Neste momento, Lino está a fazer um pós-doutoramento no IKS, da Universidade de Leuven, na Bélgica
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Neste momento, Lino está a fazer um pós-doutoramento no IKS, da Universidade de Leuven, na Bélgica

Investigador português vence "Best Student Presentation Award" nos Estados Unidos

Lino Pereira foi o vencedor do prémio atribuído na 56th Annual Conference on Magnetism and Magnetic Materials

Já em miúdo dizia querer ser cientista. "Sempre achei piada à ideia de um dia procurar a resposta a questões que ninguém havia, ainda, respondido". É assim que Lino Pereira, natural de Barcelos, explica o interesse pela ciência. "Porque física e não matemática, química ou biologia? Pela mesma razão que compro calçado tamanho 42 — é o que me "assenta melhor", explica o vencedor do "Best Student Presentation Award", atribuído na 56th Annual Conference on Magnetism and Magnetic Materials, em Scottsdale, nos EUA.


Para chegar às conclusões do estudo intitulado "Lattice location of transition metals in dilute magnetic semiconductors", foram necessários "quase cinco anos de trabalho experimental". "Começou em 2006, no último ano de licenciatura em Física na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), quando me juntei ao grupo do professor João Pedro de Araújo, hoje presidente do Instituto de Física dos Materiais da Universidade do Porto", afirma.

No início, Lino procurava um trabalho no qual pudesse desenvolver uma investigação para o "projecto" de licenciatura. "Queres passar umas semanas a trabalhar no CERN?", foi a pergunta que o professor Pedro Araújo lhe fez. Lino Pereira recorda que a possibilidade de trabalhar com o CERN para um estudante de licenciatura em Física é como perguntar "a um miúdo se quer visitar a fábrica de brinquedos do Pai Natal".

Assim foi, o cientista começou o trabalho ainda como estudante de licenciatura, no seio da colaboração entre três grupos de trabalho divididos entre o Porto, Lisboa e a Bélgica. "Completei a licenciatura em 2007 e comecei o doutoramento no seio da mesma colaboração, onde, entre outros projectos, continuei este trabalho", explica.

Um doutoramento em várias instituições

Lino repartiu o seu doutoramento entre várias instituições — o Instituto Tecnológico e Nuclear (ITN, recentemente integrado como unidade ID no Instituto Superior Técnico (IST/ITN), o Instituto de Física dos Materiais da Universidade do Porto (IFIMUP-IN), o Instituto voor Kern-en Stralingsfysica, Leuven (IKS), Bélgica, e a infra-estrutura ISOLDE no European Organization for Nuclear Research (CERN) na Suíça. Foi durante o doutoramento, entre 2008 e 2011, que o cientista desenvolveu o estudo que lhe valeu o prémio "Best Student Presentation".

O acesso a infra-estruturas de ponta, como o CERN na Suíça, foi também extremamente importante no desenvolvimento do projecto. Mas boa ciência começa com uma boa ideia. "E ideias são coisas de gente, não de máquinas", afirma Lino. "Se tivesse de eleger uma só competência que toda esta gente me ensinou seria: manter a perspectiva do todo para estar sempre pronto a re-alinhar os meus projectos com o que se passa fora do meu laboratório", admite.

O estudo "Lattice location of transition metals in dilute magnetic semiconductors" tem uma a primeira palavra-chave: semicondutores. "A sociedade moderna desenvolveu-se em torno da electrónica: computadores, telemóveis, equipamento médico moderno, etc. Todos estes dispositivos se baseiam essencialmente na física dos semicondutores", salienta o cientista.

Lino Pereira explica que a tecnologia se tem desenvolvido tão rapidamente que estão a ser atingidos os limites fundamentais dos semicondutores usados até agora. "É aí que surge a segunda palavra chave: magnetismo". O cientista afirma que os semicondutores magnéticos podem ser a resposta para os desafios com que a electrónica actual se depara. "No futuro, a electrónica poderá ser substituída por uma nova tecnologia, a "spintrónica", que explora simultaneamente as propriedades semicondutoras e magnéticas destes novos materiais", explica.

As primeiras descobertas que deram origem ao conceito de "spintrónica", foram galardoadas em 2007 com o Prémio Nobel da Física. "Há ainda muitos desafios científicos por ultrapassar, há muita física nova para descobrir. É aí que surge o nosso trabalho: na compreensão, a um nível muito fundamental, de como estes semicondutores se comportam. Em particular, põe em causa factos que se consideravam já estabelecidos, abrindo novos caminhos de investigação no tema", diz.

"Best Student Presentation Award"

A "Annual Conference on Magnetism and Magnetic Materials" é organizada pelo American Institute of Physics (AIP) e pelo IEEE Magnetics Society, sendo um dos encontros internacionais com maior destaque nas temáticas do magnetismo e dos materiais magnéticos. De entre mais de um milhar de participantes, Lino Pereira trouxe para casa o prémio que concede uma bolsa, num incentivo ao estudo do magnetismo em doutoramento.

Neste momento, Lino está a fazer um pós-doutoramento no IKS, da Universidade de Leuven, na Bélgica, com vários projectos em paralelo, alguns deles relacionados com o trabalho de doutoramento, o CERN, e a colaboração entre a UP, o ITN e o IKS. "Contra o típico complexo de inferioridade português, o papel do IKS nesta colaboração é de plena igualdade com as instituições portuguesas", garante.

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