Crítica

América

Há dois filmes a lutar entre si no interior da estreia do publicitário João Nuno Pinto, e o que ganha não é o mais interessante. De um lado, temos o melodrama da emigração clandestina, que a abertura atmosférica sugere mas a que o filme só a espaços faz justiça, através da história de Liza (Chulpan Khamatova), imigrante russa a quem o casamento com um vigarista sedutor veio estragar os planos. Do outro, temos a crónica truculenta da malandragem desenrascada, que segue a tentativa do marido Vítor (Fernando Luís) e dos seus comparsas de alcançarem o estatuto de mestres do crime que lhes escapa. E é essa comédia truculenta, filmada fotogenicamente numa Cova do Vapor de bilhete postal saída dos filmes de Jean-Pierre Jeunet, a que João Nuno Pinto dá prioridade na sua adaptação de um conto de Luísa Costa Gomes. O que resulta é um filme simpático, dirigido com evidente estilo e atenção aos actores, mas desequilibrado, incapaz de escolher se quer seguir o drama da imigração ou a comédia do pequeno crime. São, ainda assim, falhas de primeiro filme que sugere haver talento para mais e melhor.