Referendo chumbado

Letónia não quer falar russo

O referendo foi lançado pelo movimento russófono Língua Nativa e avaliado pelo Presidente como "absurdo"
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O referendo foi lançado pelo movimento russófono Língua Nativa e avaliado pelo Presidente como "absurdo" Foto: Ints Kalnins/Reuters

Os cidadãos da Letónia responderam com um “não” bem audível à proposta de tornar o russo segunda língua oficial no país, num referendo, votado neste sábado, que o Presidente, Andris Berzins, avaliara como “absurdo” e um reflexo de que os partidários daquela adopção “não estão em sintonia” com a população.

Com uma taxa de participação que ultrapassou os 69% – muito acima do registado em eleições anteriores e para lá das expectativas para este referendo – mais de três quartos dos eleitores rejeitaram a proposta, de acordo com dados da Comissão Eleitoral, já com 90% dos boletins contados.

O referendo, lançado pelo movimento russófono Língua Nativa, expõe uma profunda divisão social e tensões étnicas, com os letões da etnia russa (cerca de um terço da população) há muito a reclamarem serem vítimas de discriminação no país, que se tornou independente da Rússia em 1991 após mais de 50 anos sob o domínio soviético.

Aprender a língua letã tornou-se um requisito para a aquisição de cidadania nos anos que se seguiram à separação da União Soviética, mas ao fim de mais de duas décadas muitos letões russófonos continuam a resistir – 300 mil dos quais ainda não receberam o estatuto de cidadão e, por isso, não podem votar nas eleições, nem desempenhar cargos públicos ou trabalhar para quaisquer instituições do Governo.

Para muitos letões a iniciativa de referendo não passou de uma tentativa para desestabilizar a independência do país, membro da União Europeia desde 2004. O Presidente avaliou-o mesmo como “absurdo”, sublinhando que a maior parte da população está “mais preocupada é com a recuperação da grave recessão”.

Berzins deixou claro ser um defensor do “não” no referendo, afirmando que “não há necessidade nenhuma de uma segunda língua”: “Quem queira pode usar a sua língua em casa ou até mesmo na escola”, defendeu, evocando que o Governo financia as escolas dos grupos minoritários populacionais, nas quais é usada a sua própria língua.