Crítica

Tigre sem dragão

Ang Lee assina uma fábula simpática e elegante mas surpreendentemente sem grande personalidade

Ponto prévio: qualquer filme que tenha um grande felino num papel central da sua narrativa tem logo uma indubitável mais-valia em relação à concorrência. Que, no caso em epígrafe e por questões práticas, esse felino seja inteiramente digital (mas engane na perfeição) não altera a mais-valia. E o tigre de Bengala peculiarmente chamado Richard Parker é o trunfo escondido com cauda de fora do novo filme de Ang Lee, cineasta que muito estimamos e que aqui se redime parcialmente do tiro ao lado de Taking Woodstock (2009).


A Vida de Pi adapta o best-seller do canadiano Yann Martel sobre um moço indiano que, na sequência de um naufrágio, dá por si forçado a sobreviver sozinho num salva-vidas no meio do oceano com o tal tigre de Bengala. Para Lee, é a oportunidade de usar a seu favor as tecnologias digitais modernas para contar uma narrativa sobre a própria essência do humano, sobre alguém que procura o seu lugar no mundo, em forma de fábula sobre as fábulas. Se quisermos, é uma meta-ficção sobre as histórias que contamos para fazer sentido do nosso mundo e das nossas experiências, sobre o modo como redefinimos dia-a-dia o que vivemos em termos de uma narrativa, revelada pacientemente e aos poucos por Lee.

Mas, para lá chegarmos, atravessamos uma série de obstáculos mais ou menos convencionais da história de um jovem em processo de se tornar adulto, encenados com a elegância contida que reconhecemos a Lee mas também sem um entusiasmo ou uma entrega que marquem a diferença. O cineasta filma com a placidez serena de um mestre contador de histórias que nos quer fazer acreditar na história que conta - mas deixa-nos sempre na dúvida se ele próprio acredita como quer que nós acreditemos. Resulta daqui um filme simpático, ocasionalmente inspirado, que utiliza com inteligência quer o 3D quer os efeitos visuais colocando-os ao serviço da história, mas mais anónimo do que entusiasmante.

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