O fim da Linha do Leste

"Agora que decidi trocar o carro pelo comboio é que vão acabar com ele?"

Anúncio do Governo deixou passageiros surpreendidos e até revoltados
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Anúncio do Governo deixou passageiros surpreendidos e até revoltados Nuno Ferreira Santos/Arquivo

Transporta sobretudo estudantes e idosos, mas a classe média em tempo de crise já começa a deixar o carro em casa e a viajar na velha automotora da Linha do Leste que liga Badajoz e Elvas ao Entroncamento, onde passam os comboios mais rápidos para Coimbra e Porto.

O anúncio do Governo de que o serviço de passageiros iria terminar nesta linha deixou estes passageiros surpreendidos e até revoltados. A alternativa, dizem, é o autocarro, que é mais caro e demora mais tempo, ou então, para quem pode, o regresso ao automóvel.

São 8h45 quando o comboio regional n.º 5501 sai do Entroncamento com 37 passageiros a bordo. Os primeiros quilómetros valem pela paisagem, sempre ao lado do Tejo, sem que as inúmeras paragens - Vila Nova da Barquinha, Tancos, Almourol, Praia do Ribatejo, Sta. Margarida, Tramagal, Abrantes - incomodem por aí além.

O sol despontou e aquece a carruagem, aconchegando o sono profundo de dois jovens andaluzes, estudantes em Coimbra, que vão de fim-de-semana a Huelva e Sevilha. Estão com uma directa em cima, confessarão mais tarde, estremunhados, à chegada a Badajoz, porque passaram a noite na discoteca. O mesmo terá acontecido a uma outra universitária de Coimbra que ficará em Elvas, tendo de ser acordada pelo revisor para não ir parar ao outro lado da fronteira.

Eclipses e animais

Às nove da manhã regista-se um primeiro incidente. O maquinista detecta uma avaria no freio da automotora e perde dez minutos em Sta. Margarida para solucionar o problema. "Não é grave. Temos uma marcha larga e ainda recuperamos o tempo", diz quando regressa à cabina.

Em Abrantes o atraso ainda diminuiu para seis minutos, mas em Ponte de Sor, onde o 5501 cruza com um comprido comboio de mercadorias vindo de Elvas, o chefe da estação entrega ao maquinista um documento para este assinar, através do qual lhe comunica que deverá esperar que a estação entre em eclipse antes de voltar a partir. Em linguagem ferroviária isto significa que a estação vai fechar, passando temporariamente à situação de apeadeiro.

Os dois agentes da Refer têm ainda de cumprir um conjunto de procedimentos para deixar Ponte de Sor em eclipse e entrarem também eles na automotora para viajarem até outra estação. O atraso de 15 minutos com que a velha automotora Allan sai da Ponte de Sor já não será recuperado até Badajoz. E o episódio diz muito da forma de exploração desta linha, em cantonamento telefónico, com o pessoal da Refer nas estações a pedir avanço para a estação seguinte para que a composição possa prosseguir.

A par deste modo arcaico de gerir o tráfego ferroviário, há telecomunicações modernas a bordo. O maquinista já antes telefonara para o centro de controlo em Braço de Prata (Lisboa) a avisar que havia uma ovelha na linha, à entrada da estação de Barquinha, informação que deverá ser prestada a outros maquinistas.

Mais à frente, em Torre das Vargens, o mesmo maquinista recebe um modelo a avisar que ao quilómetro 180 deveria seguir em "marcha à vista" porque fora avistado gado bovino na via férrea. A Allan apita e arranca, mas pouco depois diminui a velocidade e vai a passo de caracol. Até que ao fundo, avistam-se dois grandes bezerros, um dos quais, insensível aos apitos da automotora, insiste em permanecer no meio dos carris até, finalmente, resolver sair da frente.

Modernização interrompida

Inaugurada em 1863, a Linha do Leste foi construída numa plataforma apta para ser via dupla, mas 150 anos depois mantém-se em via única e nunca foi electrificada. O traçado é um dos melhores da rede nacional, com curvas de raio muito aberto e rectas intermináveis por onde a velha automotora agora se balanceia lentamente, num ritmo de causar sono.

A Refer preparou, em 2009, investimentos de 48 milhões de euros para modernizar a linha. Um programa que foi agora interrompido, ficando a linha uma autêntica manta de retalhos, com troços modernos e travessas bibitola (preparadas para a mudança para a bitola europeia) e outros onde a velocidade permitida não vai além dos 40 km/hora.

Se isto diz algo da capacidade de planeamento da Refer, por parte da CP a situação não é melhor. Embora tenha ar condicionado e design interior contemporâneo, a Allan da Linha do Leste é uma das dezenas de automotoras que Portugal comprou à Holanda na década de 1950. A modernização prolongou-lhe a vida útil, mas está a poucos meses de ir para a sucata.

Como estas automotoras não dão mais do que 100 km/h, a viagem entre o Entroncamento e Elvas demora três horas. Numa composição mais rápida, apesar das limitações da linha, o mesmo percurso poderia ser feito em pouco mais de duas horas.

Domingos Cordeiro, 71 anos, vem de Sacavém para Sta. Eulália e diz que faz esta viagem a cada 15 dias. "Agora a minha mulher vai-se reformar e contávamos vir cá mais vezes à terra. De comboio sempre vimos mais descansados, mas agora dizem que isto vai acabar e vamos ter de vir de carro", conta.

Maite Moreno e Carmen Bravo abrem a boca de espanto. "Vão acabar com este comboio?", perguntam incrédulas. Estudantes de Matemática em Coimbra desde Setembro, ao abrigo do programa Erasmus, as duas jovens, ambas de Badajoz, vêm de 15 em 15 dias à sua terra e escolhem o comboio porque é a opção óbvia. A alternativa é fazer Badajoz-Lisboa em autocarro e depois subir para Coimbra de autocarro ou comboio. Mas pela Linha do Leste a distância é menor e, apesar de lento, o serviço ferroviário é mais rápido. E mais barato.

Atravessando um Alto Alentejo meio desertificado, a Allan vai parando em estações que, apesar de abandonadas, foram recentemente emparedadas e pintadas pela Refer. Salvas da vandalização por não estarem em zonas urbanas, afastadas das populações que deveriam servir, são uma espécie de ilhas no meio da paisagem rural.

Chanca, Mata, Crato, Portalegre, Assumar, Arronches, Santa Eulália. Vai-se nisto e são 11h46 quando o regional chega a Elvas, onde sai a maioria dos passageiros. Até Badajoz serão mais 18 minutos sobre carris. Nesta etapa final, o 5501 transporta 15 pessoas que rapidamente se dispersam quando chegam à estação de destino.

O maquinista e o revisor têm um táxi à espera, que os levará para um hotel em Elvas. Como o regresso é só às 17h11 (para chegar ao Entroncamento às 20h13) e esse tempo ultrapassa o período de segurança para conduzir comboios, irão pernoitar ali, para na madrugada seguinte pegarem numa automotora que sai às 5h36. E é também de táxi que chega a Badajoz, vinda de Elvas, a tripulação que fará a viagem de regresso. Só nestes custos, vai-se parte da receita que o revisor fará com a venda de bilhetes.

Atalho para Centro e Norte

A CP estima que os prejuízos desta linha sejam de 1,2 milhões de euros. No ano passado viajaram neste eixo 28.164 passageiros, o que dá uma média de 19 clientes por comboio. Um número que o Governo entende ser mais adequado para o serviço rodoviário.

O comboio de regresso chegará ao Entroncamento com meia centena de passageiros, sobretudo estudantes de Elvas para Coimbra, alunos da escola profissional de Alter do Chão que entraram na estação do Crato e vão para o Norte, trabalhadores de Ponte de Sor em fim-de-semana a caminho de Coimbra, Aveiro e Porto. Quase ninguém vai para Lisboa. Para o Centro e o Norte do país, mesmo em condições precárias, a linha que vai em breve encerrar para passageiros, parece constituir um bom atalho.

Fátima Teixeira, 30 anos, é engenheira química e trabalha numa fábrica em Elvas. É a primeira vez que faz a viagem de comboio para o Porto, quebrando um hábito de dois anos em que utilizava o seu próprio carro, e para já está a gostar. Diz que o preço [30,50 euros] é "muito razoável" e mesmo o tempo (cinco horas de comboio em vez de quatro em automóvel), também compensa. Só não sabia que a partir de Janeiro esta alternativa recém-descoberta se acaba. "Agora que decidi deixar o carro e passar a vir sempre de comboio, é que vão acabar com ele?"