Pena de morte e meias azuis

A cor das meias pode ditar o desfecho de um jogo? Pode, no futebol de Antígua e Barbuda – onde querem reaplicar a pena de morte.

O golo do Old Road na última jornada, apontado por Gayson Gregory
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O golo do Old Road na última jornada, apontado por Gayson Gregory DR

Diz-me de que cor são as meias da tua equipa, dir-te-ei que resultado vai obter. Isto não faz sentido em futebol, mas pode-se verificar em Antígua e Barbuda. No início deste ano, contava o The Daily Observer, um jogo do segundo escalão do campeonato local, entre o Five Islands e o Westham, não se realizou porque as duas equipas levaram meias azuis para o jogo. A Federação atribuiria uma vitória administrativa ao Five Islands, não sabemos com que argumento. Até porque a reputação deles não era a melhor: a partida da jornada anterior, com o Potters Tigers, tinha sido interrompida quando um futebolista do Five Islands agrediu o árbitro.

Mas não é isso que inquieta a população de Antígua e Barbuda. Não chegam a 90 mil os habitantes destas duas ilhas no mar das Caraíbas, ex-colónia britânica, independente desde 1981. Um par de notícias fez disparar os alarmes: Susan Powell, de 38 anos, foi abatida a tiro, à luz do dia, numa rua da capital Saint John’s. E Laban Benjamin, dono de uma loja, foi baleado no peito. Trata-se de uma onda de tiroteios e assaltos, que fez com que o governo isentasse de impostos a importação de câmaras e equipamento de vigilância, para encorajar a população a usá-las nas suas casas.

Mais que isso, o governo ofereceu 50 mil dólares das Caraíbas (mais de 14 mil euros) por informações sobre o paradeiro do autor do homicídio de Susan Powell. E Errol Cort, ministro da Segurança, lembrou que a pena de morte ainda está na lei: “Faremos o que tiver de ser feito”. Apesar de não ser aplicada em Antígua e Barbuda há 22 anos, a pena capital nunca foi formalmente abolida.

Voltando ao futebol – num país onde o desporto-rei é o críquete – o campeão nacional de Antígua e Barbuda é, pelo segundo ano consecutivo, o Old Road. Um feito para uma equipa que, até há pouco tempo, era insignificante no panorama do futebol local e andou anos a fio a subir e descer de divisão.

Foi a partir de 2008-09 que o clube começou a afirmar-se na Premier League. Foi uma época tranquila, que culminou num sexto lugar. O Old Road melhorou significativamente a partir daí: vice-campeão em 2009-10, terceiro na época seguinte e campeão pela primeira vez no ano passado. No campeonato que acabou recentemente revalidou o título, com a melhor pontuação entre os últimos seis campeões.

O título decidiu-se na última jornada, entre Old Road e Hoppers, que estavam separados por dois pontos. Num jogo em que os Hoppers terminaram reduzidos a nove jogadores, o resultado foi um empate 1-1, que serviu para a equipa orientada por Derrick “Pretty Boy” Edwards celebrar novamente. Uma coisa é certa: as meias eram de cores diferentes.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias e campeonatos de futebol periféricos