no Porto. O realizador estará presente na inauguração, dia 11, às 18h.

“As Curtas Sadinas são uma maneira de atrair a Setúbal a curta-metragem nacional. Já temos o Festróia, de longas-metragens, mas apercebemo-nos de que há cada vez mais pessoas interessadas em curtas, sobretudo jovens”, diz Ana Luísa Cândido, da Divisão de Cultura da Câmara Municipal de Setúbal, organizadora do concurso. “Os grandes festivais nacionais de curtas são em Lisboa e em Vila do Conde, mas é preciso ir descentralizando”, defende.

Se um dos objectivos é o de promover o cinema e o audiovisual, em sentido lato, outro é o de dar a conhecer a região. A categoria de documentário regional serve exactamente esse propósito, explica Ana Luísa Cândido: “Circunscrevemos geograficamente o documentário para estimular os jovens a conhecerem o distrito e a divulgarem-no. Há dificuldade em suscitar o interesse das pessoas por Setúbal, de que só se realça normalmente os aspectos negativos.” Também se pretende contrariar a ideia da cidade “como uma mera passagem para Tróia ou para o Sul”.

Segura-te!
O envolvimento das escolas, sobretudo de ensino secundário, na produção de obras tem sido crescente, com os professores de disciplinas de multimédia a orientarem os trabalhos, todos obrigatoriamente criados em contexto pedagógico.

Eurico Coelho é um desses professores. Vencedor na categoria de animação na I edição das Curtas Sadinas, 2007/2008, com o trabalho SNº1042 (uma versão embrionária pode ser vista aqui), o designer e professor do Curso Profissional de Técnico Multimédia na Escola D. João II, em Setúbal, coordenou uma turma de alunos para um trabalho a concurso neste ano: Segura-te! “É uma animação em flash sobre prevenção rodoviária e destinada a crianças”, descreve, explicando que o projecto resultou de um pedido da PSP, no âmbito da Escola Segura.

O professor integrou o trabalho nos módulos de aprendizagem do currículo de 11.º e 12.º anos. “A escrita da história, os storyboards, a banda sonora”, enumera, sublinhando no entanto que o seu papel foi apenas de orientação, “a animação foi toda pensada e executada pelos alunos”. Média de idades: 17 anos.

Outra experiência com alunos de Multimédia, O Mundo do João, valeu-lhes, em 2009, o 3.º Prémio Nacional de Inovação Pedagógica (Sinase, Prémios de Reconhecimento à Educação), e uma menção honrosa no projecto Escola Alerta.

A título individual, Eurico Coelho, que se diz “produtor de vídeos muito, muito autónomo e independente”, concorre com A Formiga no Carreiro, uma animação inspirada na música de José Afonso. “De uma forma irónica e com um software que já não existe, tentei criar um ambiente futurista, com todos a competir e a querer marcar a sua posição. Quis mostrar como vai deixando de haver contacto entre nós, as formigas. No formigueiro em que ninguém se toca, a formiga que cai sozinha.” Este não é o primeiro trabalho que realiza com base em canções de José Afonso, Era Um Redondo Vocábulo; Paz, Poeta e Pombas; Se Voaras mais ao perto e Maio Maduro Maio foram outras das animações que criou inspirado no compositor.

Entre as várias participações nas Curtas Sadinas, conta ainda com uma menção honrosa em 2011, com O Mestre, numa categoria que o concurso deixou de contemplar, ensaio multimédia. A sua obra Elevators foi exibida, em 2009, no Festival Internacional de Cinema Erótico, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, HSBC – Belas-Artes de São Paulo e Espaço Cultural 508 Sul em Brasília, Brasil.

Colaborador há dez anos com o Teatro do Mar e com o grupo Moonspel, Eurico Coelho acredita que “começa a haver uma dinâmica na cidade à volta do audiovisual, com pessoas a trabalhar com gosto e a criar trabalhos de qualidade”. Para este professor, que tem “paixão por animação e composição multimédia”, as Curtas Sadinas “cumprem o objectivo de estimular o interesse pelas curtas-metragens e dar a conhecer o que se faz no país”.

Importância de atrair a 'nata'
Opinião diferente tem António Aleixo, que na edição de 2008/2009 venceu na categoria de ficção, com No Oitavo. O realizador prefere chamar “certame” às Curtas Sadinas, “por discordar da visão de festival que a organização tem do mesmo”, diz ao PÚBLICO via email, a partir de Ho Chi Minh, Vietname, onde trabalha actualmente. E prossegue: “Acho importante a existência de um evento do género numa cidade como Setúbal, que, embora já distante da quarta maior metrópole do país que foi nos anos [19]80, mantém ainda assim um estatuto muito relevante pela sua história.”

Para António Aleixo, “um festival no século XXI não é (nem pode ser!) apenas uma mostra de trabalhos...” Por isso, lembra que o Curtas Sadinas, apesar de ter “dos mais altos prémios monetários para curtas em Portugal, continua a não atrair a ‘nata’”. E explica: “Não basta lançar o repto e um prémio monetário para atrair os melhores do país. Acima de tudo, quem concorre procura exposição e reconhecimento.”

Defende então: “Um festival de cinema hoje em dia vive de interacções multiculturais, de intervenções sociais e de muito mais que apenas filmes. É preciso promover a marca, ir ao encontro da população onde esta se encontra. Seja com concertos, exposições, palestras, etc. É preciso surpreender e conhecer muito bem o meio, obviamente. O certame setubalense nunca conseguiu nada disso por uma série de circunstâncias, entre as quais o facto de o Curtas Sadinas não ter sido idealizado nem mais tarde desenvolvido por gente do meio e, mais grave ainda, por não se conseguir impor individualmente e de forma independente.”

Com uma nova curta de ficção terminada este ano, 16.10.12, que não enviou para o “certame”, o realizador diz que “o Curtas Sadinas é uma actividade desenvolvida pela Câmara Municipal de Setúbal, que o usa para fazer número na lista de eventos culturais anuais”. E tem a convicção de que “não existe um verdadeiro interesse em desenvolver o festival, apenas interessa dizer que se faz”. Também pensa não existir “um verdadeiro interesse em desenvolver a marca Curtas Sadinas, pois isso significa investimento e trabalho adicional. Daí a pobreza do cartaz ano pós ano ou a comunicação deficiente...”

Ana Luísa Cândido, da organização, diz que as Curtas Sadinas ganharam “um novo fôlego este ano”, lembrando as diferentes parcerias firmadas para esta edição, “que têm permitido desenvolver um trabalho de promoção do evento durante todo o ano, nomeadamente com os programas Conversas com Realizadores, As Curtas Vão à Escola, as Sessões Pais e Filhos e os diversos workshops de introdução ao cinema, envolvendo as escolas, a cidade e as famílias”. Aquela responsável da Divisão de Cultura aproveita para enumerar os parceiros desta edição: “Escola Superior de Educação, do Instituto Politécnico de Setúbal, a Associação Festróia, a Sociedade Musical Capricho Setubalense, a Casa da Avenida, o restaurante Passo do Olival, o jornal Setúbal na Rede, a revista online Rua de Baixo e os festivais Monstra e Shortcutz Lisboa.”

A terminar, sugere divertida: “Venham a Setúbal, às Curtas Sadinas. A entrada é gratuita. No domingo de manhã (11h), por exemplo, haverá uma sessão Pais e Filhos, com uma selecção dos filmes Monstra. Vêem o filme, depois almoçam choco frito e a seguir passeiam junto ao mar.”
Programa das Curtas Sadinas no Facebook.
 

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