Crítica

Paraíso, perdido

A estreia de Valérie Massadian é uma peculiar “ficção do real” em tom de conto iniciático com ressonâncias ancestrais

"Nana" tem tudo para ser uma daquelas “estrelas cadentes” que o cinema de autor de vez em quando atira: objectos fulgurantes, de vocação orgulhosamente solitária e resolutamente singular, que aparecem de lado nenhum e não auguram necessariamente uma carreira longa ao seu autor (assim de repente, lembrámo-nos de Sandrine Veysset ou, mais para trás, de cineastas dos anos 1970 como Milton Moses Ginsberg ou Barbara Loden).


Paradoxalmente, ao inscrever-se na actual corrente de “ficções do real” - cinema que cruza os dispositivos do documentário e da ficção com assinalável liberdade de fronteiras, usando a paciência das técnicas documentais para enquadrar um núcleo central ficcional - Nana acaba também por revelar a presciência desses OVNIs ainda hoje quase secretos e a dívida do cinema feito “fora do sistema” para com essa liberdade de espírito e concepção.

Abrindo com uma impressionantemente desconfortável cena de matança de porco, que cumpre o duplo intuito de ressoar com uma vivência de tradições seculares e intemporais e desenhar o espaço e o cenário onde tudo se passará, Valérie Massadian afasta-se lentamente da observação documental do quotidiano rural para acompanhar uma ficção em construção à frente do próprio espectador, através da história de Nana, uma menina de quatro anos deixada à solta na província francesa por uma mãe que desaparece sem dizer nada. E o que Massadian observa é o modo como a menina (Kelyna Lecomte, com uma segurança impressionante) se instala de corpo inteiro e com absoluta naturalidade no espaço que a rodeia, se apropria dele para construir o seu próprio mundo em resposta àquilo que viu os adultos fazer. Nesse processo, Nana consegue a espaços capturar a magia despreocupada ou a emoção arregalada da infância, ao mesmo tempo que explora a angústia indefinível de um paraíso à beira de ser perdido sem que disso nos apercebamos, o ponto em que as regras do mundo “adulto” começam a contaminar a pureza original.

Lemos ou ouvimos algures que Nana seria uma espécie de “Walt Disney politicamente incorrecto”, tal é a dimensão ancestral e a sugestão de “conto iniciático” que introduz, ao restituir a violência surda de uma ingenuidade de olhos abertos para o mundo que a progressiva urbanização da civilização veio neutralizar. Não se tratará, é certo, de algo de particularmente novo ou de original (e a curta duração do filme sugere a perfeita noção de que Nana não tem mais para onde ir), mas quando Valérie Massadian o filma deste modo luminoso, de uma maravilha ao mesmo tempo assustadora e confortadora, ganha razão de ser. Nana é, realmente, um objecto singular.