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Megafone

Somos todos gregos

Este é o tempo de olhar em frente e abrir caminho. A falsa generosidade dos governantes alemães ao proporem a criação de um “geuro” para a Grécia só pode ser uma piada de fraco gosto. Hoje são os gregos, amanhã seremos nós

No século III antes de Cristo, um general romano referia-se a um certo povo acantonado na Península Ibérica (os Lusitanos) como alguém que não se governa, nem deixa governar. Nos últimos anos, o meridiano desta afirmação sofreu um ligeiro alargamento ao centro do Mediterrâneo, abrangendo um país que, ironicamente, até é conhecido como sendo o “berço” da Democracia.

A Grécia de hoje vive actualmente uma “Pax Germanica”, não feita pela força da espada, mas pela imposição do euro e das vontades de Berlim, que se comporta e é aceite agora o centro do “império” europeu.

Já se sabe que a Senhora Angela Merkel gosta mais de manter o laço apertado (demais?) aos países do Sul da Europa, no que toca a gastos, do que de incentivar uma política de investimento e de criação de empregos — ao contrário, curiosamente, do que parece ser o caso do “vizinho” François Hollande. Só que, no caso da Grécia, parece mais do que evidente de que não é pelo lado da austeridade (ainda mais?) que a economia recupera. É certo que o curioso sistema político helénico não ajuda, pois nem sempre o partido que ganha as eleições consegue formar Governo e… dentro de pouco menos de um mês os gregos vão (de novo) a votos.

Com ou sem novo Governo, mais à esquerda ou mais à direita, a Grécia não pode deixar de ser um espelho no qual todos nós (portugueses e europeus) nos devemos ver reflectidos. Portugal, a Espanha e a Itália (a sétima economia mundial…) que o digam. E, já agora, a França (a quinta, por sinal), cujo recuo na actividade económica privada recuou para níveis de 2009.

Não é admissível que, num país europeu — em bom rigor, em país nenhum, de nenhum continente —, por causa da teimosia espartana de uns quantos “iluminados”, haja mães que se vêem forçadas a entregar os seus filhos aos cuidados de outrém, por não os poderem manter em condições dignas; que haja homens, mulheres e crianças a recolher comida do lixo para poderem sobreviver; ou que haja quem ponha termo à vida por não vislumbrar uma réstia de futuro na linha do horizonte.

Repare-se que a economia da Alemanha continua a crescer, em contraponto com a de grande parte dos seus parceiros europeus. Longe vão os tempos da solidariedade europeia sonhada por Robert Schuman e concretizada por Helmut Kohl, François Mitterand e outros grandes líderes europeus.

Os gregos não estão isentos de culpas, naturalmente: (ainda) ninguém elegeu directamente os responsáveis políticos do país em vez deles. Mas se há quem deva sentar-se no banco dos réus para ser julgado e, se for caso disso, condenado por dano público, pois que assim seja. A Islândia pode explicar como se faz.

Porém, é nos momentos de aflição que os amigos se revelam. É nos momentos de desespero que são mais necessárias as mãos amigas. Serão lugares-comuns, mas a realidade mostra serem verdadeiros. Este é o tempo de olhar em frente e abrir caminho. A falsa generosidade dos governantes alemães ao proporem a criação de um “geuro” para a Grécia só pode ser uma piada de fraco gosto. Hoje são os gregos, amanhã seremos nós. Se é que os gregos não fazem parte do “nós”.