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“00:30 Hora Negra”: pelos vistos, foi assim que aconteceu

É um filme com as características típicas: uma heroína que não desiste e acaba por vencer, um vilão derrotado no final, mártires que dão a vida para motivar o clímax, acção, armas e um propósito patriótico

O trailer de “00:30 Hora Negra” diz: “A história que achas que sabes – foi assim que aconteceu”. Katherine Bigelow e o argumentista/produtor Mark Boal decidiram há seis anos começar este projecto e, entretanto, em Maio de 2011, tiveram uma surpresa acerca do final que a história ia ter. O seu objectivo era contar ao mundo o desenrolar dos esforços da CIA no caso Bin Laden.

A controvérsia do filme anda à volta dos alegados documentos secretos que eles receberam e usaram para fazer “00:30 Hora Negra”. No entanto, o espectador comum não sabe o rácio de verdade entre a realidade e a ficção e, por estranho que pareça, assume sempre que o rácio é menor do que realmente é. Se uma pessoa for ao cinema e se sentar calmamente a testemunhar cenas atrozes de tortura praticadas pela agência secreta do país mais influente do mundo, não vai insurgir-se ou revoltar-se ou sair da sala em protesto.

“É um filme” – e esta frase atenua tudo, porque não se sabe o que é verdade-verdade e o que é verdade-ficção. “00:30 Hora Negra” assume, como filme, as características típicas que esperamos ver: tem uma heroína que não desiste do seu instinto e acaba por vencer, tem um vilão que é derrotado no final, tem mártires que dão a vida para motivar o clímax, tem acção e armas e um propósito patriótico. E todas estas características funcionam quase opostamente à forma como o filme é vendido.

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Leonor Capela, finalista do curso de Ciências da Comunicação, Universidade do Porto

Este filme apresenta-se como a verdade sobre os factos, a história por detrás do que se sabe. Porém, estas características "hollywoodescas" só podem ter dois resultados no cidadão comum: um aumento da elevação dos Estados Unidos a país mais corajoso e heróico ou a sensação final de que isto é só um filme e que a realidade nunca virá a descoberto.

Afinal, este filme, graças aos “capítulos” que vai apresentando, assemelha-se mais a um conjunto de informação, a uma lista de factos, do que a uma história. É preciso, no entanto, lembrar que trabalha sobre uma linha cronológica de nada mais que dez anos! Começando no ataque terrorista do 11 de Setembro e terminando apenas em 2011 quando Bin Laden é morto.

Este gigantesco momento que é representado em “00:30 Hora Negra” está muito bem cortado e colado para manter o espectador interessado durante as duas horas e meia de filme. Jessica Chastain, nomeada para o Óscar de Melhor Actriz pela sua representação aqui, é outro dos motivos que o espectador se mantém interessado. Mantendo-se entre a obsessão, o desespero, a tristeza e a fúria, Maya não ri nem quando atinge o seu principal objectivo.

Mas a profundidade dos sentimentos que demostra ao longo do filme, a sua dedicação, a sua certeza, fazem-nos acreditar. Queremos lutar pela sua causa. Estamos contra os loucos que não acreditaram nela. Não era óbvio que ela tinha razão?! Por outro lado, nós estamos no futuro e já sabemos que ela tinha razão. No final das contas, gostamos da Jessica Chastain e sentimos, como cidadãos mundiais, a vontade de derrotar Bin Laden. Sentimo-lo como um vilão para todos nós. E por isso é que este filme funciona. Agora, se foi exactamente assim ou não, nunca vamos saber.