Kevin Ayers, o genial dandy da pop (1944-2013)

Imprescindível no psicadelismo britânico da década de 1960, voz tão excêntrica quanto genial da de 70, Kevin Ayers morreu segunda-feira, aos 68 anos.

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Era um dos grandes excêntricos da pop, um eremita sem temperamento e estrutura para jogar o jogo da celebridade. Era um bon vivant convicto, um dandy que saía de cena, não para criar uma aura de mistério à sua volta, mas porque preferia simplesmente ambientes “relaxados”, “com um melhor sentido de cerimónia para as coisas básicas da vida – comida, música, dança, sexo”.

Kevin Ayers, um dos fundadores dos Soft Machine, amigo de Jimi Hendrix ou de Syd Barrrett, nome imprescindível na revolução psicadélica da pop britânica da década de 1960, criador de canções de uma gloriosa excentricidade na de 1970, fez aquela declaração ao Telegraph em 2007. Sentia-se incomodado pela mudança momentânea do descontraído Sul de França, onde vivia, para a movimentada Londres onde promovia à imprensa o seu último álbum The Unfairground. Kevin Ayers morreu aos 68 anos na casa francesa que habitava sozinho. Foi encontrado ontem à hora do almoço por um vizinho. Terá morrido segunda-feira, contou ao mesmo Telegraph Bernard MacMahon, da Lo-Max Records, a sua editora.

Nos últimos anos, o jovem exuberante e desejoso de vida que se entregava com alegre sofreguidão aos prazeres simples da existência, o músico que, com sotaque e humor intrinsecamente britânico, os transformava em canções que ambicionavam uma simplicidade que o seu génio nunca permitia (era demasiado vanguardista para a mera simplicidade), esse Kevin Ayers que nos deixou álbuns brilhantes como Joy Of A Toy (1969), a estreia a solo, ou Whatevershebringsweswing (1971), dera lugar a um homem a lidar com a dor da perda da inocência e com a amargura do tempo perdido.

João Bonifácio, crítico do PÚBLICO que o entrevistou em 2007, contrapunha nessa entrevista versos de Religious experience (Singing a song in the morning), do primeiro álbum (“Singing a song in the morning / singing again at night / I don’t even know what I’m singing about / but it makes me feel alright”), com estes que ouvíamos no último: “Old shoulders become cold shoulders / nothing left to dream on”. Kevin Ayers, naquela impecável voz de barítono que, diz-se, lhe poderia ter garantido carreira na rádio, respondeu com um comentário que é sintomático do seu percurso, da sua angústia tardia disfarçada de saber veterano. “Ir de ‘Singing a song in the morning’ até ‘Old shoulders become cold shoulders’ é o espectro total, é uma vida cheia. Quando se é novo e optimista e a vida ainda não nos magoou, é aí que podemos cantar ‘Singing a song in the morning’. É quando se acorda e não se sente dor nem amargura. Até se chegar à minha idade [tinha então 63 anos], e aí há os ‘cold shoulders’ [expressão idiomática que significa frieza] e muita dor”.

A sua música era habitada pela força, pela rebeldia e pelo assombro da juventude. Syd Barrett, cujos Pink Floyd eram, a par dos Soft Machine de Ayers, reis do psicadelismo britânico com sede no clube londrino UFO, desapareceu de vista antes de tomar consciência que ela, a juventude, iria desaparecer. Kevin Ayers lutou até ao limite, à sua maneira, para que as suas qualidades não desaparecessem enquanto o seu corpo envelhecia. O seu legado está aí

Nascido em Herne Bay, Kent, em 1944, Ayers viveu na Malásia até aos 12 anos. Em 1963 juntou-se aos Wylde Flowers, que se transformariam em 1966 nos Soft Machine, banda charneira da chamada cena de Canterbury de ainda sairiam os Caravan ou os Egg. Baixista, guitarrista e compositor ao lado do então baterista e cantor Robert Wyatt, do teclista Mike Ratledge e do guitarrista Daevid Allen, futuro fundador dos Gong, substituído posteriormente pelo baixista Hugh Hopper, Ayers emergeria de um conjunto de personalidades que se destacava no restante cenário musical. Tinham retirado o nome a um romance de William Burroughs, admiravam o jazz de Thelonius Monk e a vanguarda de Edgar Varèse. A sua música reflectia esse caldo cultural.


Ayers gravou dois álbuns com os Soft Machine, o primeiro durante uma digressão americana com Jimi Hendrix, o segundo para cumprir uma obrigação contratual com a editora – nessa altura, Ayers já andava por Ibiza com Daevid Allen, desgastado por aquilo que designava como a “rotina desumana" das digressões.

Joy of a Toy, o seu primeiro álbum, compêndio pop em que a tradição britânica se cruzava com experimentalismo, em que oboés se mesclavam com guitarras e em que paisagens idílicas desembocavam em cenários de sonho surreal, surgiu em 1969. Nos anos seguintes, muitas vezes com o apoio dos seus antigos companheiros nos Soft Machine, cruzou-se com Brian Eno, Mike Oldfield, Nico ou John Cale (encontramo-los no ao vivo June 1, 1974). Editou álbuns com títulos como Lady June’s Linguistic Leprosy enquanto, ao mesmo tempo, lhe conhecíamos canções como Caribbean moon, gentil sopro de Verão desarmante na sua simplicidade.

A década de 1980 foi a sua década perdida. Nunca fora um sucesso de vendas, nunca isso parecera preocupá-lo grandemente. Desde que conseguisse criar música que sentisse artisticamente válida e, com ela, pagar as contas, tudo estava bem. Na década de 1980, viciado em heroína, deixou a sua criatividade nas mãos de outros. Os seus álbuns desse período eram uma ferida. “No momento em que se deixamos de ser nós próprios, se ouvem os conselhos dos que estão à nossa volta e seguimo-los cegamente, aí fizemos asneira”, dizia na citada entrevista ao PÚBLICO. Em 1992 editou Still life with a guitar, maioritariamente acústico, e desapareceu de cena.

Emergiu do Sul de França em 2007 com The Unfairground, o seu celebrado último álbum, gravado com antigos companheiros como Hugh Hopper, baixista dos Soft Machine, Phil Manzanera, guitarrista dos Roxy Music, e admiradores de novas gerações, membros de bandas como os Ladybug Transistor, Neutral Milk Hotel, Teenage Funclub ou Gorky’s Zygotic Mynci. Tentaram marcar-lhe uma digressão, mas Ayers afastou-se durante os preparativos. Demasiada confusão para quem queria, ainda, tentar aproveitar as boas coisas simples da vida. Continuámos a ouvir-lhe a música, mas não mais ouvimos falar dele. Até hoje.