Torne-se perito

Um homem com os Lusíadas na cabeça

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Paulo Pimenta

É uma maratona. É um tédio. É trazer Camões para o Portugal do século XXI. O actor António Fonseca que já era maluquinho que chegasse para se pôr a insistir no teatro num país com as contas a negativo propôs-se decorar os Lusíadas e a recriá-los em palco durante dez horas

Que espécie de louco se propõe decorar os Lusíadas? E que, ainda por cima, teima que ainda há quem, neste país naufragado, esteja disposto a ouvi-lo matraquear Camões durante dez horas? É isso que há-de acontecer este sábado em Guimarães - numa maratona que dá o tiro de partida nas comemorações do Dia de Portugal e que, além do mais, inclui um coro de 100 vozes desconhecidas que se põem também elas a dizer Camões, no último Canto - mas por enquanto é ver António Fonseca à mesa deste café a esquivar-se à pergunta que já ia artilhada, porque o que lhe interessa dizer é que, descontados alguns anacronismos, é o Portugal de hoje que Camões canta.

É reparar na estrofe 145 do Canto X, o tal que há-de ser multiplicado por 100 vozes: "Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho

Destemperada e a voz enrouquecida/Não do canto, mas de ver que venho/Cantar a gente surda e endurecida/O favor com quem mais se acenda o engenho/Não no dá a pátria, não, que está metida/no gosto da cobiça e na rudeza/Duma austera, apagada e vil tristeza/." Para descortinar aqui o Portugal do desemprego galopante, da brutalidade do empobrecimento, da emigração à força, da entrega aos bancos das casas que muitos foram convencidos a comprar, não é preciso andar durante quatro anos a perscrutar a actualidade da epopeia. Mas foi isso que António Fonseca fez. Para concluir coisas como esta: "O que ali se descobre é uma grande história da vida, do viver. São 300 gajos que se metem numas cascas de noz e, se descontarmos o Vasco da Gama, o Paulo da Gama e mais três ou quatro, fazem-no porquê? Para melhorar a vida. Portanto, eram quase 300 gajos que se metiam numas naus das quais não podiam sair durante dois anos e que o fizeram porque acreditavam que, quando chegassem, teriam ganho uns dinheiritos com que governar a vida".

Agora, tentemos colar isto ao Portugal de 1960. "As pessoas pensavam que para os lados de França havia umas coisas que lhes permitiam governar a vida a arriscavam-se".

E ao Portugal de 2012. "Há muitos que pensam que em Inglaterra podem ganhar a vida e têm um primeiro-ministro que lhes diz: ‘Vão, vão, porque aqui não estão a fazer nada'. É exactamente a mesma coisa, é a história de pessoas que arriscam a vida para melhorarem a vida. Na altura, no Minho, nas Beiras, os nobres ficavam com tudo e os pobres morriam à fome, portanto estes homens foram tentear a vida".

A grande mentira

Estes são os Lusíadas que António Fonseca quer contar. A bomba de gasolina a poucos metros da esplanada em que nos encontramos, nas Caldas da Saúde, em Santo Tirso; os velhotes a mastigarem a tarde nos costumeiros bancos de jardim, indiferentes ao ronco da motorizada que acaba de passa. A vida no seu quotidiano de província, versão século XXI, em suma, e este homem de calções e chinelos a revisitar o Canto I para negar que Camões se tenha proposto cantar os feitos gloriosos do Império. "Isso das memórias gloriosas dos reis que dilataram a fé e o Império é uma nota de rodapé, aquilo das terras de África e da Ásia é outra nota de rodapé, porque o que ali se canta são os que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando, os varões, sim, mas os varões no sentido de homens de barba rija".

Lusíadas sim, mas expurgados de ideologias de poder. "Essa é uma maneira de ler os Lusíadas que a mim não me interessa nada". Lusíadas sim, mas esvaziados da erudição com que costumam ser carregados nas faculdades. "Não quero saber da arquitectura, dos truques, das técnicas... A mim interessa-me esta história de coragem, porque para viver, é preciso ter coragem. E depois, claro, o lado épico, no sentido em que é tudo mentira, é tudo grandioso como nunca foi. Interessa-me essa grande mentira que nos puxa para cima e que só funciona porque é mentira, se fosse realidade ninguém se interessava. Aliás, as coisas mais bonitas são mentira. A grande poesia e a grande ficção são mentiras".

Em flash forward até ao Canto III para que nos entendamos. Eis Camões cantando a Batalha de Ourique com um D. Afonso Henriques, entre mortos e meios mortos de entranhas à vista, inventando as quinas em seu escudo. "‘Três dias o grão Rei no campo fica/Aqui pinta no branco escudo ufano/que agora esta vitória certifica/cinco escudos azuis esclarecidos/em sinal destes cinco reis vencidos'", recita António Fonseca. E agora a ironia: "Antes, Camões tinha falado de cabeças no campo saltando, entranhas palpitando, uns mortos sem braços e outros sem pernas e D. Afonso ia olhar para aquilo, milhares e milhares de mortos, ‘Dona Urraca, traz-me aí as aguarelas que eu vou pintar uma bandeira'. Mentira! Ele andou foi a sacar os anéis, a matar os gajos que ainda não estavam mortos, a sacar o ouro, a sacar as lanças para fazer as espadas, a fazer o saque. Portanto, no espectáculo vou dizer o texto e vou dizer que é uma grande história, fantástica - aliás, gosto imenso desta justificação das quinas porque é muito bonita -, mas fantástica sobretudo porque é mentira".

Dizer com o coração

À pergunta sobre que género de louco é que se propõe memorizar os Lusíadas, Fonseca continua a fugir. Mas lá vai sugerindo que não faltou quem se sentisse tentado a diagnosticá-lo como tal durante o processo, o que equivale a dizer durante os quatro anos e meio em que se demorou a decorar cada verso de cada estrofe de cada canto. "Foram férias, fins-de-semana, intervalos de gravações de novelas e de ensaios de peças de teatro. A minha mulher zangou-se várias vezes comigo". Era acordar com as ninfas do Tejo e adormecer com o trovejar do velho do Restelo, dias, semanas, meses, anos a fio. "À noite deitava-me e, quando estava naquela fase de decorar e de tentar dizer as estrofes, não conseguia dormir. Era muito cansativo". Se houver quem queira copiar-lhe a façanha o mais simples será ir coscuvilhar-lhe o diário em (http:

/lusiadasdecoracao.blogspot.pt). Ora aqui está um excerto de há quatro anos e que mostra que não é fácil querer meter o Camões na cabeça:

"Quando fico muito tempo à noite a trabalhar, durmo mal e sonho com isto. Se até ao Natal tiver os dois primeiros cantos mais ou menos arrumados continuo, se não... duvido. Acredito que isso seja possível. Resolvi consultar um neurologista para trocar impressões sobre a memória e as consequências cerebrais do esforço. Um nutricionista também. Não quero encharcar-me em químicos, nem pensar. Vou fazer pouco esforço para decorar e ler, ler, ler, a ver o correr do pensamento e da estória. Sinto que, em foco, preciso de 4,5 horas por dia para isto. Por enquanto, nem pensar. Depois de estrear talvez".

E, muitos meses depois:

"No dia 31 fui fazer um exterior da novela a Cascais e senti-me mal. Acabei, voltei para casa e não me sentia bem. Por volta da meia-noite peguei no 4 e fui para a Urgência do S. Francisco Xavier. Fui atendido por volta das 4h00 da manhã e aproveitei para começar com o 4. Tinha a tensão a 16

12, estava com um ataque de ansiedade. Uma injecção, uma caixa de Unisedil que me tem acompanhado até hoje. Sempre que estou mais tenso, vai um Unisedil. A embalagem que comprei nessa altura está agora no fim. Restam dois. Durou quase dois anos. Tenho de comprar mais. O dr Atouguia diz-me que não tem problema nenhum".

E ainda:

"Às vezes sinto que o couro cabeludo é de cortiça e não respira. Começo a ficar preocupado e em Maio marco uma consulta com o professor Lobo Antunes. Inicialmente pensa que estou maluco, quando lhe digo que estou a fazer isto ele pergunta-me se estou a ter consultas no psiquiatra ou no psicólogo.... Se ando a tomar alguma coisa..., se tenho antecedentes familiares.... Foi mesmo só o primeiro impacto. Rapidamente começámos a falar normal. Não fiquei nada elucidado sobre as dúvidas ou os esclarecimentos que queria. Se calhar, não há".

No blogue, António Fonseca conta que a ideia de meter os Lusíadas todos na cabeça lhe surgiu em Braga, no fim de Abril de 2008, depois de ter ido dizer a Sexagésima do padre António Vieira a uma plateia de padres. "Parece-me grandiosa e perfeitamente possível", anuncia então, sobre um projecto ainda em fermentação. Veio-lhe à cabeça o 10 de Junho, a possibilidade de dizer o poema épico no metro. Um mês depois há-de dar por si a dizer em voz alta que preferia decorar os Lusíadas a dar aulas nas condições que lhe estavam a propor. Durante a entrevista ao Ipsilon, explica que a frase lhe saiu assim como quem dissesse que preferia partir uma perna. "Nosso senhor castigou-me. Passados quatro meses, estava a decorar a primeira estrofe". Mas este é o lado anedótico da história. Porque esta epopeia em que se meteu esconde motivações mais fundas que recuam, por exemplo, ao teatro que os alunos lhe pediam para fazer no verão quente de 1975 e que passam por aquilo que António Damásio diz sobre as viagens retrospectivas e prospectivas que cada um de nós faz sempre que pára a ler um livro ou a ver um filme. "É isso que torna a ficção fundamental na vida das pessoas", explica Fonseca, para defender que os actores deveriam andar pelas escolas a ajudar os professores a democratizar a literatura. "Nas escolas a literatura é aproveitada para o estudo técnico da língua e não devia ser assim. Devia ser ler um pedaço de As Viagens Na Minha Terra, do Garret, e deixar os alunos ‘Uau, eu quero ler'. Na Alemanha é comum os actores irem às escolas e lerem pedaços da literatura alemã. Eu fiz o padre António Vieira nessa base e funcionou. Porque uma coisa é ler e outra é falar, fazer a falação do texto. A falação é uma coisa imediata, aliás, a gente aprende a falar sem reparar. Ler e escrever já exigem mais esforço, não é inato. Portanto, passar um texto da escrita para a oralidade é democratizá-lo e é esta passagem que falta nas escolas e aqui eu penso que os actores têm uma função política e social a cumprir".

Porque é de dar a perceber que trata este espectáculo, Fonseca não se vai preocupar com o Guiness. "Não vou bater nenhum recorde, não vou fazer nenhum show circense de memória". Dizer, ou, como ele prefere, "fazer a falação" do texto, sim. Mais precisamente: "Vou estar a dizer, vou estar a inventar, vou estar a contar-me, dizer com o coração e não com a cabeça. Decorar é isso, dizer com o coração. E, para mim, é muito mais importante aquilo sair-me do corpo sem eu estar preocupado se à frente vou falhar". Sempre com a preocupação de trazer a plateia para dentro da epopeia. "Faço os Lusíadas e não o Doutor Fausto porque oitenta por cento da população portuguesa tem uma memória de os Lusíadas. O texto está no inconsciente colectivo, eu se calhar tenho cromossomas de alguns dos gajos que foram nas naus. Mesmo aqui, em Santo Tirso, falo no D. Afonso Henriques aos mais analfabetos e respondem-me ‘Ah, o bate na mãe". É a esta coisa do ser-se português que o actor quer apelar. Sem ideologias oficiais. "Para a minha bisavó, as Revoluções Francesas eram uns gajos que passavam pelos montes e roubavam uns presuntos e violavam as mulheres. É a essa memória, à que bate nos cromossomas, que quero apelar, não à história que alguns filhos da puta que passam pelo poder nos contam para nos lixar".

E aqui estamos, de volta ao Portugal contemporâneo. Repare-se na estrofe 99 do Canto VIII a dar-lhe razão. "Este interpreta mais que subtilmente

Os textos; este faz e desfaz leis/Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis/Até os que só a Deus Omnipotente/Se dedicam, mil vezes ouvireis/Que corrompe este encantador, e ilude/Mas não sem cor, contudo, de virtude". E compare-se agora Fonseca em discurso directo e em português contemporâneo, embora sem acordo ortográfico: "Depois dos Lusíadas, sinto-me mais pessoa a mais a partilhar uma memória colectiva. E consciente de que a generosidade da parte dominante, dos que têm o poder, não existe. Essa coisa de nos virem dizer que estamos a viver acima das nossas possibilidades. Mas que possibilidades? Mas quem é que disse aqui há uns vinte anos que agora íamos ser todos ricos, que era preciso acabar com a pesca, acabar com a agricultura, que íamos ser todos capitalistas populares, que podíamos comprar acções da EDP!?".

Não se conclua daqui que teimamos em não aprender com os erro. "Não, o que isto nos diz é que somos assim como pessoas, é da nossa condição. E por isso é que Lusíadas é um grande texto, é a nossa Moby Dick, é nossa Ilíada. A sua essência é válida hoje e daqui a mil anos", assevera António Fonseca, para deixar aos que forem vê-lo a Guimarães (ou a qualquer outro sítio para onde o convidem) uma advertência, tão séria quanto aquela que manda desligar os telemóveis antes de o espectáculo começar: "No palco eu sou inimputável. Enquanto estiver a dizê-lo, o texto é meu, estarei a inventá-lo em cada momento". Não se aceitarão reclamações, portanto. Se teimarem, preparem-se para ser despachados: "Sempre que tive dúvidas telefonei ao Camões e ele disse-me para continuar que estava muito bem". Estes são os Lusíadas dele.

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