Conselho de Segurança condena Coreia do Norte e até a China começa a cansar-se

Os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU prometem a adopção de "medidas apropriadas" após o ensaio nuclear de Pyongyang.

Este foi o terceiro ensaio nuclear na história da Coreia do Norte
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Este foi o terceiro ensaio nuclear na história da Coreia do Norte Kim Hong-Ji/Reuters

As medidas ainda não são conhecidas, mas a Coreia do Norte pode começar a preparar-se, mais uma vez, para um novo conjunto de sanções internacionais. Numa reunião convocada em apenas 12 horas, após a realização do terceiro teste nuclear da história norte-coreana, o Conselho de Segurança das Nações Unidas foi unânime: os 15 países membros "vão começar a trabalhar imediatamente na adopção de medidas apropriadas" para responder à "séria violação" de anteriores resoluções, lê-se num comunicado assinado pelo presidente em exercício do Conselho de Segurança, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Sul, Kim Sung-hwan.

Até a China – o único aliado político da Coreia do Norte – foi, mais uma vez, dura nas reacções ao ensaio nuclear de terça-feira. O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês expressou a sua "firme oposição" ao ensaio nuclear norte-coreano e aconselhou o país a não contribuir para o aumento da tensão. “[O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês] Yang Jiechi exigiu que a República Democrática Popular da Coreia ponha fim a declarações que levem à escalada da situação e que regresse rapidamente aos canais do diálogo e da negociação”, lê-se no comunicado do ministério chinês.

Apesar de ser visto como o único aliado da Coreia do Norte, o Governo da China nunca deixou de condenar as pretensões nucleares de Pyongyang. Em 2006, o então ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Li Zhaoxing, classificou o primeiro teste nuclear norte-coreano – ainda na liderança de Kim Jong-il – como um "descaramento" e criticou a Coreia do Norte por "ignorar a oposição da comunidade internacional".

Apesar das repetidas condenações e sanções aplicadas então pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, a Coreia do Norte voltou a realizar um ensaio nuclear em 2009. Já nesse ano, a paciência da China parecia ter-se esgotado mais uma vez, como estava patente nas comunicações entre Pequim e Washington. Num dos telegramas revelados pela WikiLeaks em Novembro de 2010 – datado de Abril de 2009, um mês antes do segundo ensaio nuclear norte-coreano –, o então vice-ministro dos Negócios Estrangeiros referia-se à Coreia do Norte como "uma criança mimada" que queria chamar a atenção do "adulto".

China receia instabilidade e perda de influência

A China considera que os testes com mísseis balísticos e ensaios nucleares por parte da Coreia do Norte são uma forma de Kim Jong-un forçar um diálogo directo com os EUA, uma ideia reforçada com o facto de o mais recente teste norte-coreano ter sido marcado para o dia em que Barack Obama proferiu o importante discurso do Estado da Nação perante o Congresso.

E este é o principal dilema de Pequim: como continuar a condenar os ensaios nucleares norte-coreanos sem perder a influência junto da Coreia do Norte? Para Shi Yinhing, perito em relações internacionais na Universidade de Renmin, em Pequim, é notória a frustração da China. "Nos últimos dez anos, a China tem-se sentido frustrada várias vezes com o comportamento da Coreia do Norte e já terá concluído pelo comportamento de Kim Jong-un que ele é ainda mais volátil e provocador do que o seu pai", cita o site do jornal britânico The Guardian. "[A China] tem um dilema. Não acho que vá abandonar a Coreia do Norte. Talvez apoie novas sanções, mas não tão duras quanto as dos EUA. Eles consideram-nas contraproducentes", estima Shi Yinhing.

A influência dos EUA na Ásia é uma preocupação para a China, como salienta Shen Dingli, especialista em segurança regional na Universidade Fudan, em Xangai. "Quanto mais os EUA reequilibram as suas forças no Pacífico ocidental, mais a China tem de aligeirar a sua influência nas relações com a Coreia do Norte", disse Shen Dingli à agência Reuters.

A mudança da atenção de Washington do mundo muçulmano para a região da Ásia-Pacífico deixa Pequim ainda mais na defensiva. Num comentário à reacção da China ao mais recente ensaio nuclear norte-coreano, a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, foi clara a salientar o papel do seu país, ao salientar o papel da China: "É muito importante manter esta ligação próxima com a China e o secretário [de Estado, John Kerry], tornou prioritário o bom relacionamento com o seu homólogo chinês."

Para George Lopez, antigo perito da equipa da ONU que monitoriza a aplicação de sanções à Coreia do Norte, a intenção dos EUA é clara: "Querida Pequim, tens de lidar connosco e criar uma liderança bilateral com os mesmos objectivos, ou então vai ser o Inferno", disse à Reuters o professor da Universidade de Notre Dame, no estado do Indiana.

A juntar a este dilema, há também que contar com os receios chineses de que a aprovação de sanções duras de mais possa instigar uma revolução na vizinha Coreia do Norte. "A China está preocupada com o facto de a Coreia do Norte poder entrar em colapso rapidamente. Pode ser por causa da questão dos refugiados, de agitação civil ou de confrontos militares. É por esta razão que a China tem hesitado", disse à Reuters Zhu Fenh, professor de estudos internacionais na Universidade de Pequim.
 
 
 

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