Promoção de Angola no exterior é feita por empresa de filhos de Eduardo dos Santos

Angola gasta milhões a promover a imagem no estrangeiro
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Em Angola, o grupo português está a reforçar negócios no sector da distribuição. Foto: Gianluigi Guercia/AFP

A promoção da imagem de Angola no estrangeiro, nomeadamente através da CNN e do canal internacional da televisão estatal, a TPA, estações em que a presidência do país prevê gastar este ano cerca de 40 milhões de dólares, é feita através de uma empresa controlada por dois filhos do chefe de Estado, José Eduardo dos Santos - a Semba Comunicação.

As verbas para "divulgação junto da CNN" e "encargos com a TPA Internacional" estão inscritas nas despesas da presidência no Orçamento de Estado para 2012. A denúncia de que a promoção é feita pela Semba Comunicação, que tem como sócios Welwitshea, conhecida como "Tchizé", e José Paulino dos Santos é do jornalista e activista angolano Rafael Marques, segundo o qual a "responsabilidade principal da melhoria da imagem do regime" cabe à empresa desde a sua fundação, em 2006.

"O que não se sabia antes é que o dinheiro para divulgação junto da CNN passava pelos filhos", disse ontem ao PÚBLICO Rafael Marques, que se tem distinguido por denúncias de abusos por parte da cúpula político-militar angolana e revelou a situação no seu site, MaKa Angola.

Este ano, o orçamento da presidência prevê o equivalente a 17 milhões de dólares para investir na CNN e 23 milhões no canal internacional da televisão estatal. Ao câmbio actual, a soma, convertida a partir de kwanzas, representa cerca de 31 milhões de euros. A Semba Comunicação beneficia ainda de verbas da rubrica de assessoria e consultoria em programas televisivos do orçamento do Ministério da Comunicação Social, disse Rafael Marques.

A empresa reivindica no seu site "alguns dos mais importantes projectos de branding a nível de Angola, como é o caso da campanha internacional da Agência Nacional de Investimento Privado (ANIP) com uma forte presença no canal de televisão CNN Internacional" - referência à campanha Angola Grow With Us. A Semba apresenta também como créditos a renovação do Canal 2 da televisão estatal e o convite para desenvolver a marca do canal internacional. Nos últimos anos tem promovido programas televisivos e eventos diversos na área da comunicação.

Rafael Marques chama a atenção para o facto de a ANIP ser presidida por Maria Luísa Perdigão Abrantes, ex-mulher do Presidente da República e mãe dos dois filhos de Eduardo dos Santos que são sócios da Semba.

Relações "continuam"

O terceiro sócio da Semba Comunicação é filho de outro casamento de Maria Luísa Abrantes, nomeada em Novembro passado para o cargo que já antes tinha ocupado em regime de substituição. A responsável máxima da ANIP foi representante nos Estados Unidos da agência de investimento privado quando se realizaram anteriores campanhas de promoção de Angola no exterior. O site da Semba Comunicação indica que as relações entre as duas entidades "continuam" através da campanha Angola Eu Acredito/Angola I Believe.

Notícias divulgadas no ano passado pelo site Club-k indicavam que a gestão de imagem do Governo angolano fora entregue à Semba Comunicação, por subcontratação do Grupo de Revitalização e Execução da Comunicação Institucional da Administração, criado pelo Presidente da República e dotado de um orçamento anual de 50 milhões de dólares (mais de 39 milhões de euros).

Rafael Marques considera que, pela lei angolana, José Eduardo dos Santos "incorre em crime de corrupção por favorecimento dos seus filhos em negócio directo com a Presidência" e pode legalmente "ser destituído por crimes de suborno, peculato e corrupção". Maria Luísa Abrantes está também a violar a lei, considera.

O PÚBLICO procurou ontem, sem êxito, obter, por correio electrónico, esclarecimentos da Semba Comunicação.

Petróleo e branqueamento motivam denúncias

Rafael Marques apresentou na semana passada, na Procuradoria-Geral da República de Angola, uma queixa-crime contra dirigentes angolanos, por indícios de "enriquecimento ilícito" .

Os visados são Manuel Vicente, presidente da administração da empresa petrolífera estatal Sonangol, o general Hélder Vieira Dias "Kopelipa", chefe da Casa Militar do Presidente República, e o general Leopoldino Fragoso do Nascimento, consultor de "Kopelipa" - referidos como sócios do grupo Aquattro Internacional, proprietário da empresa Nazaki Oil & Gaz.

São acusados de "recebimento de percentagem" em acordos de risco assinados entre a Nazaki Oil & Gaz e a Sonangol em 2010 para "operações de exploração, pesquisa e produção" de petróleo.

Já esta semana, Rafael Marques depôs em Lisboa, como testemunha, num "processo de averiguação preventiva" em curso no Departamento Central de Investigação e Acção Penal, interposto por um angolano residente em Portugal.

A queixa é de "branqueamento de capitais" e envolverá "vários dirigentes angolanos". Uma das pessoas visadas é "Tchizé" dos Santos, uma das filhas do Presidente, disse o activista