Truca-truca volta ao Parlamento

A Assembleia da República voltou a ouvir o poema Truca-truca, desta vez pela voz de São José Lapa.

Natália Correia foi recordada no Parlamento
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Natália Correia foi recordada no Parlamento Pedro Cunha (arquivo)

O poema Truca-truca, de Natália Correia, foi recitado nesta sexta-feira pela actriz São José Lapa durante as comemorações do Dia Internacional da Mulher, após a sessão plenária da Assembleia da República.

A actriz foi convidada a ler alguns poemas de Natália Correia no âmbito dos 20 anos da morte da poetisa e deputada, que será homenageada com a exposição, no museu da Assembleia, de um busto seu.

O poema Truca-truca foi escrito em 1982, durante o primeiro debate parlamentar sobre a interrupção voluntária da gravidez. A sessão plenária já ia a meio quando João Morgado, deputado do CDS, afirmou que “o acto sexual é para fazer filhos”.

Natália Correia, que lutava pela despenalização do aborto, inspirada pelas declarações do deputado, escreveu o poema e pediu a palavra. O Truca-truca provocou gargalhadas em todas as bancadas parlamentares e a sessão teve de ser interrompida. 

Truca-Truca

Já que o coito – diz Morgado –tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o orgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.