Crítica

Uma deriva biográfica

Ao oitavo libro publicado em Portugal, Rentes de Carvalho continua a justificar toda a atenção que lhe tem sido dada. São crónicas em tom confessional

A verdade continua a não ser o mais importante. Importante é o jogo que vai mantendo com a memória para o qual o autor convoca o leitor enquanto lhe serve um mazagran. A bebida, uma das preferidas no Magrebe, dá o nome ao mais recente livro de José Rentes de Carvalho (Vila Nova de Gaia, 1930) publicado em Portugal, um conjunto de “recordações e outras fantasias” em formato de crónica, metade das quais epistolares, ao logo do qual o escritor expõe ideias e faz confissões, numa conversa onde quase se consegue escutar a respiração de quem as lê. De preferência na companhia de um mazagran: “um copo grande cheio até mais de um terço com café forte, um volume igual de água gasosa, muito açúcar, uma rodela de limão”, e “quando o Profeta abranda a sua vigilância junta-se-lhe um cálice de conhaque”.

Nas páginas que se seguem não há mais nenhuma alusão à bebida que se serve quente do Inverno e gelada no Verão. O seu nome aparece apenas na capa e no prefácio que serve a Rentes de Carvalho para um convite. Por exemplo, para o apertar de mão com Mrs. Cockburn, a vizinha inglesa, “velha de quase trinta anos”, casada com “um seco e quase mal-humorado negociante de vinhos”, que o ia buscar à escola. A ele e aos filhos dela. Ela foi o primeiro amor, tinha ele seis anos, e a beleza inglesa ficou para sempre colada ao seu ideal de mulher. Texto muito diferente é aquele em que se despede do senhor Cardoso, o “abafador” da aldeia, abafando numa almofada os últimos suspiros do judeus e evitando-lhes a confissão católica. São personagens retiradas de um passado que permanece vivo na cabeça de Rentes de Carvalho, porque, como ele já disse, a memória nunca o atraiçoou, nem com a idade, e a ficção ficou quase sempre refém dela.

Mazagran é o oitavo título de José Rentes de Carvalho a ser publicado em Portugal, depois de Com os Holandeses, Ernestina, A Amante Holandesa, Tempo Contado, La Coca, Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia e O Rebate. São crónicas que seguem a tradição diarística que Rentes de Carvalho foi exercitando ao longo de décadas. No entanto obedecem a outra lógica: às associações da memória, ao seu imprevisto, à sua ordem que adultera a cronologia. Quem leu Tempo Contado, o diário publicado em Portugal 2011, ou o blogue com o mesmo nome que o escritor manteve durante seis anos, reconhece-lhe o estilo. Limpo, de uma crueza e depuração de linguagem raras.

As referências mantêm-se. A aldeia de Trás-os-Montes de onde veio a família e onde tem casa, e a Holanda, para onde foi em 1956, depois de ser jornalista no Rio de Janeiro e em São Paulo, exilado político de um regime contra o qual nunca conspirou porque não era dado a grupos, mas pelo qual não morria de amores e que continua muito presente na sua escrita impressionista, real tanto quanto a realidade pode entrar numa crónica ou numa reportagem jornalística, mas descomprometida com os factos como só a literatura permite. Uma liberdade que levou, por exemplo, a que dois dos seus livros - La Coca e Ernestina - sejam apresentados como romances apesar de, segundo o próprio, pouco ou mesmo nada terem de ficção.

Rentes de Carvalho não sai dessa fronteira. Sempre muito colado aos ambientes, é um notável narrador de costumes. Os seus livros, só muito recentemente editados em Portugal, bem depois de ter sido best-seller na Holanda (estreou-se em 1962 e fez uma notável carreira, com mais de 120 mil livros vendidos em edições holandesas) são o resultado de uma experiência muito pessoal. Rentes escreve sobre o que conhece. A aldeia em Mogadouro ou Amesterdão onde se move com o mesmo à-vontade, esgrimindo argumentos sobre o que é ser português ou holandês, rindo e maldizendo dos hábitos de uns e outros, analisando a actualidade e o modo como ela o afecta. “Se um deus mal humorado me pusesse o dilema de escolher entre a Holanda e Portugal, e a minha recusa em decidir implicasse um daqueles castigos bárbaros da Mitologia, eu creio que sem hesitar escolheria o castigo. Mas o tempo em que vivemos perdeu a simpleza da antiguidade e os deuses há muito que nos abandonaram, lavando as mãos do nosso destino e das complicações da nossa existência.”

Entre a piada e a nostalgia, o escritor fala de refúgios de políticos e da curiosidade que despertam em portugueses e holandeses, de como prefere a contenção dos chineses no aplauso ao exteriorizar de emoções dos latinos, do acordar em Trás-os-Montes sem vidros duplos, da sua ignorância acerca dos belgas, da aversão à beira-mar, de como nunca acreditou que Portugal fosse um país próspero, ou de como chegou à Holanda na década de cinquenta pensado que seria apenas por duas semanas. Foram mais de cinco décadas. E são mais de cem as crónicas. Nem em todas consegue o mesmo brilhantismo, mas estão lá os condimentos que fizeram de Rentes de Carvalho uma das mais estimulantes descobertas literárias dos últimos anos em Portugal.