Entrevista

“Houve muita promiscuidade no Sporting nos últimos anos”

O PÚBLICO inicia nesta terça-feira a publicação de uma série de entrevistas aos candidatos aos órgãos sociais do Sporting. A primeira é a Vicente Caldeira Pires, que concorre apenas ao Conselho Fiscal e Disciplinar.

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Vicente Caldeira Pires candidata-se ao Conselho Fiscal do Sporting Enric Vives-Rubio

Vicente Caldeira Pires, advogado, de 32 anos, quer tornar o Conselho Fiscal e Disciplinar do clube de Alvalade num órgão verdadeiramente independente no clube, com distanciamento para fiscalizar eficazmente a conduta do futuro conselho directivo. Se alcançar este objectivo, um dos seus primeiros actos será promover uma auditoria de gestão aos últimos 18 anos do Sporting e apurar quem foram os responsáveis pela actual situação financeira. Defende que só desta forma haverá pacificação no mundo “leonino”.

Apenas ponderou concorrer ao Conselho Fiscal e Disciplinar (CFD)?
Sim, nunca ponderei concorrer a mais nenhum órgão social do clube. Já integrei uma candidatura independente ao CFD em 2011, não como presidente, mas como vogal. Na altura tivemos 6,6%, uma votação expressiva face à nossa reduzida visibilidade na comunicação social. Após essas eleições, o nosso grupo manteve-se sempre muito atento ao desenvolvimento da situação do clube e mantivemos a nossa lista unida em torno do mesmo propósito. O nosso programa manteve-se como há dois anos, até porque a situação do clube é igualmente preocupante, para pior.

Têm expectativas de ser eleitos agora?
Sim, até porque, entretanto, houve uma alteração estatutária, com a introdução do método de Hondt nas eleições para este órgão. Em 2011, a nossa candidatura foi a primeira independente a concorrer ao CFD que, pela sua natureza, deve ser independente (para fiscalizar a conduta do conselho directivo), e acho que isso despertou a sensibilidade de muitos sportinguistas. Foi, mais uma vez, com sentido de responsabilidade que voltámos a avançar.

Têm sentido receptividade dos sócios?
Muito. Sentimos isso nas sessões de esclarecimento que temos promovido, onde as pessoas têm expressamente manifestado o seu apoio e incentivado a nossa campanha. Sentimos uma força redobrada. Estes últimos dois anos foram um choque para a maior parte dos sportinguistas, que estão a abrir os olhos. Hoje sabem que aqueles, como nós, que éramos qualificados como ‘pregadores da desgraça’, estavam mesmo a tentar chamar a atenção para o caminho que o clube levava. Hoje temos um passivo astronómico, muitas receitas comprometidas, incluindo passes antecipados…

O que torna então este Sporting atractivo para um candidato?
No que diz respeito à nossa lista, o que nos atrai e move é única e exclusivamente o nosso sportinguismo. Espero que também seja isto que atrai os três candidatos ao conselho directivo.

Ficou surpreendido por haver três candidaturas à direcção?
Não, acho mais negativos os anos em que houve uma candidatura única. Um período em que uma espécie de dinastia comandou os destinos do clube, num processo quase sucessório. Não faz sentido que o poder se vá passando de mão em mão, como que uma delegação.

Mas os sócios têm sempre optado por uma certa linha de “continuidade” com o passado…
É verdade. Mas os sócios começam a constatar que todo este projecto [iniciado por José Roquette, em 1996] foi um logro, um embuste. O passivo consolidado rondará os 480 milhões, mas a situação pode ser pior. Estamos a falar na possibilidade de responsabilizar alguns dos dirigentes que levaram a situação a este ponto e apurar outras situações que, se calhar, nem estão lançadas contabilisticamente.

Não ficaram convencidos com a auditoria financeira feita em 2011, por iniciativa de Godinho Lopes?
Essa foi uma auditoria meramente contabilística, que não permite apurar se houve ou não gestão danosa. Nós queremos uma auditoria que possa responder definitivamente a esta pergunta. Não dizemos que tenham existido este tipo de actos, mas achamos estranho que, num percurso de degradação e definhamento de uma instituição que era tão forte e que, neste momento, está refém de bancos e credores e é vítima de clubes rivais que vêm retirar os jogadores que lhes interessam. A ideia da auditoria de 2011 foi apenas calar as pessoas, a auditoria que propomos pretende apurar, acima de tudo, como tudo isto aconteceu.

Se apurarem a existência de indícios de gestão danosa pretendem esclarecer tudo em tribunal?
Sim, é o dever do clube. Este será o primeiro passo para pacificar o clube e para este se reconciliar com os sportinguistas. É assustador ver como o número de sócios com as quotas em dia baixou. Estas eleições são um exemplo, com apenas cerca de 32 mil sócios em condições de votar. O Sporting tem de se preocupar em angariar novos sócios, mas tem urgentemente de se reconciliar com aqueles que foram abandonando o clube. Muitos deles saíram como última forma de se manifestarem contra o estado do clube. Estes sócios merecem saber o que é que se passou e só isso irá pacificar, de uma vez por todas, os sportinguistas. Temos de analisar o passado, para construir as bases do futuro.

Nos últimos 18 anos passaram pelo Sporting dirigentes com reputação no mundo empresarial, da banca e da sociedade civil, em geral. O que aconteceu para este desfecho?
É no mínimo curioso que empresários de sucesso e de renome tenham tanto sucesso na sua vida empresarial e que tenham o Sporting como maior caso de insucesso em termos de gestão desportiva ao nível nacional. Acho que houve muita promiscuidade no clube nos últimos anos, entre bancos, fornecedores e prestadores de serviços de forma directa ou indirecta. Pessoas que compraram ou venderam ao Sporting, que receberam comissões, que prestaram serviços e que estavam directa ou indirectamente ligadas ao órgãos sociais do clube.

O Sporting foi um centro de negócios?
Foi. Foi um ‘saco de boxe’…

O que quer dizer com isso?
Estamos a falar de uma organização em torno da qual gravitaram outras, paralelamente. Foram sendo feitos negócios proveitosos com o Sporting, uma instituição enorme, com uma capacidade de endividamento muito grande e com opacidade na gestão que é patente. Como é que nós podemos ter estes anos de decadência e não ter uma acta do conselho fiscal sobre o assunto? Pelo contrário, as direcções receberam do CFD votos de louvor e de agradecimento, como se estivessem a fazer um favor por estar a dirigir o Sporting. Isso deve-nos fazer pensar. Não é possível tudo isto ter acontecido e termos tido sempre um CFD a prestar louvores. Parece evidente que isto não funcionou.

Um CFD independente não será uma força de bloqueio em relação a uma futura direcção?
Não será nunca uma força de bloqueio. Se tivermos a maioria dos votos e de membros no CFD, que é nosso objectivo, será uma garantia de estabilidade para os sócios. A nossa lista não está a concorrer contra as outras. É, aliás, a única lista que concorre verdadeiramente ao CFD e que não propõe nomes apenas para ter mais apoios para o conselho directivo. Somos a única lista que está direccionada, motivada e tem programa para fazer cumprir aquelas que são as competências deste órgão. Não seremos coniventes com nada que seja prejudicial ao Sporting, mas também não temos nenhuma agenda para fazer oposição ou representarmos uma facção dentro do clube em futuras eleições.

Face ao actual endividamento sufocante do Sporting, que soluções podem ser equacionadas pelas futuras direcções?
Já desde que surgiram os PER que acho que esta poderia ser uma boa solução para o clube. Este caminho tem de ser ponderado com muita seriedade, tal como o caminho da insolvência ou o caminho da reestruturação organizacional, não reestruturações financeiras, que não vão mudar nada. Todos estes caminhos são viáveis, tenham as consequências que tiverem em termos desportivos. E vão ter, sejam descidas de divisão ou impossibilidade de entrar em competições. O Sporting tem de encarar isso, porque tem de pensar com um horizonte de 20 anos.

Acha que uma direcção teria coragem de apresentar uma dessas hipóteses aos sócios?
Acho que tem de ter coragem para o fazer, se pensarem a longo prazo, mas estou a falar como sócio do Sporting e não como candidato ao CFD, porque este órgão não tem competências nessa matéria.

Qualquer uma destas soluções teria de ter o aval da banca credora do clube…
É necessário o aval da banca para renegociar a dívida com a banca, mas lembro: se o Sporting é refém da banca, também a banca é refém do Sporting. As ligações de anteriores presidentes com alguns dos bancos credores fizeram esquecer isso. Um presidente corajoso pode entregar o estádio à banca para pagar as dívidas e aí a banca teria um problema grave nas mãos. Por tudo isto defendo que o Sporting precisa de ser forte.

Encontra essa “força” em alguma das três candidaturas à direcção?
Não me vou pronunciar, somos uma candidatura independente e iremos manter-nos assim antes, durante e depois das eleições. Espero apenas que os sócios sejam esclarecidos durante a campanha.

A sua lista já foi esclarecida com as propostas dos candidatos à direcção?
Não. Acho que a campanha tem sido pouco clarificadora, mas ainda falta muito tempo. Espero que os debates sejam determinantes para esclarecer as pessoas. Eu próprio tenho a necessidade de ser esclarecido.

As questões económicas têm dominado este acto eleitoral, onde não se tem falado de contratações de jogadores ou treinadores como em anteriores eleições…
Isso é positivo, mas não lançaria foguetes antes de tempo. É possível que ainda se venha a falar e, se assim for, eu acho triste.

Estes últimos dois anos foram assim tão traumatizantes para os sócios?
Para a maior parte, sim. Não foi falada a verdade, nem há dois anos, nem há 18. Vamos descobrir exactamente o que falhou no projecto Roquette. Uma coisa correu mal de certeza, que foi a desconsideração do Sporting enquanto clube, enquanto associação de utilidade pública, com fim cultural, recreativo e desportivo e com uma missão intemporal. O Sporting não foi olhado dessa forma pelas pessoas que o geriram.

Como assim?
Posso dar o exemplo daquilo que eu considero que foi a destruição de um clube. Deixou de haver vida de clube em redor do Estádio José de Alvalade. Arrasou-se com a vida social do clube. Construiu-se um mono de cimento, onde as pessoas vão de 15 em 15 dias. À Academia do clube, em Alcochete, ninguém vai e as modalidades andam espalhadas porque não se construiu um pavilhão. Destruiu-se mais do que se construiu. A única coisa que se fez foi um estádio novo e caro. Não há sequer um sítio para as pessoas se reunirem antes de um jogo. Isso é muito triste. Quem dirigiu, não compreendia o que era o clube. Tentou transformar-se o clube numa empresa, sem introduzir sequer a inteligência empresarial.

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