Holy Motors

“O público? Não sei quem é: um grupo de pessoas que vão morrer daqui a pouco. Não faço filmes públicos, faço filmes privados. Mas convido todos a vê-los”, dizia Leos Carax em Cannes, numa conferência de imprensa em que (se) lembrou de que ali mesmo fora crucificado há anos por causa de Pola X. A boutade expôs-se imediatamente, destapou-se, vulnerabilizou-se: Carax solicita, na verdade, o olhar do espectador. O público é um grupo de pessoas que vai morrer, sim. Ou, e essa é uma das primeiras imagens do filme: um grupo de entidades congeladas. Holy Motors fala-nos de um mundo onde já ninguém olha e já ninguém é olhado. Onde as câmaras de filmar passaram a ser mais pequenas do que as cabeças, onde já não se diz moteur (acção) antes de filmar, mas power - um muito “godardiano” tom apocalíptico, para não esconder de onde é que se vem. O cinema como uma ilha com um grande cemitério. É tudo isso este filme: Carax rodeia-se dos seus mortos (como Katerina Golubeva, sua companheira e actriz de Pola X, que morreu antes da rodagem de Holy Motors e a quem o filme é dedicado) e dos seus fracassos e lendas (Les Amants du Pont Neuf é os dois). Mas o sentido de autoparódia é tocante, e os planos têm a vontade de provocar a cumplicidade de quem se dispõe a olhá-los - o tal “público” -, o que é inédito no cinema do realizador. (Ou então, já disso nos tínhamos esquecido e ele também.) Sinal de vida na ilha dos mortos de Alexandre Oscar Dupont de Nemours.

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