Crítica

O novo mundo

Arrebatadora sinfonia cósmica do eremita Malick.

O que deve começar por se dizer em relação a "A Árvore da Vida" é um pouco aquilo que se dizia do "Clube de Combate" de David Fincher (que, por acaso, também era interpretado por Brad Pitt). A regra nº 1 do clube de combate é que nunca se fala do clube de combate.

É a mesma coisa com "A Árvore da Vida". A experiência é tão pessoal, tão intransmissível, que não vale a pena tentar explicar, resumir, definir. "A Árvore da Vida" é o filme que propulsiona definitivamente Terrence Malick, eremita que assina aqui o seu quinto filme em 40 anos, para o panteão rarefeito dos grandes modernos irredutíveis. Goste-se ou não, não há mais ninguém a filmar como ele, e o que ele propõe aqui é algo que deixa para trás a lógica tradicional da narrativa para se resumir a uma experiência sensorial irrepetível.

Há uma outra dimensão em "A Árvore da Vida" que é, aqui, do domínio do sagrado. E falamos do domínio do sagrado primeiro pela assumida abordagem mística, de um modo como nunca acontecera tão abertamente até agora no seu cinema; depois, porque o seu panteísmo recorrente atinge aqui um ponto quase de não retorno, no modo como a vida da família O'Brien no Texas dos anos 1950 - tecnicamente o centro do filme - se estilhaça numa série de fragmentos narrativos sensoriais contrapostos à história do universo desde a criação da Terra até à extinção definitiva do Sol, num olhar simultaneamente microscópico e macrocósmico que abrange o infinitamente grande e o infinitamente pequeno. Como se Malick estivesse nos antípodas de Godard, trabalhando exactamente nas mesmas coordenadas da pequena história incrustada na Grande História.

E, tal como Godard, também Malick já há muito abandonou qualquer pretensão de fazer cinema narrativo convencional. "A Árvore da Vida" é - na sequência dos filmes anteriores, mas levando a aposta mais longe - um enorme planetário experiencial onde tudo se constrói por minuciosos agenciamentos emocionais de imagens e sons. Não é tanto um filme como uma enorme sinfonia cósmica que nos contasse a sua história por emoções e não por diálogos, por visões mais do que por situações. Será certamente por aí, também, que se irão buscar as comparações ao "2001" de Stanley Kubrick. Mas onde a estranheza de "2001" nascia de uma progressiva desintegração do real em direcção ao in-imaginável desconhecido, com o filme a mergulhar progressivamente em territórios mais alienígenas, "A Árvore da Vida" faz o movimento contrário, partindo de um "prefácio" e de um "prólogo" desorientadores para uma progressiva integração do real, à medida que o filme se concentra na infância de Jack O'Brien numa cidadezinha do Texas entre as regras estritas de um pai distante e o amor incondicional de uma mãe sempre presente.

Este filme sobre o universo é também um filme sobre a América, um comentário amargo sobre a promessa e a realidade do "novo mundo". A inocência perdida é tema recorrente de Malick, já o sabíamos, mas ele aqui é tornado explícito e reforçado pelo misticismo que cobre todo o filme: "A Árvore da Vida" é também uma viagem impressionista pela América mítica do pós-II Guerra, transportando dentro de si as raízes da sua queda. Nesse aspecto, esta é verdadeiramente a sequela do "Novo Mundo", filme que já via a América como paraíso perdido maculado pela chegada dos colonos. Agora, séculos depois, Malick persiste na busca de traços desse paraíso, mas já não se limita à América, para mostrar o homem como algo de minúsculo que não é capaz de apreender a grandeza e a beleza, terríveis e gloriosas, do universo em que vive.Podemos dizer que gostamos menos ou mais de "A Árvore da Vida" do que dos anteriores filmes (gostamos mais do que de "A Barreira Invisível", menos do que de "O Novo Mundo"), mas isso perde toda e qualquer importância porque Malick é peça única: mais ninguém faz o que ele faz, mais ninguém filma como ele. A certeza é esta: não vai haver, em 2011, outro filme americano como este.