Reportagem

Implosão no Aleixo: resignação, um carro a arder e gritos à janela

Um incêndio numa carrinha abandonada atulhada de papelão deu trabalho aos bombeiros ao início da manhã. Moradores vão abandonando o bairro.

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Paulo Pimenta
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A operação de evacuação do Bairro do Aleixo, no Porto, está em marcha. “Desgraça” foi das poucas palavras que se ouviu aos moradores do bairro que, resignados, abandonam as suas casas. Só poderão regressar depois das 13h. A essa hora, a torre 4 já não deve ser mais do que um monte de escombros.

Com os acessos vedados pela polícia e dezenas de agentes do Corpo de Intervenção da PSP a aguardar, em carrinhas estacionadas ao longo da Rua da Mocidade da Arrábida, são as equipas de socorro e da empresa municipal Domus Social que estão, para já, mais ocupadas. E os bombeiros já tiveram de agir, para debelar um incêndio que deflagrou numa carrinha abandonada atulhada de papelão em que alguém pintou, de lado, a frase “Rui Rio Corno”.

Rebelo de Carvalho, comandante das operações, estima que a evacuação esteja concluída até às 10h30. A implosão da torre deve acontecer entre as 11h e as 12h. Mas, para já, o importante para quem está no terreno é garantir que ninguém fica no bairro. Há muitos moradores que se afastam pelo próprio pé, em silêncio, sem grandes falas. Mas há 11 casos com necessidades de apoio especiais e quatro com graves problemas de mobilidade, que terão de ser auxiliados pelas equipas de socorro a abandonar as suas casas.

No quase silêncio do bairro, os gritos de um morador da torre 2 ecoam, amplificados pelo vazio em redor. Solta um chorrilho de palavrões, desafia os agentes que o olham de baixo e insulta tudo e todos, garantindo que não tem água para o banho. “Cortaram-me a água para encher as piscinas. Otários, cabrões”, desafia. Dali a minutos, há-de fumar um cigarro à janela e, como os outros, terá de sair.

Quem já está na rua, a tentar conter a comoção que lhe escapa pela voz, é António Clemente, de 59 anos, morador na torre 2. Em Dezembro de 2011 foi para Gaia, para a Afurada, ver a queda da torre 5, mas desta vez garante que não pretende ver nada. “Custa-me imenso. Ver desgraças para quê?”, diz. A António já não resta qualquer esperança que a sua torre, bem como a 1 e a 3 sobrevivam e já só espera que lhe atribuam uma casa com boas condições. “Começaram pelas melhores torres. Se essas vão abaixo, que esperança resta? Os ricos é que têm direito a tudo, a estas vistas, nós não”.

Orquídea, 57 anos, saiu da torre 3, onde mora, a dizer, com alguma ironia, “já nem nos deixam dormir”. Não viu a demolição da torre 4, não pretende ver a da 5, ao contrário da filha Bárbara, de 20 anos, que promete regressar à Arrábida para ver tombar mais um gigante. Orquídea também diz que não quer ver desgraças nem miséria e recorda que, ainda há dias, ao ver um vídeo da implosão de 2011, chorou. “A gente estava aqui tão bem. Agora somos poucos, já nem se sai à rua à noite, porque não se vê ninguém. É uma tristeza”, diz.

Tristeza e, de novo, desgraça, é o que sai da boca de uma mulher de óculos com lentes grossas e cabelo grisalho, enquanto foge de uma câmara de televisão.

O homem da janela já se calou e o fogo da carrinha foi extinto. A polícia avisa os jornalistas que é hora de abandonar o bairro. Na Rua do Ouro ainda não há curiosos mas, se se repetir o cenário de 2011, eles hão-de chegar às centenas. Para assistir a uns breves segundos em que com um estrondo, jactos de água e um ruído brutal, mais uma torre do Aleixo desaparecerá da paisagem.

Operação idêntica à de 2011
Não se esperam surpresas no desenrolar da operação de implosão da torre 4. Como de costume, ninguém confirma a hora exacta a que deverão rebentar as cargas explosivas, mas o comandante Rebelo de Carvalho garante que será “depois das 11h e antes do meio-dia”. Já há curiosos na Rua do Ouro à espera dos segundos em que o edifício tombará.

Em torno da torre 4 ainda se trabalhava, esta manhã. Pequenas árvores junto ao edifício estavam a ser serradas e foram deixadas tombadas, para não interferirem com a queda dos escombros. As piscinas cheias de água – que será projectada para o céu, ajudando a evitar a dispersão de poeiras – estão em posição e os três primeiros pisos do edifício, bem como o sétimo, completamente esventrado, estão protegidos por lonas. É nestes locais que estão as cargas explosivas.

Por enquanto, prosseguem os trabalhos de evacuação do bairro e a Rua do Ouro continua transitável, mas o trânsito há-de ser cortado minutos antes da implosão. A aproximação desse momento deverá ser anunciado com o toque de uma buzina que soará dois minutos antes das cargas explosivas rebentarem. Foi assim em 2011 e Rebelo de Carvalho garante que será assim, de novo.

Do edifício, espera-se também um comportamento similar ao da torre 4. Há-de torcer ligeiramente e tombar sobre si próprio, na direcção do descampado que lhe fica aos pés e se estende até à Rua do Ouro, onde esta montada a central de operações, o espaço para os jornalistas e onde deverão assistir à implosão autarcas da cidade. No local, por volta das 10h estava já a vereadora da Habitação da Câmara do Porto, Matilde Alves, e o vereador da Protecção Civil, António Sousa Lemos, bem como a presidente da Junta de Freguesia de Lordelo do Ouro, Gabriela Queiroz.

Do lado de fora, na rua, ficarão os curiosos, como Joaquim, 45 anos, de Gondomar, que chegou ao Porto de propósito para assistir à queda da torre 4. Um repetente, que já fizera o mesmo caminho para ver cair a torre 5. “O que mais me impressionou, da outra vez, é que metade do prédio caiu direito, em direcção ao chão. Acho que desta vez deve ser mais ou menos a mesma coisa”, diz. Rodeado por alguns curiosos, incluindo moradores do Aleixo, que dizem não querer falar, ironiza: “Conheço uma pessoa que tem cinco javalis que roem o betão. Para a próxima, vou propor que deixem os bichos aqui durante um mês, que eles dão cabo de tudo e já não é preciso gastar dinheiro a mandar isto abaixo”.
 

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