Morreu o cineasta Paulo Rocha

Autor de Os Verdes Anos, Mudar de Vida ou A Ilha dos Amores morreu aos 77 anos.

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Paulo Rocha morreu aos 77 anos Fernando Veludo
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Paulo Rocha na rodagem de "Olhos Vermelhos" (2011) Nelson Garrido
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Verdes anos é o primeiro de três filmes de Paulo Rocha que serão exibidos esta semana no Rivoli DR
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"Os Verdes Anos", 1963 DR

O cineasta português Paulo Rocha, autor de Os Verdes Anos (1963), morreu na manhã deste sábado aos 77 anos, no Hospital da Arrábida, em Vila Nova de Gaia. "Cada um dos filmes de Paulo Rocha é um objecto singular", disse o realizador e professor de Cinema João Mário Grilo ao PÚBLICO. "São grandes documentários da vida portuguesa."

Fonte da família disse ao PÚBLICO que o realizador, que estava doente há algum tempo, se encontrava hospitalizado. Paulo Rocha sofreu um acidente vascular cerebral há cinco anos.

Com a morte de Paulo Rocha, e depois do desaparecimento de Fernando Lopes, perde-se mais uma das referências do Cinema Novo português. "É um momento muito triste para a cultura portuguesa e para o cinema português em particular", frisa João Mário Grilo, que considera que Paulo Rocha "foi o que melhor soube fazer a relação entre a poética do cinema e a poética do país", com uma visão artística que incluía a pulsão de "mudar o cinema para mudar o país". 

Na década de 1960 em que Rocha começou a filmar, diz Grilo, tanto Rocha quanto Fernando Lopes "usam a arte para interpelar a vida", tendo de "filmar contra a maré, fazendo literalmente das tripas coração, numa altura em que rebentam as novas vagas [cinematográficas]" em França ou em Itália. "Há uma conjuntura que o Paulo lê muito bem e incorpora-a. Cada um dos filmes do Paulo Rocha é um objecto singular em que há uma relação directa entre as personagens e a história - são grandes documentários da vida portuguesa."

Património para as novas gerações

Com uma carreira de 50 anos, Paulo Rocha frequentou o curso de Direito, mas iniciou-se no cinema em 1959, ano em que decide partir para Paris para estudar realização. Três anos depois conclui o curso e torna-se assistente de realização do cineasta francês Jean Renoir.

Logo depois volta a Portugal, onde trabalha como assistente de Manoel de Oliveira em Acto de Primavera, em 1963. Nesse ano, assina umas das mais importantes obras do cinema português, Os Verdes Anos. Com produção de António da Cunha Telles, é com esta primeira longa-metragem que se torna num dos nomes de referência do Cinema Novo. Protagonizado por Isabel Ruth, Rui Gomes, Ruy Furtado, Cândida Lacerda, Paulo Renato e Carlos José Teixeira, premiado no Festival de Locarno e no Festival de Acapulco, é um retrato da Lisboa em expansão dos anos 1960, do seu provincianismo e do sufoco de uma geração jovem. Esse património era intrínseco ao cinema de Pedro Costa, Teresa Villaverde ou Joaquim Sapinho tal como se mostraram ao mundo nas suas obras de estreia, respectivamente O Sangue, A Idade Maior ou Corte de Cabelo. E continua a ser uma referência afectiva no cinema de João Salaviza.

 A força e influência desse legado explica-se para João Mário Grilo porque na década de 1960 "as pessoas tinham muito poucos meios para filmar e os filmes só são possíveis através de alianças muito sólidas - e hoje há uma atenção a isso, à ideia de que é na realidade, no mundo, que estão os principais aliados dos filmes". "Porque o ecrã é isso também uma pele muito fina entre o cinema e a vida. Hoje voltou-se a ganhar [nesse novo cinema dos jovens cineastas portugueses] a realidade que a televisão foi empobrecendo. O cinema está hoje a redescobrir uma poética na própria vida. O Paulo descobriu no país uma série de camadas sobrepostas e foi capaz de as filmar nessa sobreposição, algo diferente do que fazem os média [e os telejornais, em que tudo surge segmentado]." 

Novamente ao lado de Cunha Telles, Paulo Rocha realiza em 1967 Mudar de Vida, filme que tem a emigração como tema de fundo. Rodado no Furadouro, nas proximidades de Ovar, Mudar de Vida conta a história de Adelino, um homem que combateu na Guerra Colonial em África e que regressa depois à sua terra e à comunidade piscatória de onde saíra.

Foi director do Centro Português de Cinema, de 1973 a 1974, depois de ser membro da comissão instaladora da Escola de Cinema. Entre 1975 e 1983 foi adido cultural da Embaixada de Portugal em Tóquio, no Japão, onde estudou a vida e obra de Wenceslau de Moraes, o escritor português que em finais do século XIX partiu para o Oriente, onde morreu em 1929. Paulo Rocha interessou-se tanto por Moraes que acabou por realizar dois filmes baseados na sua vida e obra, A Ilha dos Amores (1982) - sobre o choque entre os dois mundos e as duas culturas do Ocidente e do Oriente; integrou, em 1982, a selecção oficial do Festival de Cinema de Cannes -  e A Ilha de Moraes (1983). Esse período marcou também as suas escolhas na abordagem ao cinema, com um forte pendor pela cinematografia nipónica. Ainda influenciados pela cultura nipónica: O Desejado – As Montanhas da Lua (1917), Portugaru SanO Senhor Portugal em Tokushima (1993), uma peça de teatro filmada, e Imamura, o Livre Pensador (1995).

Segundo o catálogo da Cinemateca Portuguesa, Mudar de Vida é "uma das obras mais complexas e extremas de todo o cinema português". 

Notícia corrigida às 15h24

 

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