Crise na zona euro

Corrida aos depósitos na Grécia alarma outras capitais europeias

Falta de confiança leva gregos a levantar depósitos
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Falta de confiança leva gregos a levantar depósitos Foto: Yannis Behrakis/Reuters

Os depositantes gregos levantaram 1200 milhões de euros das contas bancárias, em apenas dois dias, de acordo com estimativas banqueiros em Atenas. Os valores são citados pelo jornal inglês Financial Times, que não identifica as suas fontes e que refere que responsáveis da banca na Grécia e na zona euro rejeitam a ideia de que se tenha instalado uma corrida aos depósitos.

Com ou sem pânico, a realidade demonstra porém que os gregos não parecem muito confiantes no sector bancário, que poderá mostrar-se o elo mais fraco, diz o mesmo jornal londrino, no esforço que a Grécia está a fazer para ultrapassar uma crise política e sanar as suas contas públicas de modo a evitar uma eventual bancarrota ou o abandono da moeda única europeia.

Nas sondagens, os gregos continuam a dizer que não gostariam de voltar a ter o dracma como divisa, mas, nos terminais de multibanco e nas agências bancárias, estão cada vez mais a mostrar que não acreditam que o país seja capaz de se manter na zona euro.

A revista alemã "Der Spiegel" – cuja última capa dizia "Adeus Acrópole" e, em letras mais pequenas, anunciava ter as razões por que a Grécia deve deixar o euro – relatava na edição online, na quarta-feira, que o valor dos levantamentos rondaria os 900 milhões de euros desde o início desta semana – que fica marcada pela convocação de novas eleições para 17 de Junho, depois de terem falhado as tentativas de formação de um Governo.

De acordo com as minutas da recente conversa entre o Presidente grego, Karolos Papoulias, e o governador do Banco da Grécia, George Provopoulos, registou-se no espaço de 24 horas, na passada segunda-feira, uma queda abrupta de 800 milhões de euros nos depósitos dos bancos gregos. O Presidente avisou depois os partidos que se estava perante "um grande medo que se poderia transformar num pânico".

No país – que nomeou na quarta-feira um juiz, Panagiotis Pikramenos, para primeiro-ministro interino – a corrida aos depósitos continuou, apesar dos alertas presidenciais. Os números relativos aos levantamentos variam conforme as fontes. No jornal Guardian, dados noticiados na quarta-feira à noite diziam que os gregos tiraram 3000 milhões de euros desde 6 de Maio, dia em que se realizaram as eleições legislativas cujo resultado acabou por não permitir a formação de uma maioria estável.

O mesmo jornal inglês noticia nesta quinta-feira que, na sequência da sangria de depósitos em Atenas, o Governo britânico está a preparar-se para o cenário mais gravoso – a saída da Grécia do euro –, que custaria qualquer coisa como um bilião (um milhão de milhões) de dólares (785 mil milhões de euros).

O primeiro-ministro David Cameron irá abordar a gravidade da situação num discurso que vai fazer nesta quinta-feira, em Manchester, antes da partida para os Estados Unidos. Um discurso que será repleto de alertas e de preocupação, um dia depois de o governador do Banco da Inglaterra, Mervyn King, ter declarado que a Europa "está a desintegrar-se".

Na Grécia, é verdade que, para já, ainda não se vêem grandes filas junto às entradas dos bancos e dos terminais do multibanco. E que a fuga de capitais dos bancos não é sequer uma novidade no país, já que, entre Janeiro de 2010 e Março de 2012, saíram dos bancos gregos cerca de um terço dos depósitos realizados, que ascendem actualmente a aproximadamente 160 mil milhões de euros.

No entanto, existe o receio de que, com os gregos a verem a saída do euro como um cenário cada vez mais próximo, se desencadeie uma corrida aos depósitos em larga escala, o que poderia conduzir à ruptura financeira do país. Até ao momento, o financiamento dos bancos gregos está a ser assegurado pelo banco Central Europeu (BCE), que até já está a aceitar emprestar dinheiro às instituições gregas recebendo como garantia colaterais com ratings muito negativos. No entanto, uma queda muito forte dos depósitos forçaria a banca grega a pedir ainda mais crédito ao BCE. E este teria de decidir até onde está disponível a ir para salvar a banca grega da falência. Mario Draghi, o presidente do Banco Central, reiterou ontem o seu apoio à manutenção da Grécia no euro, mas durante a tarde a Reuters, citando fontes não identificadas, noticiou que o BCE deixou de providenciar liquidez a alguns bancos gregos, devido aos atrasos registados na operação de recapatalização definida com o último pacote de ajuda financeira.

Num cenário deste tipo, com o Governo a poder ver-se forçado a limitar o acesso da população às suas contas bancárias, uma saída da Grécia poderia precipitar-se, havendo o receio noutras capitais europeias de que pudesse ocorrer um contágio a outros países fragilizados do euro. Como afirmava ontem em artigo de opinião o editor de Economia da BBC, "o futuro da Grécia no euro pode não estar nas mãos do eleitorado como votantes, mas sim nas mão do eleitorado como clientes bancários".

Notícia rectificada dia 18 de Maio às 19h02

. Altera "um trilião" para "um bilião".

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