Liderança do PP espanhol acusa Esperanza Aguirre de "deslealdade sem limites"

"Marianistas" defendem o líder e tentam isolar a antiga ministra. O bónus desta guerra interna provocada pelo Caso Bárcenas pode ser o controlo de Madrid.

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Aguirre, quando era ministra de Aznar Sergio Perez/Reuters

A grande rival do primeiro-ministro Mariano Rajoy é a presidente dos populares em Madrid e anunciou no ano passado que se retirava da vida pública por "motivos de saúde". O jornal espanhol diz que os "marianistas" — que hoje dominam claramente o partido — respiraram de alívio.

Porém, as críticas de Aguirre devido ao Caso Bárcenas, que envolve o partido num escândalo de corrupção que pode apanhar quase toda a chefia, abriram a ferida que os populares acreditavam estar sarada.

A presidente do PP em Madrid apelou publicamente à "regeneração urgente" dos populares e da democracia. Porém, numa reunião partidária, fez duras críticas à forma como o partido está a gerir o escândalo e defendeu a demissão da ministra da Saúde, Ana Mato, apanhada num outro caso de corrupção com ramificações maiores, o Gürtel. De acordo com as fontes do El País, na reunião partidária, onde Rajoy não esteve, Aguirre enfrentou ainda a presidente da câmara de Madrid, Ana Botella (mulher do ex-presidente de um anterior Governo, José María Aznar). Aguirre "atirou-se" também à secretária-geral do partido, María Dolores de Cospedal, a quem coube a gestão do escândalo Bárcenas. 

A direcção nacional do partido, que começou a ser ouvida pela imprensa espanhola, disse estar revoltada com Aguirre, que enfraquece o partido quando ele mais precisa de unidade e força. Porém, explicou uma fonte ao El País, uma sanção interna está excluída. "Não se pode abrir um processo disciplinar por uma coisa que foi dita numa reunião interna e que não é uma declaração à imprensa".

Publicamente, Esperanza Aguirre, que foi ministra da Educação e da Cultura e foi a primira mulher a presidir ao Senado, disse: "Estamos perante uma oportunidade de regeneração democrática, que já devia ter sido feita. Isto não significa que queira voltar à primeira linha da política", ou seja, que queira roubar o lugar a Mariano Rajoy.

Os "marianistas" reagiram, unindo-se contra Aguirre. E a antiga ministra da Educação e Cultura encontrou-se isolada, de um dia para o outro, uma vez que mesmo o homem mais bem posicionado para substituir Rajoy (caso este caia) também falou contra ela. "Mariano Rajoy é a referência da regeneração democrática", disse Alberto Núñez Feijóo, presidente da Junta autonómica da Galiza. "Não há um presidente que acredite mais na regeneração do que ele".

Os ataques a Aguirre têm outro objectivo: enfraquecer a sua oposição à reformulação da política de constituição das listas eleitorais, diz o El País. Em Madrid, afiança o diário, é sabido que Esperanza Aguirre e o seu grande aliado Ignacio González controlam as listas eleitorais e que "quem não mostrar lealdade absoluta sai imediatamente delas". Em última análise, os "marianistas" aproveitarão as declarações de Esperanza Aguirre em público e em privado para tentar ganhar o controlo do PP em Madrid, o que esperavam que acontecessse quando esta anunciou que saía da política activa. Aguirre, porém, mudou de ideias e manteve-se à frente dos populares na capital.

A guerra interna no PP (e em especial do PP Madrid) é um eco do Caso Bárcenas, o ex-tesoureiro do Partido Popular que é suspeito de manter uma contabilidade paralela durante pelo menos 18 anos. Receberia financiamentos ilegais de empresas, pagando salários extra (por debaixo da mesa) à maior parte da cúpula popular; Mariano Rajoy surge nas listas desta contabilidade B. O caso está a ser investigado pelo departamento anticorrupção do Ministério Público e, na quinta-feira, um juiz levantou a possibilidade de Bárcenas ficar em prisão domiciliária com pulseira electrónica, para evitar uma fuga.