Arquitecto? Porta em frente, no vão da escada

Graça Dias é o homem no seu espaço, um vão de escada que podia ser o de um sapateiro da Lisboa de outros tempos. É o primeiro de uma série sobre os profissionais e os seus locais de trabalho.

Na rua de onde se vê a entrada para a residência oficial do primeiro-ministro, onde a Lapa se cruza com a Estrela, em Lisboa, há um prédio, uma porta, uma campainha e a porta que abre e depois umas escadas e o vão. O espaço desocupado, intervalo arquitectónico e, ao fundo, a hesitação.

No tal vão, assim como quem entra para um sapateiro de uma Lisboa antiga, é preciso que o corpo se curve para passar a porta, larga e baixa. Um sino a dar conta da entrada e seria a perfeita ilusão. Mas acontece como que a suspensão. Do tempo, a incerteza do espaço. Pé direito baixo, da altura das expectativas em relação ao sítio onde, percebe-se logo depois, a entrada funciona como uma bela provocação.

Atrás da porta castanha de madeira com recortes que remontam a uma data que não está assinalada, mas que é longe da actual, adivinham-se algumas letras que compõem a palavra “Contemporânea”, lá por detrás, numa parede algo curva. Passada a fronteira da expectativa, o corpo recupera a verticalidade e a revelação é isso mesmo. Amplitude. Cor, espaço e luz que a porta pequenina esconde e ilude. Para lá do vão de escada abre-se um dos mais consistentes e conceituados ateliers de arquitectura em Portugal, criado pela dupla Manuel Graça Dias e Egas José Vieira.

Manuel Graça Dias aparece no silêncio do atelier. Veste de negro, contraste com a parede mais verde do que alface, o friso laranja do balcão de entrada, o rosto de Pedro Cabrita Reis numa enorme tela que antecede a escada que dá para a cave, que ainda dá para um pátio. E o resto é branco a reflectir a luz de uma tarde de Inverno com pouco sol.

O homem que gosta de cidades
A hora de almoço explica a calma e mais tarde uma gargalhada há-de brincar com a terminologia irónica de “arquitectos de vão de escada”, uma irreverência que não se importa nada de deixar passar. A expressão é dele. Usa-se desde que se mudou para ali, há quase quatro anos, depois de deixar um edifício de meados do século XIX, na Rua do Sol ao Rato. Prédio burguês, de habitação, com muitas portas e assoalhadas que não foi difícil adaptar ao trabalho dos arquitectos.

Pelo contrário. Os arquitectos adaptaram-se a ele. “A arquitectura tem pouco que ver com uma arregimentação espacial precisa, para funções precisas também”, diz este lisboeta que um dia assinou aquilo que não é mentira, um livro chamado O Homem que Gostava de Cidades. Natural de Lisboa onde, nasceu em 1953, e onde voltou depois de ter andado por outras, como Macau, por exemplo, onde se habituou às torres e ao facto de o vizinho ser o do prédio em frente e não o da porta ao lado. Gostava mais delas, das cidades, ou sobretudo de Lisboa, porque elas, ou sobretudo Lisboa, foram perdendo qualidades de habitabilidade. Isso daria uma outra conversa. Ainda gosta. É nela, na cidade, que vive e trabalha.

Os papéis
Está sentado na sala onde tem a sua mesa, enorme, rectangular, amontoada de livros e papéis, computador portátil aberto a um canto, de frente para a cadeira agora vazia, um gabinete forrado a livros, que abafam o som da conversa, pontuado a desenhos, monografias de colegas, lombadas onde se lêem nomes famosos da arquitectura ou das artes plásticas. Frank Lloyd Wright, Mies Van der Rohe, Le Corbousier, João Walter Toscano… Vão chegando e aqueles que são precisos para o trabalho que desenvolve no atelier ficam ali. A ficção segue para casa. Pelo menos tenta que seja assim, que há uma divisão de espaços em função das suas funções. Mas há lá agora, como nesta frase, função que não se repita e misture? Ele bem tenta. Mas há sempre contágios.

Aqueles 300 metros quadrados na Rua Borges Carneiro, uns quarteirões abaixo da centralidade do Rato, “menos condicionados por essa domesticidade das salas e dos quartos” são o rosto da informalidade que gosta de passar. E se no princípio ele e o sócio estranharam a concepção do espaço, não tardou a que, depois da perplexidade, fossem seduzidos pela estrutura de dois níveis. O dos gabinetes e o único, na que seria a cave. Três salas em cima de pé-direito baixo. A de reuniões, aquela onde o encontramos a trabalhar, a de Egas José Vieira. Todas a dar para um corredor – o da que seria mezzanine – que espreita para baixo, para a amplitude de um pé direito duplo onde oito colaboradores convivem numa intimidade partilhada de que Graça Dias gosta. “Há aqui uma cumplicidade natural que as portas do espaço anterior não promoviam.” 

Espaço permeável
Basta ir ao corredor para ter a panorâmica dos dias que nunca correm iguais por ali. “Não há dias tipo”, avisa, como que num “ainda bem”. A haver rotina é a da semana. Porta aberta, espaço onde se pode sempre chamar por alguém, partilhar a secretária, a dúvida, resolver uma maqueta. O espaço vai ficando habitado. O ar da rua entra pelo pátio a dar para um prédio recém-construído e sem ninguém ainda a habitá-lo.

A pergunta era: como é o homem no seu espaço? Pois é como se vê. Habitando-o já sem pensar muito nele. “O espaço é tanto melhor quanto se torna permeável a qualquer utilização.” Chega às nove às segundas e terças, vindo a pé de casa. Em norma, primeiro entra no atelier e só depois segue para o ginásio. Volta. E vai andando. Reuniões, encontros fora, quando é preciso desenhar arreda os livros para o lado e nas férias de Natal e nas de Verão tenta pôr ordem nos papéis, ganhar espaço à secretária que o vence sempre no caos. Quem dera pudesse delegar esse arrumo de coca-bichinho como quem cata papel a papel. Essa é a ordem do “desorganizado”. Às quartas dá aulas da Universidade Autónoma, às quintas e sextas viaja para Norte, onde é professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

As viagens são de comboio, o outro altelier, onde escreve. Memórias descritivas, por exemplo, que depois manda por e-mail à secretária. Ela reenvia e ele revê e, se for preciso, há os fins-de-semana para retocar pormenores. As conversas telefónicas com Egas José Vieira, mais fixo em Lisboa, sucedem-se. Se há coisa que não larga é o telemóvel. Nem o relógio no pulso esquerdo. “Já não faz muito sentido, mas...”, encolhe os ombros. Sair sem ele é sentir uma falta. E o lenço de pano no bolso das calças. São essas as manias. As outras são coisas de se ser quem se é. Facilidade com a escrita. A vontade de desenhar a folha em branco sem manias em relação à qualidade do papel ou ao material utilizado. “Não sou nada fetichista”. Basta o apelo. O como e o onde são acessórios mais ou menos importantes dependendo do fim.

Na obra
Autor do Teatro Azul ou Teatro Municipal de Almada, vencedor do concurso para construção do Pavilhão de Portugal na Expo de Sevilha, autor, também com Egas José Vieira, do edifício da Ordem dos Arquitectos, nos chamados Banhos de São Paulo, assinou crónicas em jornais. Um dos desenhos que publicou nas páginas do extinto Independente está mesmo à entrada do gabinete. Uma mão, preto no branco, a intervir na cidade, a pensar nela como um conjunto, num momento em que os principais trabalhos do atelier – sinal dos tempo ou puro acaso – é o da recuperação e reformulação de espaços. O edifício da cadeia do Aljube, em Lisboa, para instalar o Museu da Resistência e Liberdade; “um teatrinho cá em Lisboa, do século XIX, que se chama, Teatro Luís Camões, na Ajuda, e o cineteatro da Covilhã, uma construção dos anos 1950, que nos foi pedido que adequassem às necessidades contemporâneas", conta pausado. Voz grave, vontade de fumar um cigarro. Desce ao pátio. Antes, depara-se com o mapa de Roma do seculo XVII, uma Roma entre muralhas que o filho lhe trouxe de uma das suas primeiras viagens. Aponta pormenores, a catedral. O cigarro espera. O homem gosta de cidades.

Notícia corrigida dia 28 às 12h50, onde se lia "Escola Superior de Arquitectura do Porto", lê-se agora "Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto".