Versão do Tannhäuser de Wagner em cenário de Holocausto foi cancelada na Alemanha

A produção de Tannhäuser para a Ópera do Reno, de Dusseldorf, incluía uma câmara de gás e uma família a quem era rapado o cabelo antes da execução, o que provocou “stress psicológico e físico” em membros da audiência

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A produção de Burkhard Kosminski tem como cenário um campo de concentração. Hans Jörg Michel/cortesia da Ópera do Reno

Uma produção da ópera Tannhäuser, de Richard Wagner (1813-1883), foi cancelada na Alemanha depois de críticas ao realismo das cenas de judeus a serem executados e a morrerem nas câmaras de gás, noticiou na quinta-feira a AFP. A produção, que inaugurou no fim-de-semana na Ópera do Reno, em Dusseldorf, constrói para a ópera de Wagner o cenário de um campo concentração. Provocou “protestos violentos” na noite de estreia, de acordo com a imprensa local.

A direcção da Ópera do Reno disse que estava ciente de que o “conceito e encenação” de Burkhard Kosminski provocariam “controvérsia” e decidiu cancelar a produção, mantendo apenas os concertos sinfónicos. “Depois de considerarmos todos os argumentos chegámos à conclusão de que não podemos justificar um impacto tão extremo do nosso trabalho artístico. Com preocupação notamos que algumas cenas (especialmente a de fuzilamento) estão representadas de forma muito realista”, tendo provocado “stress psicológico e físico” a membros da audiência, escreveu o teatro num comunicado. Membros da audiência procuraram ajuda médica, depois de assistirem ao espectáculo, escreveu o site da BBC.

A direcção do teatro ainda ponderou fazer alterações na ópera mas Kosminski “recusou” invocando “razões artísticas”, lê-se no comunicado. “Claro que temos de respeitar – também por razões legais – a liberdade criativa do encenador”.

O representante da comunidade judaica de Dusseldorf, Michael Szentei-Heise, disse à Associated Press que “membros da audiência deram murros na porta como sinal de protesto quando deixaram o teatro”. Szentei-Heise considerou que a adaptação era de “mau gosto”.

Wagner era, segundo a BBC, um anti-semita proclamado e um dos maiores fãs da sua música era Hitler. Por isso as produções das suas óperas na Alemanha costumam gerar polémica. O ano passado, o barítono russo Evgeny Nikitin foi forçado a retirar-se do papel principal de Tannhäuser quando se soube que em jovem – tocava numa banda de heavy-metal - tinha feito uma tatuagem no peito com uma cruz suástica.

Wagner apresentou pela primeira vez Tannhäuser no Teatro Real de Dresden no dia 19 de Outubro de 1845 - uma ópera em três actos, baseada no mito do trovador dividido entre os amores da deusa Vénus e de Santa Isabel da Turíngia. A história decorre no século XIII e a ópera tem início no Reino de Vénus onde o Trovador se rendera à deusa, centrando-se na luta entre o amor sagrado e o amor profano.

O bicentenário do nascimento Wagner vai ser celebrado este ano e muitos teatros alemães planeiam apresentar novas produções das suas óperas.