Manuel Cajuda: “Já me cansei de fazer publicidade a mim próprio”

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Foto: Rita Baleia
PÚBLICO - Por que razão aceitou treinar agora a União de Leiria?

MANUEL CAJUDA - Não haverá muitos currículos como o meu e ainda hoje sou um treinador de top em Portugal. Mas esse top construiu-se com duas passagens pela U. Leiria, clube que me ajudou muito a crescer como treinador. Na primeira vez, subi de divisão e, passados uns anos, fizemos a melhor classificação de sempre do clube [5.º lugar em 2002-03] e fomos à final da Taça de Portugal. Portanto, nesta altura, em que a U. Leiria entendeu que eu poderia ser a arma secreta, seria egoísta se olhasse só para o meu umbigo. Podem dizer que vou estragar o currículo, mas só pensei em ajudar. Se me ajudaram a crescer, não vou ajudá-los a morrer.


Não teme assumir o comando de um clube que despediu dois treinadores em seis jornadas?

Não, porque sou optimista por natureza. Mesmo que se cumpra a troca de treinador de três em três jogos, ainda tenho mais dois para fazer (risos). Medi bem todas as situações. Sei que tenho uma obra muito grande para fazer, mas tenho noção de que vou ganhar.


Entrou com uma vitória sobre o Braga. Há algum segredo para conseguir rapidamente melhorar o moral da equipa?

Há coisas simples, que aprendi na escola e não no futebol. É que não sou um produto do futebol. Tirem o cavalo da chuva, porque nunca me hei-de ver um “Zé da Bola”. Quando era estudante, aprendi: “Tratam-me como gente, eu reajo como gente. Tratam-me como um animal, reajo como um animal”. E, portanto, limitei-me a tratar os jogadores da U. Leiria como gente.


Há uns anos, fez vídeos com declarações dos familiares para motivar jogadores em Guimarães. Estas estratégias funcionam sempre ou já teve desilusões?

Funcionam, mas não é para repetir, porque senão entramos na rotina. A palavra-chave, hoje em dia, é inovação. Precisamos de inovar, com ambição e experiência. Há uns dias, até fiquei aborrecido com a história do iPad [o jornal A Bola noticiou que Manuel Cajuda usa o iPad, em vez do bloco, para dar instruções aos jogadores nos treinos]. Estive num país [Emirados Árabes Unidos] que, tendo um futebol fraco, tinha muito dinheiro. Isso permitiu-me fazer pesquisa. Utilizo algumas coisas porque, no futebol, só fala de tácticas quem não sabe falar de outras coisas. Cada vez são mais as ciências que interagem com o futebol. Não posso é pensar em repetir a história do vídeo, porque perde-se o efeito surpresa. Mas é importante usar outras coisas, porque o treino desportivo não é só periodização táctica e transições ofensivas. Faz-me confusão que pessoas tirem cursos superiores para falar de coisas que não são deles: qualquer sistema táctico tem mais de 40 anos. Nenhum treinador actual inventou isso.


Mas essas novas tecnologias são realmente úteis ou são chiques?

Há de tudo. Para mim, facilitou. Basta-me ter uma “pen” ou um iPad e acedo a todos os dados da minha equipa. Mas também há quem use por charlatanismo, só para dar nas vistas.


Desde que começou como treinador principal, em 1984, em que capítulo dos intervenientes (dirigentes, técnicos, jogadores, árbitros) se evoluiu mais?

Penso que todos evoluíram, embora não seja tudo perfeito. Dá gosto comparar a facilidade de aquisição de conhecimentos. Quando comecei a treinar, tive de ir a Huelva para comprar um livro sobre futebol, porque em Portugal não havia. Hoje não é preciso sair de casa. Só tenho pena por agora não vivermos na época do conhecimento, mas sim dos conhecimentos.


Está a regressar dois anos depois de ter saído. Nota diferenças?

Algumas coisas não me estão a cheirar bem. O futebol português continua a perder intensidade quando a deveria ganhar. E, acima de tudo, continuo sem saber quem manda: se os agentes, se os dirigentes, se os treinadores, se os jogadores. Hoje há jogadores que não jogam, fazem queixa ao empresário e o presidente do clube, porque fez um bom negócio, pressiona o treinador. Mais tarde, quem paga é o treinador. Hoje, nas SAD, fala-se dos activos, mas todas as empresas têm activos que rendem e outros que rendem menos. Não quero falar menos bem do futebol português, até porque alguns resultados ajudam a não falar. Tivemos duas equipas na final da Liga Europa, temos o melhor jogador e o melhor treinador do mundo. Isso quer dizer que temos muitas coisas positivas que ajudam alguma incompetência a manter-se no futebol português.


Essa incompetência está onde? Dirigentes, treinadores, jogadores?

Há em tudo. Tenho noção de que hoje não há treinadores modernos. Há treinadores baratos e caros. A sede de protagonismo, a vontade de aparecer, até faz com que se treine quase de borla, ganhando um prémio no final do ano. Há equipas que contratam treinadores baratos e pensam que, se correr mal, os mandam embora. Mas ficam a pagar a dois e três no mesmo ano. E não estou a falar da União de Leiria.


Falou há pouco do mundo dos conhecimentos. Continua sem empresário?

Em 28 anos de carreira, só um empresário, o senhor Salem, me arranjou contrato, no Egipto e nos Emirados Árabes Unidos. Até houve alturas em que pedi ajuda a empresários, mas o telefone tocou muito poucas vezes. Agora, desde que cheguei a Leiria, o telefone começou a tocar mais vezes.


Para lhe oferecerem jogadores?

Sim, para Dezembro. Mas nem sei se em Dezembro vou estar cá (risos).


Não ter empresário é o que faz ser um não-alinhado?

Isso do não-alinhado foi algo que me disseram há uns anos: que eu não chegava a um grande clube por ser um desalinhado. Perguntei porquê. E, nestes anos todos, é difícil explicar. Gostava de saber em que é que tenho de alinhar. Sobre os agentes, lamento que alguns tenham olhado para o meu currículo com olhos de pouca vontade. E pedi ajuda a alguns, porque nem sempre estive na mó de cima. Mas gostava que um dia algum percebesse que este homem merece, porque eu fiz mais do que outros que chegaram aos clubes grandes. Ainda há tempo para fazer coisas boas.


Ainda vai a tempo de trabalhar num dos três “grandes”?

Não me preocupo com isso, mas digo que há tempo e sou capaz de fazer muita coisa. Cada vez estou mais motivado, mas já me cansei de fazer publicidade a mim próprio. Os resultados já o deveriam ter feito por mim.


Acha que os grandes clubes não o levam a sério para, nestes anos, nunca lhe terem feito uma proposta ou o terem contratado?

Já tive possibilidade de chegar a um “grande” e um dia irei contar.


Por que não agora?

Em Portugal, qualquer pessoa escreve um livro e um dia também vou escrever e vou contar como fui contactado. Já tive possibilidades de ir para um “grande”, mas não se deve ir em qualquer circunstância. Já houve alturas em que os “grandes” eram máquinas trituradoras de treinadores. Para quê ir? Conheço colegas que, se soubessem, não teriam ido. Não quis ser triturado.


Acha que foi isso que aconteceu a treinadores como José Couceiro, Carlos Carvalhal e Paulo Sérgio?

Fico feliz pelo trabalho do José Couceiro na Rússia. Sobre os insucessos que lhe provocaram, não devo falar. Acredito que é um bom treinador.


Hoje vemos a aposta em treinadores mais jovens, como Vítor Pereira, Domingos, Leonardo Jardim, Rui Vitória. Acha que o seu tempo já passou?

Não, porque há dois anos o Jesualdo Ferreira foi o único português a ganhar três campeonatos seguidos em Portugal. E vi o Jesus, com 56 ou 57 anos, ser campeão. E vi que os outros não conseguiram. E vemos o treinador do Manchester United, com 70 anos, a ser campeão e a mastigar pastilha elástica como uma criança.


Como olha para estes treinadores com mais condições para lutar pelo título?

Com alegria, pelo simples facto de serem portugueses. Quando comecei, eram 17 treinadores estrangeiros e três portugueses. Hoje são todos portugueses. É muito bom.


Também já falou da febre de descobrir um novo Mourinho. Isso já passou ou o sucesso de Villas-Boas vai reavivar essa busca?

Temos o melhor treinador do mundo e temos cinco ou dez grandes valores no futebol mundial e o Villas-Boas é um deles. É um caso fantástico de evolução. Quando começou, eu não acreditava nele. Felizmente para ele, para mim e para o futebol português, enganei-me.



“Gostava de ser engenheiro ou doutor”

Quais foram o melhor e pior momentos da sua carreira?
O pior foi quando o meu filho, por alguns erros, ficou inutilizado para a prática do futebol no Sp. Braga. Era um bom jogador, tinha 22 anos, e quatro operações jogaram-no para o mundo dos inválidos do futebol. O melhor momento, sei lá... Há muitos bons. O sucesso não é só ganhar campeonatos. Não imaginam como vou considerar sucesso se livrar a União de Leiria da descida de divisão. Se calhar, é mais difícil do que ganhar um campeonato.

Sente que lhe falta um título?
Sinto que já teria ganho um título se tivesse passado por um desses clubes. Naturalmente. Se outros ganharam, por que é que eu não haveria de ganhar? Exceptuando o Domingos, que chegou com melhores classificações, nenhum treinador chegou aos “grandes” com melhor currículo do que eu.

Se mandasse no futebol, o que mudava?
Não mudava muita coisa. Talvez a cultura das pessoas. Nos anos que estive fora, o que mais notei foi a cultura negativista dos portugueses. É bonito falar mal. É intelectualmente forte ser destrutivo nas palavras e falar mal dos outros. E vi coisas que nunca vou entender. Quando estava nos Emirados, vi na RTP Internacional que o Partido Comunista votou ao lado do CDS. Nunca vou entender isto. É difícil a alguém que aprendeu, antes do 25 de Abril, o que é ser de esquerda. Não sou político e deixei de votar há 14 anos. O nosso voto não é importante. Antes do 25 de Abril, éramos impedidos de falar. Agora falamos e ninguém nos passa cartão. É quase a mesma coisa.

Como nasceu o seu gosto pelo futebol?
Não é tanto como pensam. Sou um treinador sem querer e sem o querer. Não sou um produto do futebol e não pensava ser treinador. Tinha uma carreira universitária para seguir e só não segui porque os meus pais não tinham dinheiro. Estamos a falar de há 30 anos, quando só havia faculdades em Lisboa, Porto e Coimbra. Agora, em qualquer esquina, há uma faculdade.

O que queria estudar?
Gostava de ser engenheiro ou doutor. Estive para entrar na banca, mas depois deu-se a nacionalização da banca. Como precisava de ganhar dinheiro, voltei para o futebol, que era mais fácil.