Descobertos manuscritos inéditos que podem ser de Guerra Junqueiro

Abílio Guerra Junqueiro
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Abílio Guerra Junqueiro DR

Centenas de textos achados numa casa privada no Norte foram confiados à Livraria Lello. Espólio vai agora ser analisado por especialistas para a confirmação da autoria

Uma caixa com várias centenas de manuscritos, que se acredita possam ser de Guerra Junqueiro (1850-1923), foi descoberta na colecção duma casa privada, no Norte do país. A notícia foi avançada anteontem à noite pela Antena 1, que citava e ouvia Antero Braga, da Livraria Lello, no Porto, a quem o espólio fora mostrado e confiado nessa tarde de quarta-feira.

Depois de analisar os documentos, o livreiro ficou com a firme convicção de que se trata de manuscritos do autor de A Velhice do Padre Eterno.

"A letra, o tipo de papel, em que se nota a erosão do tempo, mesmo se está em óptimo estado, e também os atilhos usados, além das datas (da década de 1890), apontam todos para que sejam manuscritos de Guerra Junqueiro", reafirmou ontem ao PÚBLICO Antero Braga. O livreiro lembrou, de resto, que a antecessora da Lello, a Chardron, fundada em 1869, foi a primeira editora do escritor. E a livraria tem mesmo actualmente em exposição numa das suas paredes uma carta enviada por Guerra Junqueiro a Ernesto Chardron. "A semelhança da letra é clara", diz Antero Braga, que, no entanto, nota que a confirmação da autenticidade da autoria só poderá ser feita por especialistas.

O espólio pertence a um cliente da Lello, que quis manter o anonimato. Antero Braga adiantou que os documentos deverão ter pertencido ao bisavô do actual proprietário, que terá sido alguém com relações de amizade e de grande proximidade com Guerra Junqueiro.

O espólio é composto por folhas soltas, cartas e outros textos manuscritos, alguns dos quais "parecem ser projectos de livros", diz o livreiro da Lello. A sua primeira preocupação, em acordo com o proprietário, foi depositar os documentos num banco. Seguir-se-ão, a partir de agora, contactos com especialistas em Guerra Junqueiro, e também com a Biblioteca Nacional, para a definitiva confirmação da autoria.

Antero Braga não sabe ainda que destino é que o proprietário irá depois dar ao espólio. Mas espera que ele possa ser preservado e mantido em Portugal.

José Carlos Seabra Pereira, professor na Universidade de Coimbra e especialista na obra de Guerra Junqueiro, disse ontem ao PÚBLICO que, a confirmar-se esta descoberta, ela será "um acontecimento muito importante", até para a reavaliação da obra de um autor que, depois de ter conquistado uma popularidade sem precedentes na sua época, se viu desvalorizado ao longo do século XX.

Por outro lado, acrescenta Seabra Pereira, estes manuscritos poderão testemunhar a veracidade das declarações do próprio Guerra Junqueiro, no início do século, quando "ele dizia que, para além do que estava a publicar, vinha escrevendo muitas outras coisas, na área da filosofia da ciência e até da religião, que estabeleceriam pontes com a sua produção poética".

Resta agora esperar para ver se as investigações que vão ser realizadas confirmam a autenticidade, e que dados novos virão acrescentar a uma eventual revisão da importância da obra do autor de Os Simples.