Deus existe mas a religião é imperfeita, Deus não existe mas fingimos que sim

Terceiro dia da série Conversas de fim de ano. Nesta segunda-feira, Slavoj Zizek e John Haught confrontam opiniões sobre a existência de Deus.

Fonte: CIA The Factbook (2010)
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Fonte: CIA The Factbook (2010)
Fonte: INE (Censos 2011)
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Fonte: INE (Censos 2011)

É uma discussão que raramente consegue que alguém mude de posição: Deus existe, Deus não existe?

Nos últimos anos, um grupo agressivo de académicos e jornalistas chamados "novos ateus" que atacam a religião - como Richard Dawkins e Christopher Hitchens - gerou inúmeros debates sobre a relação entre fé e ciência.

John Haught, senior fellow do Woodstock Theological Center da Georgetown University, autor de quase 20 livros, a maioria sobre ciência e religião, participou activamente na polémica argumentando que não são incompatíveis. "Os novos ateus argumentaram que a fé, de qualquer tipo, é o contrário da ciência. Defendo que não se pode fazer ciência sem um certo tipo de fé - tem de se acreditar que o universo é inteligível, tem de se acreditar que vale a pena procurar a verdade e tem de se acreditar que a nossa mente tem integridade auto-suficiente para distinguir o que é verdade e o que não é. Isto são tudo crenças nas quais a maioria dos cientistas não reflecte", diz.

O esloveno Slavoj Zizek não é cientista, é um filósofo que não acredita na ponte entre as duas áreas. Ateu convicto, que tem também escrito sobre o tema, lança a questão da crença como algo misterioso, sim, e recusa vê-la como "apenas uma convicção interior" mas como algo que está ligado "às instituições" - e nas alturas em que temos de decidir entre as duas, o que tem mais influência não é a convicção interior mas a instituição exterior, argumenta. Para Zizek ser verdadeiramente ateu é "extremamente difícil", porque a vida social e as instituições estão impregnadas de uma estrutura religiosa. "As instituições externas nunca são apenas externas - são a nossa verdadeira identidade."

A verdade é que cada vez mais pessoas no mundo se dizem sem religião. Ainda esta semana, dados de um instituto americano, o Pew, mostraram que o grupo das pessoas sem religião é o terceiro maior no mundo, a seguir aos cristãos e aos muçulmanos. Em Portugal, apenas 6,8% não têm religião e 81% dizem-se católicos - mas quantos destes responderiam que acreditam que Jesus foi um homem que existiu? Usando o exemplo de uma sondagem na Eslovénia em que 80% disseram que não acreditavam "que há dois mil anos um homem filho de Deus andou na Palestina", sendo que 90% se diziam cristãos, Zizek levanta a questão que o "intriga": "O que leva as pessoas a acreditar [em Deus], mesmo sabendo que não é verdade?"

Prestes a publicar Science and Faith: A New Introduction, John Haught - que em Portugal tem traduzido pela Gradiva o seu livro Cristianismo e Evolucionismo em 101 Perguntas e Respostas - "responde" com a ligação que estabelece entre ciência e religião: a biologia, a cosmologia e a teologia mostraram-nos "que vivemos num universo incompleto e que ainda temos pela frente um futuro". "Não podemos olhar para trás, nem para cima, mas para a frente quando pensamos na nossa relação com Deus", diz.

Em Science and Religion: From Conflict to Conversation (1995), Haught defende que a ciência não é tão pura e objectiva, nem a teologia tão impura e subjectiva quanto se pensava e que ambas partilham a procura da verdade - mas para as duas áreas entrarem em diálogo é necessária dar uma "explicação em camadas". "A ciência procura perceber a natureza e deixa de fora questões à volta de valores, do significado da vida, de Deus ou da finalidade. Olha para a natureza apenas do ponto de vista das causas naturais. Isso está correcto, mas não significa que aquelas questões sejam irrelevantes, por isso vejo complementaridade entre a ciência e a religião. Isso é outra crença, a de que a ciência é a única forma de explicação."

No seu novo livro, lança várias perguntas, como: a fé é compatível com a teoria da evolução? Charles Darwin desafia a teologia em três pontos, lembra: foram necessários vários acidentes para que a evolução acontecesse - o acaso lidera o processo; a lei da selecção natural é injusta e cruel porque elimina os organismos que não são adaptáveis e não podem sobreviver; e, por último, se Deus "é amor e é providencial, porque é que demorou tanto tempo a criar a vida há 3,8 mil milhões de anos"? Haught argumenta que "se tudo fosse desenhado de forma perfeita desde o dia número um da criação, então não existiria futuro, o universo teria acabado". "Se o universo fosse perfeito, a vida e a liberdade não eram possíveis - se Deus tivesse fixado tudo no princípio, o universo estaria morto."

Por isso compara a narrativa da evolução de Darwin à narrativa teológica: "Aquilo que de início parece ser o oposto de um Deus arquitecto é essencial para a vida ter uma narrativa coerente. A minha metáfora é que a vida é um drama e o universo é um drama de transformação - a transformação que a religião procura no caso dos seres humanos tem as suas raízes no universo. Tudo o que está em causa na discussão entre ciência e fé vai dar à questão sobre se alguma coisa com significado se está a criar a si própria no universo. Defendo que as probabilidades são muito altas e nenhum de nós está em posição de dizer, como os novos ateus, que o universo não tem sentido nem significado. O drama ainda está a desenrolar-se." E se o universo não está acabado então quer dizer "que a religião também não está acabada" - "as religiões também são imperfeitas".

O que exclui a ideia de que "Deus é apenas um engenheiro" e sustenta a ideia de que "Deus é muito mais amor do que aquele que coloca uma impressão final no universo no princípio". "A divina providência numa era da ciência implica um Deus que dá a oportunidade ao universo de se tornar ele próprio, vivo, que responde e produz seres." Esperança, diz, é a chave: "Há o risco de, uma vez dada liberdade, podermos decidir contra o futuro, voltar atrás e reduzir tudo ao passado. A atitude mais realista que podemos ter num universo que ainda está a ser criado é esperança, não desespero - a esperança é um radar que ilumina o futuro para novas possibilidades e para mim isso conjuga-se muito melhor com o tipo de universo que a ciência desvendou."

A religião é o Grande Outro
O universo é um erro, defende Zizek, que não acredita na ideia de finalidade ou de significado. Somos parte da natureza, mas a natureza "é um mecanismo contingente, maluco, cheio de catástrofes como nós, seres humanos".

Professor na Universidade de Ljubljana, director do londrino Birkbeck Institute for the Humanites e professor convidado de várias universidades americanas, Zizek desenvolveu as suas posições sobre o tema em livros comoA Marioneta e o Anão: O Cristianismo entre a Perversão e a Subversão, A Monstruosidade de Cristo: Paradoxo ou Dialéctica (Relógio d"Água, 2006) ou no mais recente God in Pain: Inversions of the Apocalypse.

Tem citado frequentemente o psicanalista Jacques Lacan para explicar que "a verdadeira fórmula do ateísmo não é que Deus está morto mas que Deus é inconsciente". "O que aprendi com a psicanálise é que é fácil dizer que Deus não existe, mas a maioria age como se Deus existisse".

Mesmo críticos ferozes da religião como os estalinistas caíram na "armadilha" de usar uma estrutura teológica para explicar a sua filosofia, aquilo a que Lacan chama "o Grande Outro, uma entidade simbólica que pode fazer julgamentos sobre o significado dos nossos actos". "Há crenças que se manifestam nas nossas práticas sociais. É isso que Walter Benjamin queria dizer quando afirmava que o capitalismo era uma forma de religião - tem uma estrutura religiosa." Outro exemplo é a democracia e a justiça: as pessoas não acreditam que exista, mas agem como se acreditassem, cotando, usando o sistema legal.

A dificuldade de se ser um ateu radical, explica, deve-se ao facto de a religião, "provavelmente", fazer "parte da linguagem humana" desde sempre: "A partir do momento em que usamos uma língua, temos de aceitar uma narrativa maior que lhe garante significado. Quando Cristo está na cruz e pergunta: "Pai, porque é que me abandonaste?", é o momento em que Deus se torna um ateísta, morre por ele próprio." Não chega, por isso, não acreditar em Deus, porque "inconscientemente ainda contamos com Deus".

Na verdade, "para ser um verdadeiro ateísta tem de se ir à cristandade", uma "religião ateísta" porque "Deus morre, literalmente". "Deus permanece no espírito santo - mas na comunidade de crentes."

Quem é Deus, afinal? Para John Haught, "é o último repositório de tudo o que acontece no universo". A resposta encontra-a em Cristo. "O significado da cristandade é que nunca posso pensar em Deus sem pensar neste homem, Jesus. Isso é o que faz a cristandade diferente. Os cristãos dizem: se querem saber como é Deus, olhem para este homem, porque, como diz o Novo Testamento, pense-se em Cristo como contendo a revelação do que Deus é."

E Zizek, como imagina que quem acredita imagina Deus? "A maior parte das pessoas acredita que deve existir uma entidade superior que garante que a nossa vida tem sentido, ou seja, que deve existir algo superior. Acho que devíamos abandonar isto. Seria muito melhor para a moralidade, porque se esquecermos a transcendência então somos confrontados com a nossa responsabilidade. Aceitar a nossa liberdade e não deitar a culpa para ninguém é uma posição mais forte." Deus existe?

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