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Megafone

Tóquio: “where the streets have no name”

Onde quer que vá, sinto-me como ele: deslocado, estranho, confuso. O Bill Murray merecia o Óscar

Tóquio é diferente das cidades que conhecia. Não é europeia na sua composição e não existe um casco histórico. Existem múltiplas malhas urbanas, de diferentes tramas e densidades, e no último século a cidade sofreu um terramoto e bombardeamentos devastadores, tendo sido reconstruída duas vezes num curto espaço de tempo: o resultado é uma metrópole "nova" na sua massa mas ainda assim mergulhada em valores e tradições sem idade. O contemporâneo e o tradicional convivem com grande autenticidade, em equilíbrio.

Lado a lado é possível contemplar gigantescos arranha-céus e pequenas zonas residenciais com uma profundidade inacreditável. Não existe um "centro", existem muitos "centros", e são os quarteirões que definem Tóquio porque as ruas não têm nome, logo os aglomerados edificados servem de orientação na cidade. Felizmente existe uma rede de metro muito organizada que ajuda a atenuar as diferenças com o Ocidente.

Os edifícios são de uma heterogenia total. Existe um vocabulário base de materiais, cores, formas e "tiques", mas reina uma agradável desordem. Em cada perspectiva, em cada foto, fica no ar o "já vi isto em qualquer lado", mas nada é repetido. A consistência advém das derivações da linguagem base e o resultado é a identidade do todo: as instabilidades constantes tornam absolutamente homogéneo o aglomerado que é a cidade. As edificações são unidades singulares, que nunca se tocam, e entre cada edifício existe uma falha de dois palmos que o reforça (talvez por causa dos terramotos, talvez porque cada peça tem uma data de validade ao fim da qual é 'desmontada' e substituída). A regeneração constante leva à definição da personalidade que transpira e respira do comportamento social dos japoneses.

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A cidade é uma permanente descoberta. Os néons de Shinjuku definem um cenário: são a fonte burlesca de iluminação nocturna e deixam o seu objectivo inicial (publicidade?) para um segundo plano, quase irrelevante. Akihabara é um jogo de computador em tamanho real onde entre lojas de banda desenhada e "duty-free-shops", tudo se encontra. Em Otemachi os edifícios tocam mesmo no céu, ou pelo menos é essa a sensação que fica a quem olha apenas cá de baixo. É difícil compreender a(s) moda(s) de Shibuya e paira no ar um pop-rock nipónico das muitas bandas que tocam pelos passeios. Nos espaços sobrantes dos rés-do-chão, debaixo de viadutos e dentro dos túneis do metro (uma segunda cidade), pequenos restaurantes com 3 ou 4 lugares servem sopas de noodles e sushi, aplicando na cidade vários "layers" de aromas. Os Pachinko Parlors revelam um lado mecânico-compulsivo do japonês sossegado: são casas de jogo(s) onde se é obrigado a mergulhar numa espiral frenética de teclas e ruído imposto pelas máquinas. Em cada minúsculo espaço vazio nasce um "pet-architecture-building", edifícios com 12 metros quadrados ou menos, e 2 pisos ou mais. O asfalto cobre todas as estradas e passeios nas compactas zonas residenciais e é tatuado a branco com longas inscrições de trânsito, dando um ambiente muito próprio aos percursos já carregados de vasos, bicicletas e pequenas lojas de alfarrabistas. Os cabos de alta tensão são uma segunda natureza, como uma floresta (aparentemente) desgovernada de fios eléctricos e transformadores directamente acima da cidade.

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Por todo o lado, sem excepção, há pessoas, muitas pessoas. No metro, as crianças olham para mim como um estranho desenho animado. Neste momento acho que a cidade é a mesma da Sofia Coppola. Ou, pelo menos, a caracterização do estado de espírito de quem chega e se perde. É como mergulhar num grande tanque de melancolia, espanto e curiosidade. E ficar perdido aqui é fácil.