30.º Jazz em Agosto aposta em músicos que já passaram pelo festival

John Zorn, Pharoah Sanders e Anthony Braxton são alguns dos grandes nomes presentes na edição deste ano, que decorre de 2 a 11 de Agosto. Um festival, sem “fórmulas fixas”, que continua a apostar na qualidade e na inovação

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Em 2013, o Jazz em Agosto celebra a sua 30ª edição com dez concertos no anfiteatro ao Ar Livre da Gulbenkian, em Lisboa, nove sessões de filmes e documentários e o lançamento de um livro de ensaios sobre cinquenta músicos que já passaram pelo festival, anunciou esta quinta-feira a organização.

A edição deste ano associa-se às comemorações dos 30 anos do Centro de Arte Moderna (CAM), instituição à qual está ligada desde a sua origem, em 1983. Nessa data, a que Rui Neves também chama de “ano zero” devido à dimensão reduzida do festival – houve apenas músicos portugueses –, o Jazz Agosto surgiu pelas mãos de Madalena de Azeredo Perdigão, fundadora do Serviço Acarte da Gulbenkian e mulher do então presidente da fundação, José de Azeredo Perdigão.

A dupla comemoração concretiza-se, este ano, com um concerto de pré-inauguração do festival a 25 de Julho (dia do aniversário do CAM), no qual Maria João apresenta o seu projecto Ogre - a cantora, recorde-se, actuou com o seu quinteto no festival de Agosto de 1984.

Rui Neves, director do festival, destaca, no programa deste ano, a presença de John  Zorn, que está a celebrar o seu 60.º aniversário com uma digressão europeia.

O regresso de John Zorn a Portugal traz uma novidade, relativamente aos restantes festivais de jazz onde se irá apresentar. Nos três concertos que vai fazer no Jazz em Agosto, "Zorn apresenta em tempo real a música que compôs para filmes, que é uma coisa que não existe nos outros”. Os fãs do músico vão poder comprar um passe que dá acesso mais barato aos três espectáculos, que abrem o festival, nos dias 2, 3 e 4.

Os projectos do músico, The Dreamers, Essential Cinema e Electric Masada, serão contarão com a presença de músicos que têm acompanhado o compositor e saxofonista ao longo da sua carreira: Marc Ribot, Jamie Saft, Trevor Dunn, Kenny Wollesen, Joey Baron, Cyro Baptista e Ikue Mori.

The Dreamers dá continuidade ao trabalho feito por Zorn no álbum The Gift (2001), marcado pela influência das músicas de salão dos anos 1950, da música sul-americana e judaica. Essential Cinema é um projecto de música para cinema independente, integrado na série Filmworks da editora Tzadic, onde Zorn publica as suas criações musicais para a Sétima Arte. O concerto no qual se apresenta o projecto Essential Cinema combinará a projecção de filmes de Maya Deren, Joseph Cornell, Harry Smith e Wallace Berman com a música tocada ao vivo por Zorn, Marc Ribot, Jamie Saft e Ikue Mori entre outros.

O concerto de Electric Masada, uma variante eléctrica do seu grupo Masada Quartet, de 1994, encerra a homenagem ao compositor na Gulbenkian.

O encerramento da 30ª edição do festival é assinalado com a presença de Pharoah Sanders, no concerto Pharoah & The Underground, um projecto concebido pelo músico Rob Mazurek, no qual reúne os seus trios São Paulo Underground e Chicago Underground. Para Rui Neves, este é um dos pontos altos da programação. “Pharoah Sanders é o célebre saxofonista que foi companheiro de John Coltrane na sua fase mais radical. Todos os discos de Coltrane, entre 1964 e 1967, são com o Sanders. Portanto, ele tem esse grande mérito de ter estado ao lado de um músico com a estatura de John Coltrane”.

Ainda no programa do Jazz em Agosto, o compositor e saxofonista Anthony Braxton apresenta em estreia em Portugal o seu projecto Falling River Music Quartet, com músicos como Mary Halvorson, Ingrid Laubrock e Taylor Ho Bynum. “É uma música de câmara à moderna, que vai ter impacto, porque o Anthony Braxton é um músico único que, em directo, impressiona toda a gente pela sua qualidade”, explica o director do festival.

Na representação de Portugal no festival, Rui Neves encomendou ao grupo de percurssão Drumming, criado por Miquel Bernat, o estudo e a exploração do reportório de um grupo de percussão dos 1980, o M’Boom, dirigido pelo baterista Max Roach. O baterista regressa ao festival, onde marcou presença em 1995, o que, nas palavras do director, reflecte, mais uma vez, a intenção de estabelecer “uma ligação do presente com o passado e vice-versa”.

A representação do jazz da Escandinávia, que, segundo Rui Neves, já é uma marca do festival, é assegurada pelo grupo norueguês de jazz eléctrico Elephant9, com o guitarrista Reine Fiske, “um músico importante da cena actual”, e pelo trio The Thing, do saxofonista Mats Gustafsson. Após a sua estreia no Jazz em Agosto na edição de 2004, The Thing regressa ao palco principal do festival numa versão mais alargada, agora com sete elementos. “Daí chamar-se The Thing XXL”, explica Rui Neves, destacando a presença de músicos como Terrie Ex e Peter Evans.

Para além da sua participação em The Thing XXL, este último apresentará em estreia europeia o seu novo grupo, o Peter Evans Octet, uma versão ampliada do seu último quinteto, do qual fazem parte os músicos Sam Pluta, na electrónica, e Jim Black, na bateria.

Mas o Jazz em Agosto não terá só música. “Nós não nos limitamos a apresentar concertos, nunca fizemos isso, damos sempre mais alguma coisa, seja filmes, conferências”, explica Rui Neves, dizendo que o festival não tem uma “fórmula fixa”. E acrescenta que o único elemento constante ao longo dos últimos trinta anos é o critério de selecção dos músicos. “Queremos apresentar músicos criativos, de muita exigência e muito bom nível, que são inquietos nas suas coisas”.

No âmbito das comemorações dos 30 anos será lançado um livro de ensaios “crítico-biográficos” escritos por três críticos “de topo”, nas palavras de Rui Neves: o americano Bill Shoemaker, o canadiano Stuart Broomer e o britânico Brian Morton, sobre cinquenta músicos que passaram pelas várias edições do Jazz em Agosto ao longo das últimas três décadas.

A programação inclui também a exibição de nove filmes, onde se destaca o ciclo de quatro produzidos por John Zorn.
Depois de passar na televisão, chega agora ao grande ecrã de Jazz em Agosto um documentário da autoria de Rui Neves e Paulo Seabra (realizador), que faz uma “leitura” da história do jazz em Portugal: aTensãoJAZZ é uma série documental, de 10 episódios, exibidos na RTP2 em 2011, que segundo o director do festival “não é a história mas uma história do jazz em Portugal".