Bob Dylan. Ninguém é um só

Daniel Kramer
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Daniel Kramer

A Cité de la Musique apresenta Bob Dylan: a explosão rock 61-66, exposição sobre as primeiras fases de uma vida recheada de ficção. Eis Dylan também aqui: influência mais decisiva na canção portuguesa dos últimos anos

A divisão de A explosão rock 61-66, na Cité de la Musique, Paris, em fases específicas, aliadas a material biográfico, permite clarificar o peso de Bob Dylan como músico, na história dos EUA, e o de Dylan, actor, para quem o ouve. Começando por imagens das suas origens no Minnesota, vemos Robert Zimmerman (nome verdadeiro: n. 1941) com a sua família, em "pose Elvis", com uma banda, em 1958, e no seu álbum de finalistas, onde se lê a ambição: "juntar-me a Little Richard". A seu lado, guitarras e discos de estrelas do rock'n roll: Hank Williams, Buddy Holly ou Bo Diddley. O jovem seguirá esse sonho: muda o seu nome e "foge" para Nova Iorque em 1961, dando falsas pistas sobre a sua vida aos que o recebem. Tiago Guillul (Fados para o Apocalipse contra a Babilónia), de uma geração de músicos portugueses que integra Dylan como influência decisiva nas suas canções [ver texto nestas páginas], diz ao Ípsilon que Dylan foi "talvez o primeiro a mudar as circunstâncias da sua vida, e despreza as pessoas ansiosas em decifrá-la." Samuel Úria (Nem Lhe Tocava) diz-nos que "muita dessa ficção foi sugerida pelo próprio, forjou o seu trajecto e personalidade." E como os mitos populares do seu país, Úria compara-o "aos vendedores ambulantes de elixires milagrosos do velho Oeste."

O poder da palavra

É o fascínio de Dylan pelos portadores de mitos do seu país que o aproxima da folk no final dos anos 50. O seu grande ídolo é Woody Guthrie (de quem vemos cartas, desenhos ou discos), que deambula pelo país para cantar as suas histórias às camadas populares. Dylan inventa, então, a sua primeira personagem nos bares de Greenwich Village e, mais tarde, no seu primeiro disco em 1962. O músico Cão da Morte (Ainda Sem Nome) nota aí tudo o que marcou a sua carreira: "A interpretação dele já existia toda, e sabendo que o disco não tem muitas músicas suas, é fantástico. Canta grandes letras mas nunca deixa de lhes dar uma interpretação incrível." E as fotografias de John Cohen mostram um actor vagabundo e chaplinesco desconfortável nas roupas. "Quando fazem dele um novo Guthrie, Dylan mostra um desconforto que levará sempre consigo", diz Guillul. "Tem o mérito de nunca se ter sentido bem em lado nenhum independentemente das honrarias que recebe."

O folk encontra o seu auge na luta pelos direitos civis e Dylan usa a força do protesto para criar grandes narrativas, comprovadas, aqui, nas letras de Masters of War ou The Lonesome Death of Hattie Carroll. Jorge Cruz (Roque Popular) vê-o como "uma alma-gémea de Zeca Afonso, conta tudo através de uma história ou personagem. Foi um espírito livre da canção, podemos retirar dali o que quisermos em vez de ter o pensamento dirigido." Uma foto do festival de Newport de 1963 mostra Dylan com Joan Baez e Pete Seeger a cantar We Shall Overcome, mas é como se o seu olhar já se encontrasse noutro sítio. "As pessoas diziam que ele representava uma geração, mas trata-se dos efeitos secundários da viagem que fez", explica Cruz. Para Úria, "Dylan agradava aos intelectuais puristas de Greenwich Village e ao monasticismo hippie, mas isso escondia uma maior sede de estrelato."

Uma entrevista de Murray Lerner, que filmou as presenças de Dylan no festival folk, define Mr. Tambourine Man como uma passagem para o imaginário surrealista. Jorge Cruz complementa: "Dylan tinha uma bagagem maior que o habitual: a América rural dos jornais, onde procurava histórias; os westerns [Dylan entrou em Pat Garrett & Billy the Kid (1973) de Sam Peckinpah]; a música negra do blues que dá no rock'n roll e no conceito de espectáculo; ou a poesia francesa e a poesia americana beatnik influenciada pelo bebop."

A explosão eléctrica

Mas a ruptura vem com a actuação de Dylan com guitarras eléctricas, em Newport, em 1965, concerto projectado na exposição. Nasce o escândalo de um artista que dá ao público o contrário do que deseja, mas também o encontro das formas da música popular através do folk-rock, popularizado na interpretação das músicas de Dylan pelos Byrds. "É a fascinação com o folk que legitima o rock", explica Guillul. "Quando não há ainda um discurso de validação, o rock começa a nascer com pessoas como Dylan." Like a Rolling Stone é o cume da sua criatividade, explosiva canção de 6 minutos (duração invulgar para a época) aqui presente no single original.

Mas no pico da sua carreira, Dylan iria contrariar as vogas do seu tempo (o psicadelismo) e refugiar-se no country. Manuel Fúria (ex-Os Golpes) defende que "apesar de não ter seguido a linha da sociedade civil, Dylan foi sempre fiel à sua incoerência, e é fundamental um artista não estar demasiado agarrado a si próprio. Interessava-lhe a música, que tem uma ordem diferente da do mundo."

As fotos de Daniel Kramer formam o único corredor de um percurso labiríntico: imagens de tournées, das gravações de Bringing It All Back Home ou de retratos de um olhar sempre escondido. Para Fúria, "um dos principais atributos do seu magnetismo é o seu silêncio, só descodificamos a personagem através da obra." Do mesmo modo, as imagens são testemunhos de um método de composição ímpar. Jorge Cruz explica que "tudo é feito nos primeiros takes com bandas que não conhecem as músicas, vem tudo da vivacidade do momento. Essa energia ficou na música mais recente, até no punk."

Depois de imagens das passagens de Dylan por França, a exposição encerra com a projecção de Don't Look Back (1965) de D.A. Pennebaker, retrato de bastidores dos concertos do músico, em Inglaterra, em 1965. Aí, vemos que Dylan já se encontra fora do palco que ele construiu. "Vendeu a alma ao diabo, como os grandes bluesmen", diz Cruz. "Para o nível a que quis estar sujeito, decide fazer um grande teatro e abdica da sua vida. A fase actual já é o reconhecimento disso, como se não tivesse direito ao arrependimento e se deixasse nas mãos de Deus, tal como um bandido."