Desporto

Mundial de futebol e Jogos Olímpicos vão custar 28 mil milhões de euros ao Brasil

Luis Fernandes quer que os mega-eventos sirvam para mostrar a competência do Brasil
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Luis Fernandes quer que os mega-eventos sirvam para mostrar a competência do Brasil Foto: Enric Vives-Rubio

Em plena época de Carnaval, Luis Fernandes pergunta se é mesmo verdade que o Governo português não vai dar tolerância de ponto. “No Brasil não seria possível”, garante a sorrir. “Faz parte do brasileiro e seria até prejudicial para a economia”, acrescenta. O vice-ministro do Desporto, responsável pelos grandes eventos (chama-lhe “mega-eventos”) que o país organizará nos próximos anos (Taça das Confederações em 2013, Campeonato do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016), sabe que samba e futebol fazem parte do ADN de qualquer brasileiro, o dele inclusive.

“O futebol passou a ser o caminho para a estruturação e consolidação da identidade nacional [do Brasil], diferencia o nacional do não nacional, não através da guerra mas do futebol”, assinala Fernandes. A maior prova futebolística do planeta regressa a casa pela primeira vez em mais de 60 anos: matar esta saudade irá custar 15 mil milhões de euros, mais do que os 13 mil milhões apontados para a organização dos Jogos, dois anos depois.

Fernandes é um brasileiro atípico. Tem pouco sotaque, fala um português fluente, influência dos pais, portugueses. A mãe é de Meda e o pai de Parambos, do concelho de Carrazeda de Ansiães. “É considerada a aldeia mais sportinguista de Portugal”, lembra. “Tem 400 habitantes, há 398 sportinguistas, um do Benfica e outro do FC Porto. O meu pai é benfiquista, logo eu também...”, conta este cientista político e antigo professor. No Brasil, torce pelo Vasco da Gama.

Dois anos revolucionários

Ao PÚBLICO, Luis Fernandes diz não ter medo do enorme investimento que está a ser feito para receber os dois maiores torneios do planeta – até fez a conversão em euros, “28 mil milhões de euros” (“em Portugal não usam bilhões, pois não?”, perguntou). Primeiro o Campeonato do Mundo, depois os Jogos Olímpicos, dois anos que vão mudar a face do maior país da América do Sul.

Depois da grande desilusão de 1950, quando o Brasil perdeu a final do Mundial, no Maracanã, para o Uruguai (a derrota de 2-1 ficou toda nos ombros do guarda-redes Barbosa, o bode expiatório de uma das maiores humilhações dos brasileiros), Fernandes diz ter mais medo da selecção que Mano Menezes conduz do que com a organização da competição, conta a rir. Mais a sério, o responsável brasileiro reconhece que “a prioridade das prioridades são os mega-eventos em que o Brasil vai ser sede”. São eles que vão “projectar o Brasil para o mundo”. “É também uma oportunidade histórica para alavancar o desenvolvimento do país”, alerta.

Pesquisador, professor de Política Internacional – a sua área é política da economia para o desenvolvimento –, está em Portugal para se reunir com o ex-administrador da Sociedade Euro 2004, Paulo Lourenço, e perceber o impacto que o Campeonato Europeu de há oito anos teve no país. Mas também veio para se inteirar das obras para a Expo 1998 e da reabilitação da zona ribeirinha lisboeta.

Do exemplo português do Euro 2004 sabe que nem tudo correu bem. Dos dez estádios para a prova portuguesa (4 estádios de clubes, privados, e 6 de câmaras municipais) poucos são viáveis economicamente. Tirando os três clubes “grandes”, o resto passa por dificuldades e alguns são “elefantes brancos”, termo que o jornalista brasileiro Juca Kfouri utilizou como um futuro provável no Brasil a seguir à Copa de 2014. “Não faz sentido construir estádios novos em Manaus, Natal e Brasília (que não tem nenhuma equipa nem na II Divisão nacional)”, lembrava Kfouri ao PÚBLICO, em entrevista no início de Fevereiro.

Estádios para quem?

“O grande objectivo é conseguir transformar eventos desportivos em pilares de desenvolvimento”, destaca Fernandes. “E mostrar ao mundo a competência, o Brasil tem que surpreender, encantar e emocionar o mundo”, continua antes de explicar que o Brasil tem uma das mais baixas assistências nos estádios a nível mundial (ronda os 24 por cento de lotação dos recintos) e a ideia é conseguir chamar um novo tipo de público.

Portugal construiu dez estádios num território que tem o tamanho do Rio de Janeiro. Os 12 recintos para o Mundial de 2016 vão ser espalhados por um país imenso (é o quinto maior do mundo). “Isto vem na altura certa”, diz Fernandes. O Brasil tem hoje uma auto-estima do tamanho do seu território nacional, a conjuntura económica é favorável e não há receio de falhar, continua o responsável.

Se no futebol vencer o título de campeão do mundo pela sexta vez (depois de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002) parece um objectivo razoável – Fernandes gostaria de vencer a final com um golo de Neymar... – já os Jogos Olímpicos parecem uma tarefa de longo prazo. Há exemplos bons (Barcelona, em 1992, que transformou o desporto espanhol, é um deles) e maus (Grécia, em 2004). E aquele que o Brasil parece querer seguir, que é a Austrália, nas palavras de Marco Klein. O responsável pelo Alto Rendimento do desporto brasileiro quer manter o país no caminho das medalhas e o exemplo australiano é o “melhor”.

Desde a primeira organização, em 1956 (Melbourne), os australianos conseguiram manter-se no topo do medalheiro, com uma média de 19 medalhas por participação. E a partir de 2000 (Sydney), a média saltou para as 51 medalhas nas três últimas participações. Números longe dos apresentados pelo Brasil, país que nunca foi anfitrião e que tem uma média de 4,5 medalhas. Mesmo assim superior a Portugal, com uma média de 1 medalha por participação (conquistou 22 em 22 participações).