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Parlamento homenageia Manoel de Oliveira

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Antestreia de O Gebo e a Sombra é apresentada por Assunção Esteves também como uma homenagem ao cinema português.

A boa recuperação do estado de saúde após a hospitalização no mês de Julho deverá permitir que Manoel de Oliveira se desloque hoje a Lisboa para a homenagem que lhe vai ser prestada pela Assembleia da República (AR), a assinalar o início do ano parlamentar.

Na sessão, a começar às 18h no Salão Nobre do Palácio de S. Bento, será feita a antestreia nacional do seu novo filme, O Gebo e a Sombra, a adaptação muito pessoal que o realizador fez do livro homónimo de Raul Brandão. Às 20h, na praça em frente à AR, será também exibida a sua primeira longa-metragem, o clássico Aniki-Bobó (1942).

"É uma homenagem a Manoel de Oliveira, mas também ao cinema português", disse ontem ao PÚBLICO a presidente da AR, Assunção Esteves, lembrando que a iniciativa foi agendada em Abril. "Depois do problema de saúde que o afectou, é com grande alegria que sabemos que Manoel de Oliveira vai poder vir", acrescentou a jurista e deputada social-democrata. Assunção Esteves vê também a homenagem a Oliveira como "uma maneira celebratória" de abrir a nova sessão legislativa, "antes da crepitação política" e da previsível "dramatização" da vida parlamentar que aí vem.

Que O Gebo e a Sombra seja um filme sobre a pobreza, e a associação que a partir daí se poderá fazer com a crise que actualmente afecta o país, a presidente da AR não vê como facto relevante. "O centro da política deve ser sempre a dignidade, e isso não depende de nenhum contexto histórico específico; é indiferente que seja em tempo de abastança ou de pobreza", justifica Assunção Esteves, que, no entanto, lamenta que o quadro de crise não lhe permita promover mais iniciativas do género. A presidente nota, de resto, que a homenagem a Manoel de Oliveira não é uma iniciativa inédita em S. Bento, lembrando a exibição, em ocasiões anteriores, de um filme sobre o Holocausto e de um documentário sobre a libertação dos presos políticos após o 25 de Abril de 1974.

A estreia de O Gebo e a Sombra é assim apresentado como "um acto de cidadania" e de "abertura do Parlamento à comunidade" - a sessão tem entrada livre, até ao limite da lotação. Quem ficar de fora poderá assistir à exibição de Aniki-Bobó, numa sessão que, de certo modo, evoca aquela que em Maio se realizou no mesmo sítio e com a qual uma plataforma de realizadores e figuras do cinema - a que se associou Oliveira - protestou e alertou para o "risco de morte" que afectava o cinema português. Situação que parece eternizar-se, apesar de entretanto ter sido aprovada a nova Lei do Cinema.

Apesar do contexto de crise, a cerimónia desta tarde na AR "não terá discursos nem solenidades", diz Assunção Esteves, que irá limitar-se a "dar as boas-vindas" a Manoel de Oliveira. O realizador, no final, regressará ao Porto para continuar a sua convalescença.

O Gebo e a Sombra, que teve estreia mundial no início do mês, em dias sucessivos, no Festival de Veneza e na Cinemateca Francesa em Paris - onde a obra do realizador está a passar numa retrospectiva integral -, vai entrar no circuito comercial português a 11 de Outubro em salas de Lisboa, Porto e Coimbra.
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