A Mouraria tem uma nova casa que é de todos

A Mouradia abre neste sábado as portas com uma festa de inauguração que dura dois dias. Daqui por diante quer ser a casa de todos os que vivem na Mouraria. E uma porta de entrada no bairro para os que vêm de fora

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A Mouradia fica nos números 8 e 10 no Beco do Rosendo Helena Salazar Colaço
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Casa azul está encaixada num beco de escadinhas junto à Praça da Figueira Helena Salazar Colaço
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Visitantes podem fazer refeições na casa Helena Salazar Colaço
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Espaço vai ser ponto de encontro entre a cultura bairrista e as expressões culturais do bairro Helena Salazar Colaço
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Parte da louça arrumada nos móveis da cafetaria foi doada por um vizinho Helena Salazar Colaço
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À esquerda, Filipa Bolotinha, uma das responsáveis da Renovar a Mouraria, acompanhada da presidente da associação, Inês Andrade Helena Salazar Colaço
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Ontem ainda havia móveis para arrumar na casa azul do Beco do Rosendo Helena Salazar Colaço
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À noite haverá refeições, com uma pessoa diferente a cozinhar em cada dia da semana Helena Salazar Colaço
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A decoração faz lembrar mesmo a de uma casa de família Helena Salazar Colaço
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Ontem davam-se os últimos retoques para a inauguração Helena Salazar Colaço

Desde então já se passaram quase dois anos. A obra está pronta - ontem arrumavam-se os últimos móveis, já só faltava um dia para a inauguração. O manifesto (que era a obra, para provar que a reabilitação urbana é possível e resulta até no edifício mais banal, como era aquele) está completo. E o resultado ficou lá para o vermos, naquele pequenino edifício azul encaixado num beco de escadinhas, junto à Praça da Figueira. Daqui por diante chama-se Mouradia - Casa Comunitária da Mouraria. O espaço foi inaugurado neste sábado às 15h, com uma festa que só termina domingo à noite. Mas já vamos à festa.

Mouradia foi um nome escolhido entre todos e vem de "Mouraria e moradia, um lugar para morar". A ideia, explica Filipa Bolotinha, uma das responsáveis da Renovar a Mouraria, é que se transforme mesmo numa casa para todos. Será "um local de convívio, cultura, formação e festa". Uma casa para quem vive no bairro, porta de entrada na Mouraria para quem vem de fora. 

Pelo menos os vizinhos já olham para ela assim. Enquanto a conversa prosseguia, entrou no escritório um dos vizinhos com uma surpresa. Filipa abre o embrulho: duas placas com um 8 e um 10, os números de porta da Mouradia, no Beco do Rosendo. E parte da louça arrumada nos móveis da cafetaria também foi doada por um vizinho. "Queremos mesmo que pareça uma casa", explica Filipa e mostra o espaço, no rés-do-chão. 

É esse espaço que vai estar aberto todos os dias, a partir das 17h, e que à noite terá refeições, com uma pessoa diferente a cozinhar em cada dia da semana. Todas as quintas, por exemplo, haverá um ou dois pratos de uma "refeição natural". Aos fins-de-semana abrirá mais cedo, às 10h30, e só fechará às 2h. Haverá concertos, actuações de DJ, tertúlias, noites de cinema. Já reuniram um conjunto de cassetes para as noites de VHS, por exemplo. Hoje actuam Os Telefonia e Os Compotas, amanhã há fado.

Para respeitar o princípio de que a Mouradia é mesmo uma casa, a cafetaria - que quase podia ser a cozinha da casa de alguém - também está disponível para quem quiser fazer um jantar com amigos. O primeiro será o jantar de Natal de Filipa, já no dia 15. Também o primeiro andar, onde a partir da próxima semana decorrem actividades (de cursos e workshops a iniciativas de apoio aos cidadãos, passando pela medicina alternativa, estará disponível para propostas dos moradores. "As pessoas do bairro merecem um espaço qualificado", diz Lucinda Correia, a arquitecta do Artéria. "Isto não deve ser um capricho de um grupo de pessoas com dinheiro, é uma necessidade genérica."

Já nas próximas semanas começam os cursos de alfabetização e de Português para estrangeiros (para servir a população imigrante, que tem um peso significativo no bairro). E um curso de Chinês para portugueses, com um professor chinês que vive na Mouraria.

Para os mais novos haverá, a partir de Janeiro, actividades de ocupação de tempos livres e apoio ao estudo. E aulas de ballet e de guitarra. E uma oficina de Natal e um workshop de ilustração para crianças, pais e avós. Mais um workshop de culinária, que também já está previsto (a programação é divulgada no site da associação). A Mouradia - Casa Comunitária da Mouraria, prometem os anfitriões, será um "ponto de encontro entre a cultura bairrista e as inúmeras expressões culturais do bairro".

E afinal aquele edifício esquisito e com mau aspecto escondido no Beco do Rosendo não era um edifício qualquer. Quando começaram as obras - naquela altura em que a outra arquitecta do Artéria, Ana Jara, olhava para a Mouraria e ainda só via um bairro "cheio de nãos" -, sabia-se que tinha sido armazém de colchões na década de 1920, ultimamente atelier de uma artista plástica. Os novos inquilinos descobriram agora que tem muito mais história: em 1860 foi sede da Associação Patriótica, também conhecida como "Clube do Borratém" ou "Beco do Rosendo", uma das primeiras associações políticas populares criadas em Portugal.