Alemanha procura técnicos qualificados em Portugal, Espanha e Itália

Foto
Trabalhadores, procuram-se Nuno Ferreira Santos

A Alemanha procura técnicos, e não apenas engenheiros, no Sul da Europa. Os serviços públicos de emprego alemães, em colaboração com a rede Eures, que incentiva a mobilidade laboral na Europa, têm a mira posta em Portugal, Espanha e Itália.

Quem o afirma é Walter Von Plettenberg, porta-voz da Câmara de Comércio Alemã para Espanha (AHK), na sequência de dois encontros realizados em Junho em Barcelona e Madrid, para informar engenheiros espanhóis de oportunidades de emprego.

"Ainda este ano vão-se realizar jornadas de recrutamento deste tipo em Portugal e Itália", revelou, ao PÚBLICO, o responsável da AHK. "Procuramos não apenas engenheiros, mas também profissionais com um grau não universitário, como engenheiros técnicos de todas as especialidades, soldadores, fresadores, pessoal sanitário, profissionais da área da hotelaria ou professores de Espanhol", prossegue. "Temos um défice considerável no Sul e no Sudoeste da Alemanha, onde o desemprego baixou tanto que já chegámos ao nível do pleno emprego", justifica.

Os encontros realizados no mês passado em Barcelona e em Madrid centraram-se na procura de engenheiros industriais, mecânicos ou de aeronáutica. Foram 260 os que compareceram nas duas jornadas, que ficaram surpreendidos com os níveis remuneratórios oferecidos: entre 40 mil a 50 mil euros anuais.

Curiosamente, um estudo da Universidade Politécnica de Valência revelou que 50 por cento dos engenheiros formados em 2008 que trabalham auferem cerca de mil euros mensais. A contrapartida a ter acesso ao "paraíso alemão" é o domínio da língua. "O nível B2 é suficiente para iniciar uma vida de trabalho na Alemanha", assegura Von Plettenberg.

"Muitas empresas estão dispostas a acompanhar a entrada de novo pessoal com cursos de integração linguística e, no caso concreto dos engenheiros, a língua alemã pode em boa medida ser substituída pelo Inglês", acentua.

Esta é a opinião, feita de experiência, de Mercedes Almenar Muñoz, uma jovem engenheira de telecomunicações espanhola de 27 anos que trabalha há quatro na Alemanha, em Ulm, cidade próxima a Munique. "O Alemão é importante, mas o Inglês é suficiente. Trabalha comigo, no departamento de vendas da América Latina, uma engenheira mexicana que só fala Inglês", corrobora Mercedes. Não é o seu caso: "Comecei a estudar Alemão aos 16 anos, nas férias", recorda esta valenciana.

Contudo, foi o não-domínio da língua que levou Luís Tello, engenheiro civil de 27 anos, licenciado em 2009 e no desemprego, a inibir-se de comparecer nas jornadas. "Os que têm nível de Alemão são logicamente preferidos. Se houvesse uma pequena possibilidade, ia para a Alemanha de olhos fechados, porque em Espanha não vejo solução", afirma.

Tello lamenta, ainda, que a sua especialidade não seja a requerida: "querem engenheiros industriais, mecânicos e informáticos, não pretendem engenheiros civis, o que também diminui as possibilidades". Este mês de Julho, Luís Tello esgota o período do subsídio de desemprego. "Ando à procura de qualquer trabalho, mesmo abaixo das minhas qualificações", destaca. A hipótese de emigrar está em cima da mesa.

"No sábado [9 de Julho], organizei uma festa de boas-vindas a mais engenheiros espanhóis recém-chegados, são engenheiros de telecomunicações e informática, que vieram para fazer currículo e depois querem voltar para Espanha", revela Mercedes. O seu propósito é diverso. Tem como objectivo continuar em Ulm. "Tenho um bom salário na Alemanha, embora pague mais impostos, mas não tenciono voltar a Espanha, porque não sei se vou encontrar um trabalho tão bom", garante. "Aqui, a opinião geral é que somos bons profissionais, que temos muita capacidade", prossegue. É uma fama recente.

Em Abril de 2010, a chanceler Ângela Merkel visitou a feira tecnológica de Hanôver e ficou surpreendida ao saber que o tráfego aéreo do seu país foi desenhada e em parte é dirigido por engenheiros espanhóis, da empresa Indra.

"As autoridades do serviço público de emprego alemão que estiveram em Barcelona e Madrid ficaram muito satisfeitas com a qualificação dos entrevistados", sublinha Walter Von Plettenberg. Depois de ouvirem a exposição oficial do pretendido, os engenheiros espanhóis mantiveram contactos com agências de emprego e enviados de várias companhias alemãs: da BMW à aeronáutica Ferchab, da Alkimia a Aixtron. "Os contratos vão sendo assinados a pouco e pouco, a conta-gotas", refere um porta-voz do serviço de emprego estatal de Espanha. Das duas jornadas realizadas em Junho, saíram 20 novos contratos de engenheiros". "Por ano, temos um défice anual de 15 mil engenheiros, e o global andará pelos 70 mil", admite o responsável da AHK.

Na próxima década, faltarão 100 mil engenheiros na Alemanha, o que se deve à evolução demográfica e ao facto de não terem sido cobertos os postos de formação profissional. Do mesmo modo, em 2030 faltarão 40 mil médicos. Se os licenciados espanhóis continuarem a ter a preferência, muda radicalmente o perfil dos residentes de Espanha na Alemanha. Os 80 mil actualmente registados eram, na maioria, operários não especializados chegados nos anos 60 e 70 do século passado.

"Aqui, em Ulm, há ainda uns quantos que vieram trabalhar para a Telefunken e que se reúnem num bar La Casa Española, onda cheira a fritos", ironiza Mercedes.

O que querem os alemães

- A Câmara de Comércio Alemã para Espanha já fez dois encontros em Barcelona e Madrid para informar os espanhóis sobre oportunidades de emprego na Alemanha.

- Com zonas do país onde o desemprego é muito baixo, a Alemanha pretende cativar pessoas com experiência, como engenheiros técnicos, soldadores, fresadores, pessoal sanitário e profissionais da área da hotelaria.

- Domínio de línguas é essencial.