Espanha

As críticas cercam o rei Juan Carlos

A rainha Sofia visitou hoje o rei Juan Carlos no hospital
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A rainha Sofia visitou hoje o rei Juan Carlos no hospital Andrea Comas/Reuters

O rei de Espanha “está muy bien”, disse hoje a rainha Sofia, que visitou Juan Carlos no hospital onde foi operado à bacia, após uma queda durante uma caçada a elefantes no Botswana. Mas ainda mal recuperado de uma fractura na bacia, o rei não se livra de duras críticas.

Alguma esquerda voltou a falar de abdicação a favor do príncipe Filipe e na Internet há campanhas para que Juan Carlos deixe de ser presidente honorário do Fundo para a Protecção da Natureza (WWF). A crise económica em Espanha fez as críticas subir de tom.

A rainha Sofia chegou ao início da tarde ao Hospital San José de Madrid onde o rei está internado, para uma visita que durou pouco mais do que meia hora. À saída disse aos jornalistas que a evolução de Juan Carlos, de 74 anos, está a ser “fenomenal” e que, em breve, o rei estará em casa. Mas se do ponto de vista clínico não há sobressaltos, a caçada no Botswana causou uma verdadeira tempestade de críticas.

Há “um apoio ou silêncio em público mas uma inquietação crescente em privado”, escreveu nesta segunda-feira o El País. O Governo de Mariano Rajoy, o Partido Popular ou mesmo o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) fizeram comentários discretos. Mas Tomás Gomez, responsável dos socialistas madrilenos do PSOE, chegou mesmo a falar de abdicação. “O que parece bastante provável é que o príncipe [Filipe], que conserva a sua boa imagem, ocupe cada vez mais espaço”, adiantou o diário espanhol.

Publicamente sucederam-se os comunicados lacónicos. “O PSOE nunca comenta a agenda privada do chefe de Estado, nem quando gosta nem quando não gosta”, adiantou a responsável do partido Elena Valenciano. “Remeto para o comunicado da Casa Real”, disse Dolores de Cospedal, secretária-geral do Partido Popular.

Mas nos corredores a inquietação tornou-se evidente. “Preocupa ao PP e ao Governo que o rei possa perder o apoio não da esquerda republicana, que nunca teve, mas de boa parte da direita e incluindo da direita monárquica”, adiantou o El País.

“Não estaria mal que o rei pedisse desculpa”, disse Patxi López, o socialista presidente do Governo basco. Outras vozes socialistas fizeram reparos, numa escalada que o secretário-geral do PSOE tentou travar. “Se alguma coisa tenho a dizer ao rei, di-lo-ei em privado e sei que ele vai ouvir”, afirmou Alfredo Pérez Rubalcaba.

A alimentar a polémica está também a demora da Casa Real espanhola em anunciar o que acontecera, o que levou a que a notícia se tenha sabido mais depressa através das autoridades do Botswana. Por fim, a fotografia de Juan Carlos armado diante de um elefante morto – a imagem é de 2006 – correu mundo e contribuiu para intensificar o escândalo.

A actriz francesa Brigitte Bardot escreveu uma carta aberta ao rei espanhol a dizer-lhe: “É indecente, repugnante e indigno de uma pessoa com a sua responsabilidade. Você é a vergonha de Espanha”. E na Internet está a circular uma petição para que Juan Carlos abandone o cargo de presidente honorário da filial espanhola da WWF, a qual já conta com mais de 40 mil assinaturas. O próprio Fundo para a Conservação da Natureza, para o qual não serão novidade as caçadas de Juan Carlos, prometeu através de uma mensagem no Twitter fazer chegar ao rei de Espanha todos os comentários e críticas que entretanto recebeu.

“Não é o que esperávamos num momento de crise”

Em Espanha, a imagem de um rei a caçar no Botswana num momento de grave crise económica causou indignação. “Não é o que esperavam os espanhóis. É pouco edificante”, considerou Tomás Gómez. Várias organizações de defesa dos direitos dos animais, como a Igualdade Animal ou a Equanimal, chegaram mesmo a convocar manifestações para a porta do hospital onde Juan Carlos está internado.

A caçada do rei junta-se a outros escândalos recentes que têm atingido a família real espanhola, como o processo de corrupção de que é acusado o genro do rei e marido a infanta Cristina, Iñaki Urdangarín, ou o acidente em que, na semana passada, o neto de 13 anos de Juan Carlos, Felipe Juan Froilan Marichalar Borbón, disparou sobre o próprio pé com uma espingarda de três canos de calibre 36 quando praticava tiro ao alvo com o pai.

A polémica atravessou fronteiras. No New York Times foi referida a “polémica viagem de caça” que “acalentou as críticas sobre o modo de vida do rei num momento em que o país enfrenta uma crise económica”. E no britânico Guardian leu-se que “enquanto os espanhóis enfrentam a austeridade e a recessão, a família real desfruta de caras viagens de caça.”