No Taiti ninguém vive obcecado com os três pontos

O AS Dragon é, pela segunda época consecutiva, campeão do Taiti. E a selecção local vai disputar a Taça das Confederações.

A equipa do AS Dragon também tem uma espécie de "Haka" como a selecção de râguebi da Nova Zelândia.
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A equipa do AS Dragon também tem uma espécie de "Haka", como a selecção de râguebi da Nova Zelândia DR

É um discurso bem conhecido de tantos treinadores de futebol, que pedem às equipas para pensar jogo a jogo e tentar somar os três pontos. No Taiti não existe esta obsessão. Não quer isto dizer que no futebol local não exista ambição pela vitória – basta ver que a selecção nacional fez história ao vencer a Taça das Nações da Oceânia, em 2012, e garantiu assim um lugar na Taça das Confederações, em Junho, onde vai jogar contra a Nigéria, o Uruguai e a campeã europeia e mundial, Espanha. Com isto, o prémio mínimo que vai encaixar são 1,3 milhões de euros. No Taiti, a maior ilha da Polinésia Francesa (no oceano Pacífico), não existe a obsessão pelos três pontos porque as vitórias estão sobrevalorizadas. É isso mesmo: ganhar um jogo equivale a somar quatro pontos. Um empate rende dois pontos, e mesmo quem perde soma um. Só em caso de falta de comparência é que não há pontos para ninguém. O mesmo acontece na Nova Caledónia, Martinica ou Guadalupe.

“O sistema de pontuação é determinado pelos organizadores das competições e pelas ligas. Não é algo ditado pelas leis do jogo. A FIFA, por exemplo, usa o sistema 3-1-0”, explicou ao PÚBLICO o organismo que tutela o futebol mundial. E é assim na maioria dos campeonatos mundiais. Em Portugal também é aplicado este sistema, embora até à época 1994-95 tenha vigorado o 2-1-0.

Mas não é só na valorização das vitórias que a Federação do Taiti (fundada em 1989 e filiada na FIFA desde 1990) é generosa. Os clubes podem somar pontos bónus se atingirem determinados objectivos relacionados com a promoção do futebol jovem e o respeito pela arbitragem. Ou também pelo mérito desportivo: o AS Dragon foi a melhor equipa da fase regular da Super Ligue Mana e, por ter terminado em primeiro, somou dois pontos extras.

Os “dragões” mantiveram a supremacia no play-off de apuramento do campeão e garantiram o título pela segunda temporada consecutiva. Ao erguer o troféu, a equipa ganhou também o direito a entrar na Liga dos Campeões da Oceânia: no final do mês, o AS Dragon viaja até Auckland para disputar o Grupo B da competição, com os anfitriões Auckland City e Waitakere United (Nova Zelândia) e ainda o Mont-Dore (Nova Caledónia).

Com mais de 200 mil habitantes, o Taiti é uma ilha de futebolistas – há 146 clubes e mais de 11 mil jogadores. De resto, o futebol taitiano tem história na Liga dos Campeões da Oceânia: em 2012, o Tefana chegou à final da prova, mas seria derrotado pelo Auckland City. Mas o momento mais brilhante foi mesmo a vitória na Taça das Nações da Oceânia. A selecção de Eddy Etaeta fez história ao romper com o domínio da Austrália e Nova Zelândia. O Taiti foi a primeira ilha do Pacífico – que não uma das duas “gigantes” – a conquistar o título de campeã da Oceânia.

A recompensa será enfrentar alguns dos melhores do mundo na Taça das Confederações. “A primeira coisa que fiz quando o árbitro apitou [na final da Taça das Nações da Oceânia] foi correr para os meus companheiros de equipa e gritar ‘Vamos ao Brasil, vamos ao Brasil’”, recordou Mikael Roche, em conversa com os responsáveis pelo site oficial da FIFA. E só isso já é um feito enorme para uma pequena nação insular.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias e campeonatos de futebol periféricos

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