Ainda existe “bonito” e “feio”?

Fica o exercício: qual é mais agradável, a Torre Eiffel ou a Casa da Música? E qual é mais convencional, o NorteShopping ou o Centro Pompidou?

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No primeiro ano de faculdade um professor disse-me que nunca devia usar o termo "bonito" para vencer um argumento porque nem todas as pessoas achavam bonitas as mesmas coisas e demonstrava uma total falta de racionalidade.

Cada pessoa é uma construção super-complexa de referências e informação. Ainda que subsistam modelos de educação/tradição/sociedade aparentemente semelhantes, aumenta diariamente o número de opções que levam cada "eu" a poder escolher caminhos diferentes no dia-a-dia, definindo-se para lá do standard. Nascemos quase iguais mas construímo-nos diferentes: somos a geração com mais formação da história, com maior acesso à informação e provavelmente a primeira que pode decidir não ser socialmente formatada (mesmo que nem todos decidam assim). O presente aproxima extremos e hoje cada um de nós é (ou pode ser) um analista político, crítico de arte ou blogger.

Ao fim de alguns anos percebo o que queria dizer o meu professor: no meio desta transformação social (e de semântica) não existe espaço para termos isolados como “bonito” e “feio”. Se considerássemos as suas definições, bonito seria o que é “agradável à vista, ao ouvido ou ao espírito” por oposição ao feio que “não obedece aos padrões de beleza convencionais”. Ambas as definições parecem amarradas a conceitos indefinidos de agradável (para quem?) e convencional (segundo que convenções?).

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Centro Pompidou

Fica o exercício: qual é mais agradável, a Torre Eiffel ou a Casa da Música? E qual é mais convencional, o NorteShopping ou o Centro Pompidou?

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Casa da Música

(Não deixa de ser irónico lembrar que a dado momento a população de Paris exigiu a demolição do seu maior monumento, a Torre Eiffel. Mais tarde opôs-se à construção do centro Pompidou no coração da zona histórica da cidade. Hoje, estas duas estruturas são referências incontornáveis.)

Cada objecto ou construção representa inovação, desconfiança, crítica, amor/ódio, curiosidade e reacção, e não é possível resumir uma crítica ao “bonito/feio” porque essas definições estão presas na banalidade do “eu acho que” irreflectido. Se a discussão fosse tão simples o mundo dividia-se em dois lados, os que gostam e os que não gostam, e não existia necessidade de raciocínio. Como afirma o arquitecto francês Jean Nouvel, “um objecto pode ser feio, muito feio ou pior ainda e mesmo assim ser uma parte fundamental de uma realidade, o que o torna bonito”. Num ponto oposto, mas em sintonia, Valerio Olgiati assegura que no espaço contemporâneo o interesse do utilizador é exponenciado pela intriga e consequente curiosidade, não pela aceitação ou compreensão facilitada do que já conhece.

Não existe um 'bonito' e um ‘feio’ como elementos isolados. Existe um observador, e a sua construção pessoal (de valores, ideais, sentidos) leva-o a perceber o mundo de maneiras muito distintas de quem o rodeia. Um objecto que para alguém é feio, para outro é bonito, mas nenhum destes rótulos significa o mesmo para ambos, podendo em limite achar a mesma coisa usando duas palavras diferentes.

PS: Na minha opinião a Torre Eiffel é extremamente “feia” e no entanto não posso deixar de a achar lindíssima.