Caixa Geral de Depósitos cancela oferta de livros com "linguagem erótica"

Iniciativa entre a editora Saída de Emergência e o banco foi cancelada em cima da data pelo teor das obras a oferecer aos clientes.

Banco considerou que alguns livros não têm uma linguagem adequada à imagem do banco
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CGD considerou que alguns livros não têm uma linguagem adequada à imagem do banco Malte Jaeger

Esta terça-feira celebra-se o Dia Internacional do Livro e para os clientes da Caixa Geral de Depósitos (CGD) poderia ter sido um dia em que receberiam um livro de graça. A parceria foi estabelecida entre a editora Saída de Emergência e a CGD, que só no final da semana passada percebeu que alguns livros não seriam adequados à imagem do banco pelo seu conteúdo erótico e linguagem menos apropriada. Por isso , hoje não houve livros para ninguém.

A ideia partiu da Saída de Emergência, que aproveitando a data especial viu na CGD um veículo de divulgação para algumas das suas obras. Propôs por isso uma parceria ao banco, que ofereceria sem qualquer custo um livro a todos os clientes. A ideia foi bem recebida pela CGD, que aceitou prontamente, sem impor qualquer condição à editora, como conta ao PÚBLICO João Gonçalves, responsável pela Saída de Emergência.

No entanto, inesperadamente, na sexta-feira os responsáveis da CGD contactaram a editora para a informar de que a iniciativa, que já tinha sido anunciada ao público, seria cancelada porque “alguns livros continham linguagem com o potencial de ferir a susceptibilidade de alguns clientes, não os considerando adequados ao posicionamento e imagem do banco”.

“Foi tudo um mal-entendido”, diz ao PÚBLICO João Gonçalves, explicando que o banco apenas informou a editora de que a iniciativa não era viável, não dando uma alternativa que poderia passar por retirar da oferta os livros “de cariz erótico e com uma linguagem mais agressiva”.

Em causa estão livros como Sr. Bentley, o Enraba Passarinhos, de Ágata Ramos Simões, uma obra que segundo a sua sinopse “carrega com alegria sobre os ombros tudo o que de mais abjecto, medonho, mesquinho, estúpido e medíocre os portugueses têm”. Despertada, uma história de vampiros assinada por Kristin Cast e P. C. Cast, dedicada “aos adolescentes que se entendam pertencentes ao grupo lésbicas, gays, bissexuais e transgénero”, como se lê no próprio livro, também estava no lote das obras para oferecer aos clientes. O jornal i que teve acesso a emails internos da CGD, acrescenta ainda o livro Quando Dormes nunca Te Odeio de Hugo Santinhos Pereira cuja capa mostra uma mulher nua e no interior tem passagens como: "Só sei que estou vivo porque me esporrei."

“Íamos oferecer 80 títulos e é com pena que não o fazemos”, continua João Gonçalves, acrescentando que no total seriam 12 mil os livros oferecidos.

Mas se entre a lista de ofertas estavam autores mais controversos para a CGD, também é verdade que existiam algumas obras de nomes conhecidos como Peter Ackroyd, Anne Bishop ou Nora Roberts.

O PÚBLICO questionou a Caixa Geral de Depósitos sobre a posição tomada e o porquê de não ter apresentado alternativas à editora, mas, até ao momento, não obteve resposta.