Entrevista

“Quanto mais soubermos sobre o amor, melhores relações teremos”

Helen Fisher, autora de vários livros e estudos sobre o amor e consultora de vários sites, criou quatro tipos de personalidade a partir da biologia. E isso explica porque nos atraímos por uma pessoa e não por outra.

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A antropóloga Helen Fisher, autora de vários livros e estudos sobre o amor como Anatomia do Amor (Círculo de Leitores) ou Porque Amamos (Relógio d’Água) está neste momento escrever um livro sobre personalidade do ponto de vista biológico.

Consultora de vários sites de encontros amorosos e criadora de testes para o Match.com, um dos líderes no mercado, com quem está ainda a preparar uma análise das pessoas solteiras, Fisher recolheu milhares de dados sobre o que leva duas pessoas a juntarem-se – o resultado está em Why Him? Why Her?

Neste livro, Fisher centrou-se naquilo que se designa por traços temperamentais de personalidade, hereditários, “relativamente estáveis durante a vida e ligados a determinados genes, hormonas e sistemas neurotransmissores”.

Chegou a quatro tipos: o explorador, associado ao sistema da dopamina e ao desejo de novidade, experiência, aventura, impulsividade, energia, entusiasmo; o construtor, associado ao sistema da serotonina e a sociabilidade, precaução, cumprimento de regras, ordem, planeamento, precisão; o director, associado à testosterona e a capacidade visual e espacial, ao entendimento de mecânicas, menos socialização e fluência verbal, à auto-confiança e assertividade; e o negociador, associado ao estrogénio e oxitocina e ao pensamento a longo-prazo, cooperação, capacidades linguísticas, agreabilidade, empatia.

A atracção destes quatro tipos acontece assim, segundo a análise de Fisher: os exploradores e os construtores tendem a atrair os mesmos tipos; os directores e os negociadores, “opostos”, atraem-se a si próprios.

O que acontece no cérebro quando uma pessoa se apaixona?
O que acontece é que um grupo de neurónios localizados no mesencéfalo começa a produzir dopamina que se espalha a muitas partes do cérebro e nos dá aquela focalização, energia, possessividade, desejo, obsessão e motivação para ir ter com a pessoa.

A primeira coisa que acontece é que a outra pessoa passa a ser especial – tudo nela passa a ser especial. Depois começamos a focar-nos nas coisas de que gostamos da pessoa, ficamos em êxtase quando as coisas correm bem e desesperados quando correm mal, ganhamos imensa energia, tornamo-nos muito possessivos sexualmente, sentimos dependência emocional e física mas o que  queremos mesmo é a união emocional. E acontece aquilo a que chama de pensamento intrusivo: não conseguimos deixar de pensar na pessoa, alguém está acampado na nossa cabeça.

O que é que significa exactamente o amor romântico ser um motor?
No cérebro há o córtex cerebral – com que se pensa – e por baixo o sistema límbico – ligado às emoções (medo, raiva, surpresa, nojo). Muito mais abaixo, estão as regiões ligadas à motivação, à focalização, à obsessão, à energia - o amor romântico activa estas regiões. Claro que é o amor romântico muito mais do que apenas um motor – quando nos apaixonamos o cérebro está a pensar e as emoções e sentimentos estão activas. O que eu e você temos em comum é que se se apaixonar, vai desejar tanto estar com o seu parceiro como eu com o meu.

Porque é o amor desperta o melhor e o pior que há em nós?
Porque, novamente, é o motor humano básico e um dos mais poderosos no ser humano. O motor sexual leva-nos a procurar diferentes parceiros, o amor romântico evoluiu para focarmos a energia em apenas uma pessoa e o sistema de ligação evolui para manter a relação e ter filhos – o sistema cerebral evoluiu para a reprodução, de outra forma desapareceríamos.

Apaixonarmo-nos é um dos grandes mistérios, mas deixarmos de estar apaixonados também – o que é que acontece no nosso cérebro quando deixamos de estar apaixonados por alguém?
Ninguém sabe. Mas deixe-me contar-lhe uma coisa: fomos à China fazer uma experiência sobre o que acontecia quando as pessoas se apaixonavam e encontrámos respostas iguais aos americanos. Três anos e meio depois voltámos e perguntámos às mesmas pessoas se ainda estavam apaixonadas: 50% disse que sim, 50% que não.

Fomos às ressonâncias magnéticas originais para ver se havia alguma diferença em relação aos que continuavam apaixonados e os que já não estavam. Encontrámos actividade em parte no córtex pré-frontal, exactamente atrás da testa, entre os que ainda estavam apaixonados – e essa região está ligada à capacidade de suspender os aspectos negativos. Por isso se se continuar apaixonado está-se a fazer aquilo a que chamamos ilusões positivas, a ignorar o lado negativo do outro. De alguma maneira as pessoas que deixam de estar apaixonadas passam a ser realistas, começam a ver todos os problemas e não têm a iniciativa de se focarem nos aspectos positivos.  

Há imensas forças que separam as pessoas, mas em relação à personalidade, imaginemos que um explorador se apaixona por um construtor. São muito diferentes: o explorador arrisca, gosta da novidade, tende a ser irreverente; o construtor é cauteloso, gosta do que conhece, tende a seguir as regras. As pessoas apaixonam-se porque têm o mesmo background, nível de educação, valores, etc, e quando estão apaixonados tendem a esquecer as diferenças – e depois há um dia que descobrem que não funciona.  

Há alguma diferença entre a paixão à primeira vista e a que demora mais tempo?
No teste que fizemos, Singles in America, 37% de pessoas disseram que se apaixonaram por pessoas por quem não se tinham sentido atraídas inicialmente. Pedimos para pensarem porque isso aconteceu. Vivemos numa sociedade em que se não nos apaixonamos à primeira vista não perseguimos a relação – e isso é um erro. Precisamos de tempo para conhecer alguém – é possível apaixonarmo-nos por alguém meses, ou mesmo anos depois de a/o conhecer.

Não há diferença nenhuma entre a paixão à primeira vista e a que demora mais tempo. O sistema cerebral é exactamente igual: é como o sistema do medo, pode ficar-se com medo de alguma coisa instantaneamente ou meses depois de ter tido contacto com essa coisa. Ou é como comer um bolo: podemos sentir imediatamente o prazer de o comer ou sentir esse prazer um pouco depois. Uma vez que o cérebro activou esse circuito não interessa se foi instantâneo ou a longo prazo.

Há diferenças de género?
Analisei imensos dados, por exemplo, recentemente concluímos que os homens, como são mais visuais, apaixonam-se mais rapidamente. E são tão românticos quanto as mulheres. Querem começar relações e viver juntos mais rapidamente que as mulheres, querem mais facilmente partilhar o dinheiro das suas contas bancárias, têm tanta vontade de ter uma relação longa, casar e ter filhos quanto as mulheres, querem apresentar mais cedo as pessoas que conhecem, têm conversas mais íntimas com as mulheres porque as mulheres têm mais conversas com as amigas. Fizemos uma ressonância magnética a 75 pessoas que estavam loucamente apaixonadas e os cérebros dos homens estavam tão activos quanto o das mulheres.

Diz que as pessoas quando se apaixonam estão mais dispostas a arriscar – isso muda com a personalidade?
Acredito que sim. Há pessoas que estão dispostas a arriscar em várias áreas, ponto. É interessante que até as pessoas mais cautelosas arriscam mais quando estão apaixonadas. A sedução é diferente consoante as pessoas, claro, e acredito que entre os quatro tipos – o construtor, o negociador, o explorador e o director – o explorador vai arriscar mais.

Saber como é que funciona o amor ajuda-a a amar melhor?
Quanto mais se souber sobre a personalidade, melhores relações teremos. O conhecimento é poder. Às vezes levamos as coisas de forma demasiado pessoal. Se soubermos que a pessoa com quem estamos é teimosa porque é assim biologicamente e que isso não tem a ver connosco mas com a forma como é entendemo-la melhor. Mas por outro lado, durante anos as pessoas não sabiam nada sobre o amor e apaixonavam-se na mesma!

Nos últimos anos temos muito mais informação sobre como funciona e isso ajuda, claro. Por exemplo, fiz um estudo sobre anti-depressivos, que interfere com a serotonina, diminui o desejo sexual mas também põe em risco sentimentos de amor romântico, de ligação, porque quando se aumenta a serotonina está-se a suprimir o sistema da dopamina e a dopamina está ligada a sentimentos de amor romântico. Isto é informação sobre o amor romântico que as pessoas podem usar – quanto mais soubermos sobre o amor, mais poderemos evitar os problemas e termos o tipo de relação que se quer.

Podemos amar duas pessoas ao mesmo tempo?
Podemos ter sentimentos de ligação a mais de uma pessoa, podemos ter desejos sexuais por várias. Em relação ao amor romântico: imagine que está no princípio, tem sentimentos de amor romântico por duas pessoas. O que vai acontecer a determinada altura é que o seu foco se irá virar para apenas uma pessoa: se me disser que está loucamente apaixonada por duas pessoas ao mesmo tempo a minha aposta é que não está apaixonada por nenhuma. É como comer chocolate e queijo ao mesmo tempo, não se consegue saborear as duas coisas completamente em simultâneo.  

Identificou algumas tendências que estão a mudar a forma como amamos, como a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Que tendência identifica agora?
A tendência mais poderosa, sem sombra de dúvida, é a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Durante milhões de anos em África as mulheres trabalhavam, traziam um salário para casa, eram tão poderosas economicamente como os homens, mas depois passámos para o sistema agrário e o poder dos homens aumentou e o das mulheres diminui.

Neste momento, estamos a casar mais tarde e a ter menos filhos, estamos a abandonar os maus casamentos. Temos o viagra, as operações, tudo isso, ou seja, as pessoas que se divorciam na meia-idade podem continuar a apaixonar-se, a ter relações sexuais e novas relações amorosas até morrerem. Ah, e que dizer da Internet?

Muda alguma coisa?
Não, é apenas um mecanismo para apresentar as pessoas – uma vez que se conhece a pessoa, o velho sistema do cérebro aparece, e começa-se o processo de sedução como acontecia há milhões de anos. Vivíamos nas sociedades recolectores onde toda a gente falava com toda a gente durante todo o dia. e agora voltámos a falar com as pessoas durante o dia todo outra vez. Não vejo diferença. As pessoas estão convencidas de que a tecnologia está a mudar o cérebro – não está, está apenas a ajudar o cérebro a fazer aquilo que sempre fez e ajudar a comunicação a fluir.