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Autoedição, amor de perdição

A autoedição tem perigos: as obras perdem qualidade pois o autor deixa de estar focado no que é realmente bom e os autores vendem menos cópias

Anos seguidos de má gestão de mercado e arrogância empresarial colocaram as editoras na posição de inimigo comum do escritor, “problema” recentemente resolvido com o ressurgimento da autoedição, tendência suportada pelo avanço da tecnologia aplicada ao livro.

A frustração de autor, fenómeno que surge após a recusa de publicação de uma obra e que resulta de um desequilíbrio da oferta e da procura (há muito mais livros e originais do que mercado de leitores), aliada às novas ferramentas tecnológicas, tem levado os autores a enveredarem por um caminho de publicação independente. Apesar de reconhecer as excelentes vantagens democratizadoras da escrita e da leitura que esta via traz, de a reconhecer como uma via válida e louvável compatível com a forma dita tradicional de publicar e de eu próprio, assim como inúmeros escritores antes de mim, a ter praticado, pretendo demonstrar os perigos e ameaças que lhe são inerentes:

- As obras perdem qualidade pois o autor deixa de estar focado no que é realmente bom, a escrita, e passa também a desempenhar funções de revisor, paginador, designer e gestor de produto e marketing para as quais não tem competência;

- As livrarias perdem negócio pois os autores tendem a procurar vias alternativas de escoamento de "stock": blogues, redes sociais, etc.;

- O mercado torna-se difuso e complexo no sentido em que desaparecem os agregadores de livros e os mercados de apresentação e compra;

- Os autores vendem menos cópias pois têm mais dificuldade em se promoverem a si e aos seus livros;

- Por último quero focar a questão mais preocupante de todo o este processo: o desaparecimento das editoras. Com elas, desaparecem as instituições de referência do sector que promovem o desenvolvimento e investigação do livro, inviabilizando o progresso futuro e a invenção de novos formatos;

Acompanhar as tendências é sempre importante, mas mais importante é refletir calmamente sobre elas e, sobretudo, agir com precaução e de forma concertada no que respeita ao futuro do livro.