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“A Vida de Pi” é um bote salva-vidas num mundo de cinismo

A duplicidade entre o que vemos e o que não vemos, entre aquilo em que acreditamos e aquilo em que escolhemos não acreditar torna-se o pilar de “A Vida de Pi"

“A Vida de Pi” é um filme a ver em 3D para absorver ao máximo as imagens e surpresas que o protagonista, interpretado na maior parte do filme por Suraj Sharma, vive. Ang Lee demorou cerca de quatro anos a fazer este filme e as tecnologias utilizadas são, sem dúvida, uma parte crucial na sua crítica. O tigre de Bengala, que acompanha Pi Patel durante grande parte do filme, é gerado apenas digitalmente e as imagens de tempestades, ondas e animais selvagens não deixam a desejar. A.O.Scott, do The New York Times, é claro na sua crítica: "[Há imagens] que são tão bonitas, tão surpreendentes e tão perfeitas que hesito em descrevê-las”.

A vertente técnica de “A Vida de Pi” é, então, amplamente referida e elogiada. Já o conteúdo e os temas abordados, recebem em consenso notas negativas.

O mesmo crítico, A.O.Scott, refere que “o filme convida-nos a acreditar em todo o tipo de coisas maravilhosas, mas também pode levar-nos a duvidar do que os olhos vêem – ou mesmo a duvidar se, no fim, vimos o que quer que seja”. Uma dupla crítica à falta de conteúdo do filme e ao tom religioso que se impõe, corajosamente, do início ao fim.

PÚBLICO -
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Leonor Capela, finalista do curso de Ciências da Comunicação, Universidade do Porto

“A Vida de Pi” aborda a religião de uma forma intrépida e frontal, numa altura em que este tema é, muitas vezes, preterido por cinismo, por receio de ser mal-interpretado, por cedência a uma sociedade ateia. A história da vida do jovem Pi Patel é uma versão moderna da história de Job. É um conto de coragem, persistência, auto-domínio, desespero e entrega total àquilo em que se acredita. Pi acredita em Deus nas suas mais diversas formas, como deixa claro já em pequeno quando agradece a uma divindade Hindu por lhe apresentar Cristo. Ao longo da história, o protagonista não pede desculpa pela fé que sente. Não cede ao racionalismo do pai (interpretado por Adil Hussain), nem tem medo do que os espectadores poderão pensar ou sentir. A fé e a entrega a Deus que existe nesta história simplesmente existe. Sem se esconder ou preocupar com o que os outros poderão sentir.

A duplicidade entre o que vemos e o que não vemos, entre aquilo em que acreditamos e aquilo em que escolhemos não acreditar torna-se o pilar de “A Vida de Pi num entrelaçar curioso e pertinente com a criação digital de um tigre que vemos mas não está lá. A escolha de fazer um filme cujo tema central é o misticismo e a fé pode parecer inacreditável para aqueles que não acreditam (com o perdão do pleonasmo), nascendo então a sensação de que o filme não é sobre nada ou que, no final, não vimos nada que realmente existisse.

Porém, “A Vida de Pi” guarda as suas maiores lições para o final, quando o inesperado revés da história é revelado. A duplicidade referida é exponenciada, num toque que nos faz sentir que este filme é apenas a ponta do véu e que procura deixar-nos a pensar.

Nesta epopeia que faz lembrar Robinson Crusoe, Tom Hanks em “O Náufrago” e, também, em “Forrest Gump”, Suraj Sharma interpreta com rigor e alma o desespero, a loucura e a entrega incondicional de um jovem que verdadeiramente acredita. O realizador Ang Lee domina a arte de nos maravilhar com imagens do alto mar e a história que está por trás desta equipa não deixa para trás um único “must” do que a introspecção deve ser.

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