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Morar em Chesterfield: a aventura britânica de Clara e Miguel, um casal de engenheiros

Clara e Miguel cansaram-se da falta de condições profissionais em Portugal e mudaram-se para terras de Sua Majestade. Não se arrependem da decisão e, de momento, nem sequer pensam na possibilidade de regressarem

A crónica de hoje não se foca na experiência de um mas sim dois portugueses a viverem fora do país. Resolvi explorar a perspectiva de ambos e se, como casal, tinham ou não a mesma visão. Descobri que sim. Ou seja, estão sintonizados em todos os aspectos. O que só é bom.

Mas falemos de Chesterfield. Não, não tem nada que ver com a famosa marca de tabaco. Essa é norte-americana e lá para os lados do Estado da Virgínia. Esta Chesterfield é uma cidade localizada no nordeste de Inglaterra que em tempos foi conhecida pela sua actividade mineira. Hoje em dia é bem diferente, com a cidade a viver de trocas comerciais, ciência e cultura, entre outras. Alberga mais de 100 mil habitantes e com uma qualidade de vida bastante aceitável. Talvez por estas características tenha sido escolhida pela Clara e o Miguel como cidade adoptiva.

E quem são eles? A Clara Frias é licenciada em Matemática pela UTAD e doutorada em Ciências da Engenharia pela FEUP. Já o Miguel Moreira estudou Engenharia Mecânica na FEUP com especialidade em Gestão da Produção. Ambos trabalharam num Instituto associado à Universidade do Porto, onde se conheceram, apaixonaram e acabariam por decidir pela mudança cansados das condições de trabalho e constantes renovações de contratos de bolseiros quando faziam trabalho “real”. Ele tem 32 anos e ela quase. Mudaram-se de malas e bagagens em Abril de 2011, no mês que simboliza liberdade e esperança num futuro melhor para todos os portugueses. E para ambos foi mesmo uma revolução. Não de cravos mas de uma vida melhor.

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Jorge Baldaia escreve quinzenalmente a rubrica Notícias do Lado de Lá

Clara e Miguel trabalham na mesma empresa. Uma empresa de Investigação e Desenvolvimento na área dos materiais compósitos (netcomposites). Ela é engenheira de desenvolvimento onde faz ”trabalho de investigação no âmbito de projectos europeus para o desenvolvimento de novos materiais”, específica. Já o Miguel é engenheiro de processo, “responsável pelo desenvolvimento de processos de fabrico e execução de protótipos e amostras em materiais compósitos”, clarifica. Segundo eles parte do seu trabalho “gira em torno da substituição de materiais, como fibras de vidro e resinas derivadas do petróleo, por fibras naturais, materiais recicláveis e mais amigos do ambiente”. Ou seja, dão o seu contributo para um planeta mais verde.

Uma cidade equilibrada

Chesterfield conquistou ambos: “é uma cidade que tem a dimensão ideal. Pequena o suficiente para não ter confusões e grande o suficiente para termos todas as comodidades. E rapidamente nos deslocamos a várias cidades importantes. De comboio para Londres são pouco mais de duas horas”. Além disso é “uma cidade pacata, onde se pode passear pelas ruas do centro ao Sábado de manhã e apreciar o movimento no mercado e no comércio local que são bastante activos”, revelam. Mesmo a arquitectura é agradável e simples. “Não há prédios com mais de 3 andares”. Resumindo é uma cidade onde, até hoje, “não encontramos nada particularmente desagradável”, esclarecem.

Sobre a vida social há a salientar a ausência de portugueses. O círculo de amigos consiste em colegas de trabalho, ingleses. E estes são bem diferentes dos lusitanos: “são multi-facetados, cumpridores e rigorosos no trabalho”. Até na diversão existem grandes diferenças. “A partir das 17 horas enfiam-se nos pubs e enchem-se de cerveja e batatas fritas. É estranho perceber que a ideia de diversão de muitos ingleses passa por se embebedarem até cair”, salientam com um sorriso nos lábios. Outra curiosidade tem que ver com a alimentação: “eles só comem porque precisam de comer. Em Portugal uma refeição é um acto social, um momento para conviver e desfrutar da nossa maravilhosa gastronomia. Aqui não há esse costume”, referem. Talvez por isso mesmo apenas dediquem 30 minutos para o almoço num dia de trabalho.

Sobre a distância da terra natal ambos colmatam as saudades, em particular da comida, com jantares em casa mesmo com as dificuldades em conseguirem os ingredientes ideais. É que segundo eles para os ingleses é tudo e mais alguma coisa com batatas fritas. Mas lá se vão adaptando e contornando a coisa. E sentem que se adaptaram bem. Regressar? São bastante esclarecedores: “De momento não pensamos num possível regresso”. Compreensível. A mudança só é opção quando é para melhor. E no caso deles isso não se aplica quando se fala em Portugal. Pelo menos para já. O importante é que estão bem e que, como casal, sejam felizes.