Os muitos números da manifestação de 15 de Setembro em Lisboa

Para chegar ao meio milhão de pessoas, a totalidade da área teria de estar ocupada com mais de três pessoas por m2
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Para chegar ao meio milhão de pessoas, a totalidade da área teria de estar ocupada com mais de três pessoas por m2 Enric Vives-Rubio

Estiveram 500 mil pessoas nas ruas da capital? Os organizadores dizem que sim, mas não há certezas.

A organização da manifestação de 15 de Setembro recorreu a um método comum para calcular multidões: determinou a área ocupada pelos manifestantes e estimou a densidade de pessoas nessa área. A lógica é simples - uma área de mil m2 com duas pessoas por m2 significa um grupo de duas mil pessoas.

Os cálculos do número de manifestantes, que apontam para o meio milhão de pessoas, são apresentados por Mariana Avelãs e partem do princípio de que praticamente todos os cerca de 2,5 km do trajecto em Lisboa - da Praça José Fontana até à Praça de Espanha, passando pela Av. da República e Av. de Berna - estavam, em simultâneo, cheios de pessoas. "Sabíamos que a "manif" saiu do [Liceu] Camões [na Pç. José Fontana] antes das 17h, chegou à Pç. de Espanha, que já estava meio cheia, por volta das 18h, e que, a essa hora, ainda havia gente a sair da José Fontana", explica.

Os organizadores calculam que a área total do trajecto ronde os 110 mil m2 e estimam uma densidade média de 3,5 pessoas por m2. "Chegámos a 385 mil, isto é, quase 400 mil. Acrescentámos mais 20% [80 mil pessoas] porque no início e no fim do trajecto já havia áreas ocupadas e porque nenhuma das ferramentas [usadas para determinar a área] dava para calcular ruas limítrofes, como a António Augusto Aguiar ou a Duque de Ávila. Assim, pensamos que estimámos com alguma credibilidade os 500 mil."

Por seu lado, o arquitecto Tiago Mota Saraiva, que participou na manifestação e cujos números também foram usados pela organização, estima que a área coberta, incluindo algumas ruas próximas ao trajecto principal, tenha sido de 150 mil m2, com uma densidade que terá variado entre as duas, três e até seis pessoas por m2, conforme as zonas. Num "movimento de massas" desta envergadura, é difícil ser exacto, admite: "A partir das 100 mil pessoas passa a ser difícil contabilizar." E este protesto foi especial: "A cabeça da manifestação na verdade nunca foi bem cabeça, havia sempre muita gente à nossa frente." Os 500 mil não lhe parecem um número inflacionado. Já falar de 100 mil "não se aproxima minimamente da realidade".

Para chegar a um total de meio milhão de pessoas, a totalidade da área apresentada pela organização teria de estar ocupada com mais de três pessoas por m2. As imagens aéreas captadas pela SIC mostram que há uma parte da Pç. de Espanha que está cheia, mas que a zona a oeste do arco no centro da praça tem muito menos pessoas. Por outro lado, as zonas contíguas à Pç. de Espanha - partes das avenidas de Berna e António Augusto de Aguiar - estão cheias. As imagens aéreas da SIC indicam zonas de grande aglutinação de pessoas ao longo do trajecto. Mas as imagens, bem como as observações do PÚBLICO no terreno, mostram também que muitas áreas, como as faixas laterais e passeios da larga Av. da República - que representa cerca de um terço da extensão do percurso -, tinham muito menos gente.

"Com três pessoas por m2, a multidão seria tão densa que as pessoas teriam dificuldade em movimentar-se. As fotografias da multidão a percorrer a avenida mostram que a manifestação é muito mais dispersa do que isso", observa o académico e jornalista americano Steven Doig. Doig, que é vencedor de um Pulitzer e se tem dedicado à contagem de multidões, analisou para o PÚBLICO imagens tiradas a partir da rua, bem como imagens aéreas. "Creio que duas pessoas por m2 se aproxima mais da verdade."

Se usarmos o Google Earth Pro (um programa com imagens de satélite e ferramentas de medição) para calcular a área do trajecto, incluindo as praças de partida e de chegada, chegamos a uma área total que ronda os 113 mil m2 (o que inclui a área ocupada por carros, árvores e outros espaços que não podem conter pessoas). A ferramenta é apropriada para o efeito, explica José António Tenedório, geógrafo da Universidade Nova de Lisboa, porque apesar de haver pequenas distorções nas medições do Google, "estas são reduzidas em regiões pequenas, como as do interior de uma cidade".

A área total da manifestação pode ser dividida em zonas onde a densidade de pessoas era diferente, tornando-se possível traçar diferentes cenários (ver infografia). Com quatro pessoas por m2 nessa área de 113 mil m2 chega-se a 452 mil pessoas. Mas é possível fazer estimativas mais conservadoras: uma densidade de duas pessoas por m2 na zona ocupada da Pç. de Espanha, em parte da Av. António Augusto de Aguiar e na totalidade da Av. Berna (um total de 48 mil m2, área rosa na infografia) e de, em média, uma pessoa por m2 no restante trajecto (65 mil m2) significaria 161 mil pessoas. Aumentando a densidade para três pessoas por metro quadrado na zona mais rosa e para duas pessoas na área restante, obtém-se 274 mil pessoas. Mesmo com três pessoas por m2 (uma multidão compacta) em toda a área de todo o percurso (área azul na infografia), os cálculos indicam 339 mil pessoas.

Do lado da organização, o jornalista Nuno Ramos de Almeida lembra que esta não foi uma manifestação típica e que não se usaram as estratégias conhecidas de espalhar pessoas para tornar a mancha da multidão maior. Admite que as estimativas dos organizadores podem ter uma margem de erro, mas afirma que foi das maiores manifestações que já viu e reforça os números que apresentaram. "A não ser que todo o histórico de manifestações esteja errado."