Inês Saraiva/Flickr
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Megafone

Emigração: regresso ao futuro ou a fuga das galinhas?

A palavra de agora é emigração. Está por todo o lado. Se não são os políticos a incentivarem à emigração, são os media a explorarem-na até à ultima migalha. Por que é que deslocar-nos dentro do nosso país não é tão aliciante? É só cortar o E

Todos os dias ouvimos casos de sucesso ou insucesso, sucesso moderado ou sucesso extremo, barreiras e dificuldades, alegrias e êxitos no estrangeiro. E em Portugal?

Quando era miúda (e ainda hoje, de vez em quando) repetia uma palavra até à exaustão, até não ter significado… a minha palavra era balde. Lembro-me que a de uma amiga minha era piaçaba.

A minha palavra de agora é emigração. Esta palavra está por todo o lado. Se não são os políticos a incentivarem à emigração, são os media a explorarem-na até à ultima migalha. Se não são os pais, preocupados, são os professores. Se não são os jovens, são os vizinhos, os tios, os avós, os amigos e os amigos dos amigos.

Estamos a gastar a palavra emigração, e eu não quero estragá-la porque um dia posso precisar dela!

Eu percebo que seja difícil emigrar. Pelo comodismo da vida que conhecemos, pela família que deixamos, pela dificuldade da língua. Será que o dinheiro compensa aquilo que deixamos? Ou será uma boa oportunidade a falar mais alto?

Eu tenho uma visão romântica da emigração. Imagino-me sempre num escritório espectacular numa cidade muito desenvolvida, com acesso a tecnologia de ponta e cheia de amigos com vidas interessantes. Mas será esta vaga de emigração tão romântica assim?

Muitas vezes baixamos os padrões quando procuramos lá fora. E se for preciso trabalhar num restaurante ou num bar, é num restaurante ou num bar no estrangeiro. E quanto é que pagamos de renda? Isto faz-me pensar numa palavra que não costumo ouvir muito: migração. É só cortar o E. Porque é que deslocar-nos dentro do nosso país não é tão aliciante?

De Lisboa a Bragança já não são nove horas de distância. E tudo bem que a gasolina não para de aumentar, mas que temos estradas, temos. E comboios. E amigos para fazer "carpool".

Por que é que os jovens não pensam em deslocar-se dentro de Portugal? Por que é que o Porto não é uma hipótese óbvia para quem mora em Lisboa e tem dificuldades em encontrar emprego? E vice-versa entre todas as cidade, terras e terriolas, lugarejos de Portugal?

Por que é que se ouve falar tanto da emigração, do empreendedorismo desejado, dos incentivos procurados, mas não olhamos para o nosso país antes de olharmos para outros? Se calhar falta um programa que incentive a exploração de oportunidades cá dentro. Se calhar falta um olhar mais atento por parte dos media. A necessidade de mudar está criada, verificada e carimbada. Faltam, se calhar, as condições de mudarmos em Portugal e não para fora de Portugal.